11.3.26

“Vai mas é para a tua terra!”: mês da história negra e misturas na Calçada do Combro


O grito era sincero mas desnecessário. No 12º episódio da série Fala-me de ti, Lisboa, uma viagem em exposição, a lisboetas misturados, que estão, mesmo, na cidade deles, país delas, terra dos doze.  A Black History Month na Calçada do Combro, na Junta de Freguesia da Misericórdia.

Há dias, 5 de fevereiro, 4 da tarde, inverno desgraçado, pela Calçada do Combro abaixo, adivinhando o Tejo enevoado, não cheguei lá. Não por os avisos prevenirem mais chuva, vento, inundações, mas porque eu tinha um encontro luminoso com meus patrícios mais queridos.

Daqueles de chegar perto deles e apetecer-nos sempre um abraço de agradecimento. Bem-vindo à tua pátria da Outra Banda, General! Por que partiste tão cedo, Lena? Meus respeitos, ó mãe de todos os repórteres portugueses, Senhora Dona Virgínia! Que saudades, Pantera! Olá, Tito Lisboa, tão Mindelo, quer dizer, tão nosso…

E, assim, repetida, uma homenagem a cada um e a todos, prestada a uma dúzia de personagens, que me são muito, muito queridas.

Nessa quinta-feira, às 4 da tarde, uma dúzia exata de ilustres lisboetas juntaram-se ao fundo da Calçada do Combro. Ali onde ela bifurca: ir pelo Poço dos Negros, travessa de nós todos, ou para a casa de todos nós, o Parlamento – uma, ou outra rua? Os doze ficaram ali mesmo (dizia a pretensiosa tabuleta: “Largo Doutor António de Sousa Macedo”), com dois palácios fronteiros e fidalgos, o Mesquitela e o Cabral. Entraram, à direita, no Palácio Cabral, nº 7 D, a porta larga da Junta de Freguesia da Misericórdia. Eu segui-os.

Foi lá que eles se transformaram, todos, em quadros-retrato e se penduraram nas paredes centenárias. Na verdade, se nos quadros estavam todos, os doze, presencialmente faltavam alguns que eu, podia jurar, vi descer juntos, pela calçada. Fica o leitor prevenido de que o aqui se vai contar é a Lisboa real, a eterna e extraordinária.

E há ainda quem diga: “Tanto mestiço, mas isto é Lisboa?…” Claro que é. Ele há outra coisa?

Estávamos no andar térreo, nas duas salas de exposição do Espaço Santa Catarina, com arcadas sem estuque para mostrar tijolos anteriores ao terramoto. Doze quadros-retrato expostos ao nosso agradecimento. E alguns dos retratados, como já referi, também em presença física e orgulhosa. Apeteceu-me, emocionado, gritar a todos e a cada um:

“Vai mas é para a tua terra!”

O grito era sincero, embora, evidentemente, desnecessário. Os doze retratados já lá estavam, na cidade, país, amor que tanto honraram. Cidade deles, país delas, terra dos doze. 

A inaugurada homenagem – a exposição decorre até 19 de fevereiro – traz este ano quatro novos quadros que se juntam aos das edições anteriores da Black History Month, em 2024 e 2025. Três edições, quatro pinturas por cada uma delas, doze quadros, a aritmética é a única coisa enfadonha nesta história.

A iniciativa Mês da História Negra veio de longe, de muito longe. Do Canadá, país do rio Saint-Laurent, ainda mais largo que o nosso Mar da Palha e que por esta altura está gelado (até abril). As fragatas e faluas de lá, se as houvesse, nem com quebra-gelo ousariam navegar. Mais uma razão por a oferta, vinda de tão longe, nos aquecer o coração.

Foi proposta canadiana celebrar-nos a presença e o contributo histórico das comunidades afrodescendentes em Portugal. O Canadá contribui oferecendo-nos quadros de figuras portuguesas de origem africana, pintadas por artistas deles, afro-canadianos.

Assim de repente, poderia parecer isto: eles (os canadianos) querem que nós celebremos, na nossa casa, o que se passa com gente que não tem, necessariamente, nada a ver com eles. Não seria de desconfiar, uma interferência de país estrangeiro em assunto interno nacional? Não, pelo contrário. É um abraço de dois países, ambos honrados pelos abraços que acontecem, todos os dias e de há muitos séculos, nesses dois países.

No Palácio Cabral, eu vi e ouvi a embaixadora Elise Racicot, em Lisboa desde 2022, a dizer que nos conhece. Diplomata gentil e inteligente, logo que chegou, ela pensou: que posso oferecer a um país cujos cidadãos, mais de meio milhão, tanto fazem no Canadá? Que podia fazer ela, em Portugal, para mostrar quanto estava agradecida?

Podia, por exemplo, servir nas receções da embaixada de Lisboa xarope de ácer, que é especialidade canadiana. Mas ela queria mais do que isso.

Elise Racicot começou por nos lembrar que no Canadá, desde 1970, há o festival tradicional Black History Month e esse Mês da História Negra, realizado sempre em fevereiro, consiste em homenagear os seus compatriotas de origem africana.

Uma história de viagem, de lá para cá e de cá para lá, que Portugal tão bem conhece. Daí que, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, a Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) e várias associações de portugueses afro-descendentes, ela nos tivesse incentivado a homenagem também por cá.

·       *   Ferreira Fernandes

·         ** Ilustração: Nuno Saraiva