Este novo disco de Paulo Tó é uma emoção e um acontecimento!
Para quem, deste lado do oceano, conhece uma boa parte destas canções,
desengane-se: nunca as ouviu. Nunca assim, reemergindo cinquenta anos depois
(nalguns casos mais), fundidas com a cultura musical brasileira - e com força
nova, arranjo mudado, outra musicalidade. Para alguns, será virgem descoberta.
Mas mesmo quem, em Portugal, se habituou a saber do Fausto, do Zé Mário, do
Sérgio Godinho ou do Zeca Afonso, não conseguirá escapar à maravilha quando escutar
algumas das pérolas que o Paulo Tó arrancou, vigorosamente, ao nosso
esquecimento coletivo. É um espanto ouvi-las brotar, meio século depois, como
se a voz do Paulo Tó tivesse chegado para sacudir o esmorecimento e fazer a
turba romper outra vez.
E não são umas quaisquer canções, as que foram escolhidas para compor
este disco. São as nossas canções de resistência e de revolução.
Poderíamos dizer, sem dúvida, que elas dão a ouvir um certo tempo
histórico. Desde logo, o da ditadura em que algumas nasceram e que denunciaram
com as metáforas possíveis para fugir à censura. Como “Os Vampiros”, de 1963,
“verdadeiro meteoro caído com estrondo nas águas chocas” (a expressão é do
Sérgio Godinho) do regime fascista e da sua paisagem musical.
Mas muitas destas músicas são “Cantos da Revolução” porque a sua
existência é revolucionária, antes mesmo da revolução política do 25 de abril.
De facto, mais do que “dar a ouvir” o seu tempo histórico, algumas destas
canções interromperam-no, mudando para sempre a música portuguesa. Em 1971,
três anos antes do fim da ditadura, três discos inesquecíveis, do Sérgio
Godinho, do Zé Mário e do Zeca, foram gravados em Paris. É deles que vêm
algumas algumas das mais belas canções que Paulo Tó escolheu para este álbum:
“Maio, maduro Maio” (do Zeca), “Que Força É Essa” (do Sérgio), “Mudam-se os
tempos, Mudam-se as vontades” (do Zé Mário, que junta aos versos de Camões a
sua própria estrofe de apelo à ação). Três músicas compostas e editadas durante
o fascismo, mas que são já de um outro tempo, de um tempo por vir, como se
estivessem a antecipá-lo. Quer pelas suas palavras, que parecem adivinhar o que
virá, quer pela sua forma musical, pelas suas “encenações sonoras” que
inauguram já uma outra época sensível, distante da balada e do fado. Nesse ano
de 1971, conta Luís Freitas Branco, na apresentação em Lisboa dos álbuns de Zé
Mário Branco e de Sérgio Godinho – “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e
“Os Sobreviventes”, que abre com “Que Força é Essa” – havia duas cadeiras
vazias no palco, representando simbolicamente o exílio dos dois cantores. É
possível imaginar presença mais ruidosa que essa?
Noutros casos, as canções escolhidas por Paulo Tó para este disco só
poderiam ser filhas do PREC, o Processo Revolucionário Em Curso, cujos
cinquenta anos agora se celebram. São músicas nascidas no meio dessa alucinante
aceleração do tempo, que participam do processo, são testemunho e parte, são
“alimento e companhia” de um momento em que tudo era possível porque tudo tinha
de ser inventado perante a estrondosa queda do velho mundo. São empolgantes
“Cantos da Revolução”, claro, as músicas do Fausto ou do Sérgio Godinho, que
falam de mais-valia, das contas a ajustar com a exploração, da raiva e da força
do trabalho, da urgência de varrer o capital. Como ouvir essas músicas agora
que a história é outra? Grande comoção escutá-las assim, no modo como o Paulo
Tó as traz para o nosso tempo e, dando-lhes outro ritmo, faz com que a sua
vibração ressoe nas nossas aflições e esperanças, descolonizando até o nosso
imaginário, ampliando-o perante a estranheza de um projeto que dizia então o
seu nome com palavras certeiras. Nós já fomos capazes de sonhar e de fazer isto
tudo, não já?
“Cantos da Revolução”, ainda? - perguntamo-nos talvez quando o álbum
chega ao fim. Sê-lo-ão, mesmo quando o furacão amainou (“As Horas
Extraordinárias é de 1983) e quando o tempo é de torpor? “Cantos da Revolução”,
ainda, sim, porque há quem não tenha fugido nem fique à espera (a música do Zé
Mário que encerra este disco é de 1990). Afinal, ao final, parece que todas
estas músicas, da primeira à última, são ao mesmo tempo intempestivas e
urgentes num tempo como o nosso. Obrigado, Paulo Tó, por este pequeno tesouro.
Agora é connosco: ouvir, partilhar e “espalhar a notícia”!
·
José Soeiro - 28 de abril 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário