É com isto que PSD, CDS e Chega querem acabar, revertendo a lei. É esta
crueldade que pretendem impor; crianças que deixarão de poder ser tratadas na
escola pelo nome social que escolheram; adolescentes de 16 anos que deixarão de
poder mudar o seu nome no registo civil; adultos de 18 anos que poderão
fazê-lo, mas só com atestado médico assinado por dois profissionais. Para esses
deputados, a liberdade individual e a autodeterminação não têm qualquer valor.
Quem decide o que é cada cidadão é o Estado. Se nenhum dos deputados se sentiu
alguma vez num corpo ou com o nome errado, não há razão para aceitar que isso
aconteça aos outros. O Estado tem de combater a bizarria, não acomodá-la. Nação
valente, imortal e tudo isso.
Indivíduos fora da norma são um perigo. Que o diga Paulo Núncio, do
CDS, combatente implacável dos "delírios woke" (e que tal falar em
português?). Ou Madalena Carneiro, do Chega, para quem "um homem é um
homem e uma mulher é uma mulher", que foi o que leu num manual de Ciências
do 9.º ano. A partir daí, aparentemente, não leu mais nada. Como é que a
bancada do PSD alinhou nisto? Chama-se disciplina de voto. Para deputados
recalcitrantes, havia uma opção, sair no momento da votação e voltar logo a
seguir. Qual é o problema de violar a consciência? O que não se pode é
contrariar os chefes. Ainda algum concluía que são capazes de pensar pela
própria cabeça e, na próxima eleição legislativa, perdiam a cadeira parlamentar
e as prebendas.
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Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 22 de
março, 2026
