28.3.26

OPINIÃO: Radares, multas e acidentes


No ano passado, as multas rodoviárias renderam ao Estado quase 87 milhões de euros, que representaram uma subida de 23% em comparação com 2024. A instalação de radares de controlo de velocidade foi um dos principais motores deste aumento e tudo indica que o caminho é para prosseguir. Rui Rocha, secretário de Estado da Proteção Civil, anunciou esta terça-feira que está em estudo a localização de 12 novos radares para medir a velocidade média. O investimento em segurança é sempre útil, sobretudo quando o objetivo é a prevenção, com sinalização bem visível, e não a caça à multa. Pena é que a par da fiscalização não haja uma estratégia ambiciosa com medidas multissetoriais. Os dados de sinistralidade mostram bem a urgência de uma ação concertada. Até 23 de março, o Observatório de Segurança Rodoviária contabiliza já 95 vítimas mortais de acidentes, mais 10 do que em igual período de 2025. E as estatísticas são ainda mais dramáticas na análise de longo prazo: numa década, temos estado a marcar passo e com taxas de sinistralidade que pouco recuaram em relação a 2017.

Ao anunciar novos radares, o governante responsabilizou os próprios automobilistas, recordando comportamentos como o excesso de velocidade e o uso de telemóvel, causadores de uma elevada percentagem de acidentes. Acontece que o Estado não pode demitir-se das suas competências nesta matéria, nomeadamente na formação e na melhoria das infraestruturas. É incompreensível que a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária esteja por aprovar desde 2020. É inaceitável que, mês após mês, continue a ser anunciada "para breve" a sua consulta pública, sem que ninguém - incluindo na Oposição - pareça preocupado com este atraso. Neste capítulo, falhamos com estrondo, mas curiosamente sem alarido político.

·         Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 25 de março, 2026