São memórias e vozes de décadas da vida de Nisa que, ao longo do tempo,
foram sendo recolhidas oralmente, transcritas em papel quando possível, e
partilhadas de forma mais esporádica e pouco organizada nos últimos anos, como
fragmentos de uma história que corria o risco de se esvanecer. Mas agora ganham
novo formato para se perpetuarem no fabrico cultural do Alto Alentejo: eis a
“Antologia de Poetas Nisenses”.
Trata-se de uma coletânea de 24 autores locais organizada por Mário
Mendes e que é lançada amanhã, às 15h, após o Dia Mundial da Poesia (que se
celebra hoje) na sede da União de Freguesias de Espírito Santo, Nossa Senhora
da Graça e São Simão, no concelho de Nisa. "É um livro que era era
necessário fazer", garante Mário Mendes, em conversa com o Conta Lá
"porque além da da poesia em si ser poesia popular, retrata muito dos
aspectos da vida do concelho e principalmente da vida rural, da vida campestre,
do pastor", entre outros.
O trabalho tem como base principal poemas publicados no jornal
"Correio de Nisa", que entre as décadas de 60 e 70 deu destaque ao
trabalho de poetas locais, além de outras fontes. Autores que "a maioria
da população não conhece", e que levaram Mário Mendes a um esforço
"dilatado no tempo" que o levou a folhear inúmeras edições do jornal
na biblioteca local para selecionar os poemas. "Apercebi-me, de facto, do
grande contingente de poetas" que há em Nisa e das "poesias que
haviam, muitas delas de bom nível, de excelente nível mesmo", reforça:
"Conseguimos fazer uma coletânea que eu penso que não deslustra e que
engrandece quer a iniciativa, quer a própria união de freguesias".
Concelho de poetas
Além "da diversidade dos temas", Mário Mendes volta a realçar
a "qualidade e depois também a quantidade, quer dos poemas, quer dos
autores". Até porque se trata de uma antologia que não se circunscreve
apenas à parte urbana do concelho de Nisa mas sim a toda sua extensão rural.
Com muita prevalência de um tipo de escrita poética que o encanta, "as
décimas".
Falamos de poemas muito comuns na tradição oral, caracterizados por
rimas complexas e métrica de sete ou dez sílabas, típicos do Alentejo. Em convívios, "entre um copo e outro
numa taverna", poetas "muitas vezes analfabetos" passavam serões
a declamar esses versos", explica. Para que não se perdessem, "foram
ditos pelos próprios autores a outras pessoas que os recolheram", na esperança
de se guardar a memória viva das tradições. Aliás, Mário Mendes não tem
dúvidas: "Nisa é um concelho de poetas. Isto também é um motivo que que
levou a fazer essa recolha".
"Acima de tudo, o mais importante é nós podermos de certa forma
contribuir para que haja uma valorização da cultura e da identidade da nossa
freguesia", complemente o presidente da Junta de Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e São
Simão, Mário Rui Macedo. "A cultura e o património local são dois pilares
fundamentais", reforça, até porque é importante "lembrar que há anos
faziam-se coisas que hoje deixavam de se fazer precisamente porque foram
esquecidas". Para evitar que tal aconteça, a "poesia pode chegar a
esse nível", acredita.
O livro "contribui também para dar valor aos autores que ainda estão em vida", sustenta Mário Rui Macedo, que acredita hoje numa casa cheia para valorizar o trabalho cultural destes poetas e com algumas surpresas para quem marcar presença. Já a “Antologia de Poetas Nisenses” vai estar à venda na sede da Junta de Freguesia com o custo de €12. Retratos, aponta, "que são diferentes dos tempos atuais que vivemos". E deixa a questão: "Penso que as tradições e esses sentimentos é que fazem parte da nossa memória enquanto povo, não é?"
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Tiago Oliveira - 21 mar. 2026 - https://conta-la.pt

