11.5.26

OPINÃO: Também me pus a jeito


Haverá quem diga que me pus a jeito com esta crónica. Quem revire os olhos por já não haver pachorra para tanta vitimização. Quem profira insultos gratuitos e comentários jocosos vociferados nas redes sociais, sermões de condescendência reprimidos por intelectuais machistas ou palavras pejadas de hipocrisia de quem, na verdade, já não suporta os dramas exagerados de miúdas que falam demais, criticam demais, opinam demais. Afinal, quem pensam elas que são?

A notícia de que uma jovem de 22 anos terá sido violada no Queimódromo do Porto, durante a madrugada da penúltima noite da Queima das Fitas, por um homem de 25 anos, reacendeu em mim uma chama que, na verdade, nunca se apaga. O esgoto em que se tornaram as caixas de comentários das redes sociais, manietadas por um algoritmo perverso que se alimenta da desgraça, serviu de pólvora à luta que nunca darei por terminada. No país do "pôs-se a jeito" - essa filosofia de autocensura e autocontrolo imposta às mulheres - que vive, como tantos, refém do imediatismo digital, logo desaguaram as acusações fétidas do costume.Das clássicas se "bebesse água", não tivesse "bebido até cair" ou não andasse "tão descapotável", às indignadas "agora é tudo violação", "fazem o que querem e arrependem-se no dia seguinte", até às indiferentes "outra vez arroz", "já é tradição" ou "mais do mesmo", a esmagadora maioria das expressões colocou, como sempre, o ónus na vítima. A desculpabilização do agressor já cansa. Mais do que bacoca, é doentia. É lamentável que ainda precisemos de repetir que as circunstâncias da vítima nunca são motivo para crimes sexuais, ainda que tenham sido recentemente justificados em horário nobre pela "adrenalina" do momento.

Mais dia menos dia, o alegado crime que ocorreu no Porto será absorvido pela espuma dos dias. É tão instantânea a reação superficial como o esquecimento. Mas as agressões sexuais não se esgotam e assumem muitas formas, desde toques indesejados nos transportes públicos, piropos lançados na rua a todo o momento ou insinuações não desejadas feitas por colegas de trabalho.

Não são mitos. A masculinidade tóxica é cada vez mais desavergonhada e o machismo cada vez mais assumido. E crescem como erva daninha nas escolas, onde professores assumem o alarmismo perante o aumento do discurso e de atos misóginos, como o de rapazes que exigem sexo como prova de amor, e na Internet, onde a teia da manosfera é cada vez mais densa e difícil de perfurar. E aqui, falhamos todos. Sobretudo o Estado, que deve, de uma vez por todas, recentrar prioridades para evitar que andemos (cada vez mais) para trás.

Sara Gerivaz – Jornal de Notícias - 11 de maio, 2026