9.5.26

OPINIÃO: Ao passar a alfândega moral


António José Seguro acaba de oferecer ao país uma dessas pequenas obras-primas de género ao promulgar ao contrário do que pensa, com a nota de rodapé tão extensa e penitente de quem quer transformar a contradição em profundidade institucional. Como se assinasse um cheque enquanto murmura ao balcão do banco que discorda profundamente da quantia, da caligrafia e até do encontro de contas. "Aprovo, mas não me confundam com isto", uma espécie de pecado com declaração de inocência anexada.

Quando um presidente da República sente necessidade de se afastar politicamente da lei que promulga, talvez possa existir matéria suficiente para um veto. A ironia não está apenas no acto, mas sim na liturgia moral que o acompanha. Seguro promulgou o diploma aprovado pela maioria de Direita com o inevitável perfume de urgência identitária que hoje atravessa a Europa. E, simultaneamente, decidiu deixar escrito que preferia "maior consenso" e menos "marcas ideológicas do momento". Seguro optou por discordar em voz alta e concordar no "Diário da República".

A nova lei endurece regras, duplica prazos, transforma a nacionalidade num corredor burocrático estreito e deixa pelo caminho o princípio de integração gradual que Portugal foi construindo, não por ingenuidade (como agora repetem os ministros da firmeza patriótica). Um país emigrante devia ter memória suficiente para não se transformar numa alfândega moral. Até aqui, um estrangeiro podia pedir a nacionalidade portuguesa ao fim de cinco anos de residência: agora passa a precisar de dez. Se vier da CPLP ou da União Europeia, beneficia da generosidade possível dos novos tempos: fica pelos sete. Antes, bastava que um dos pais estivesse há um ano em Portugal para uma criança nascida no país ter acesso à nacionalidade: agora exigem-se cinco anos de residência legal. O país que durante décadas transformou a integração numa política pública decidiu subitamente comportar-se como porteiro de discoteca. Tudo embrulhado num discurso sobre rigor, controlo e equilíbrio, palavras que a política usa frequentemente quando quer evitar a palavra "medo".

É possível olhar para esta promulgação como moeda de troca antecipada para o conflito seguinte: a lei laboral. Seguro sabe que a Esquerda que o engoliu em segunda volta não o ama de paixão. Tolera-o, num casamento de emergência sanitária contra Ventura. E sabe também que o pacote laboral do Governo será o verdadeiro "primeiro teste" de mandato quando, durante a campanha, prometeu chumbar as alterações laborais se não houvesse acordo com a UGT. Até podia ser uma aceitável moeda de troca, se não tivesse criado uma nova figura institucional de um presidente-em-voto-de-vencido de si mesmo.

Miguel Guedes – Jornal de Notícias - 8 de maio, 2026