10.3.26

S. SIMÃO _ Histórias do Povo - José Hilário


TARDES DE DOMINGO 

Acto contínuo à assinatura do tratado de paz, entre os países beligerantes, envolvidos na primeira guerra mundial, os militares portugueses, regressaram garbosamente à sua terra natal, com muitas histórias para contar a um povo sedento de as ouvir e de as memorizar.

            É certo que, poucas vezes saíram das trincheiras, mas aperceberam-se das potencialidades de um país chamado França.

            Por volta de 1925, saíram do Pé da Serra, os primeiros emigrantes de que há conhecimento, rumo a França, emanados de uma esperança de enriquecimento fácil e rápido.

            Uns regressaram à aldeia que os viu nascer, poucos anos depois, com os bolsos mais vazios, do que quando partiram, outros de França, rumaram à descoberta de terras do Novo Mundo, acreditando que desta vez é que a sorte não lhes iria ser madrasta.

            Ti Ambrósio foi um dos que regressou à santa terrinha, mais “liso” do que quando deixou os seus, mas ficou para sempre, sendo um admirador fanático da França, à qual chamava ironicamente “País de Gente”.

            O largo principal da aldeia, “O Largo das Carretas”, era o centro do mundo. Era ali que a rapaziada praticava futebol, pé descalço, com dois punhados de farelos, dentro de uma meia velha, enrolada diversas vezes sobre si mesma, à cabra-cega, ou se entregava a correrias loucas sem nexo.

            As meninas adolescentes, disciplinadamente dançavam modas de roda, o giroflé-giroflá, sob atenta vigilância das mães.

Era ali que no Verão, as carretas carregadas de trigo ou palha, ou no Inverno com enormes “bidons” de azeite, faziam uma breve paragem, para que as vacas pudessem restabelecer energias.

Os funerários, tinham e têm ainda hoje, paragem obrigatória, de modo a permitir a reunificação de todos os acompanhantes e rezar o padre-nosso em uníssono.

No Verão, época de casamentos, acordeonista em cima de uma carroça, “farrom-fom-fom”, vai de baile até ás tantas, envoltos num espoginho poeirento, transformado em lama depois de misturado com o suor dos bailadores.

Por ali acampavam ciganos, malteses sem “eira nem beira”, comediantes sem graça alguma, a troco de uma tigela de azeitonas.

Por ali permaneciam pacientemente, homens sem trabalho, ouvindo e transmitindo as novidades, mudando-se lentamente do sol para a sombra, ou vice-versa e muitas das vezes discutindo raivosamente, uns com os outros “por dá cá aquela palha”.

Todos os sábados à tardinha, lá estava a carrinha da Gulbenkian, cheia de livros, para ajudar a passar os longos serões de Inverno, àqueles que gostavam de ler.

           Ganhei o prazer de ler devido a esta biblioteca itinerante.

Era no Largo das Carretas que o “Ti Ambrósio”, homem normalmente de poucas palavras, sorumbático, que aos domingos à tarde, mais borracho que um pipo de carvalho, direito que nem um fuso, se colocava na parte mais alta do muro e transformava a sua personalidade tal e qual como a noite se transforma em dia.

Silêncio sepulcral em todo o largo.

As meninas paravam com as danças, os rapazes colocavam-se à sua volta, formando um semi-círculo, equidistante dele, aproximando-se ou afastando-se como se fossem atraídos ou repelidos por um íman, cujas linhas de força comandavam os seus movimentos.

Os homens adultos fingiam não ligar ao que o tonto do Ambrósio apregoava, as mulheres formavam pequenos grupos, cochichando, e de vez enquando riam desalmadamente.

E o discurso continuava alto e bom som.

-Isto é um país de merda…

“O Salazar é o maior ladrão deste mundo, só sabe roubar aos pobres para dar aos ricos.

Cerejeira e padralhada fora…rua!”

A mulher e a filha, desde o início do espectáculo, fechavam-se em casa, fechadura “rota à chave”, postigo ligeiramente aberto, ouvidos bem sintonizados, com o coração apertado, os minutos pareciam horas, esperavam ansiosamente  que o discurso terminasse, antes que o tenente Abóbora, comandante da GNR de Nisa, aparecesse e mandasse levar o único ganha-pão daquela pobre casa.

-Parvalhões! Levam livros para casa, para ler ao serão.

Alguém lhe lembrou:

- Ó “Ti Ambrósio”, os livros são muito úteis e além disso são de graça.

-Basta que sim - retorquiu o orador convictamente. De graça uma ova. Então esse tal Gulbenkian não é o rei do petróleo?

-Parece que sim.

-Pois é ! É de graça, é de graça, mas para lerem um livro, os palermas têm de gastar pelo menos cinco litros de petróleo.

Risada geral do Zé Povinho.

Os temas dos seus discursos não incidiam simples e unicamente na religião, nos governantes, no seu Benfica, ou na sua querida França.

Certa vez abordou um tema diferente dos habituais.

-Andam para aí a dizer que a terra se move, que anda, se assim fosse quando eu chegasse ao Azinhal já a panela dos feijões pretos estava em Alpalhão.

Gargalhadas novamente.

Segunda-feira bem cedinho, fatada aviada para uma semana de trabalho duro, seis dias sem vir a casa, alforges ás costas, lá partia sem responder ás ralhações da mulher.

Em toda a semana ninguém lhe ouvia fosse o que fosse, os companheiros bem puxavam por ele, mas dali não ouviam nem um ai.

* José Hilário - Junho de 2002

** Pintura de José Malhoa