29.3.26

OPINIÃO: A cruzada do género


Aos três anos, Luz pediu uma saia à mãe. Aos 13, explicou que se sentia uma menina num corpo de menino. A saúde mental agravou-se, houve uma tentativa de suicídio. Depois começou a usar bloqueadores pubertários, que atrasam mas não impedem o desenvolvimento. E mudou de nome na escola. Aos 16, fê-lo no registo civil. "Foi libertador", diz. Maria pediu à mãe para ir de saia para a escola aos seis. Aos sete, mudou de nome na escola. "Mamã, eu acho que tenho um nome bonito, mas não é meu. Eu sou a Maria", explicou. "Não imaginava o poder que a troca de nome podia ter", disse a mãe ao "Expresso", agora que a filha tem oito e voltará a ser obrigada a assumir um nome em que não se revê. "Como dizer-lhe que não querem que ela seja como é?"

É com isto que PSD, CDS e Chega querem acabar, revertendo a lei. É esta crueldade que pretendem impor; crianças que deixarão de poder ser tratadas na escola pelo nome social que escolheram; adolescentes de 16 anos que deixarão de poder mudar o seu nome no registo civil; adultos de 18 anos que poderão fazê-lo, mas só com atestado médico assinado por dois profissionais. Para esses deputados, a liberdade individual e a autodeterminação não têm qualquer valor. Quem decide o que é cada cidadão é o Estado. Se nenhum dos deputados se sentiu alguma vez num corpo ou com o nome errado, não há razão para aceitar que isso aconteça aos outros. O Estado tem de combater a bizarria, não acomodá-la. Nação valente, imortal e tudo isso.

Indivíduos fora da norma são um perigo. Que o diga Paulo Núncio, do CDS, combatente implacável dos "delírios woke" (e que tal falar em português?). Ou Madalena Carneiro, do Chega, para quem "um homem é um homem e uma mulher é uma mulher", que foi o que leu num manual de Ciências do 9.º ano. A partir daí, aparentemente, não leu mais nada. Como é que a bancada do PSD alinhou nisto? Chama-se disciplina de voto. Para deputados recalcitrantes, havia uma opção, sair no momento da votação e voltar logo a seguir. Qual é o problema de violar a consciência? O que não se pode é contrariar os chefes. Ainda algum concluía que são capazes de pensar pela própria cabeça e, na próxima eleição legislativa, perdiam a cadeira parlamentar e as prebendas.

·         Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 22 de março, 2026