30.3.25

OPINIÃO: Do ecrã ao crime


Mais importante que retirar os telemóveis dos estabelecimentos de ensino é saber o que os estudantes mais novos fazem com eles, especialmente fora do ambiente escolar. A maior parte de nós, diga-se, não faz a mínima ideia. Nem sequer falamos a mesma linguagem.

Nas últimas semanas, na sequência da série de sucesso “Adolescência”, o debate sobre bullying, ódio online, radicalismo e mau uso das redes sociais entre jovens e adolescentes ganhou um lugar que nunca teve. Infelizmente, à custa do medo. Do receio de que a notícia de que três jovens se filmaram a violar, em Loures, uma rapariga de 16 anos e partilharam imagens online seja sobre a nossa família, sobre os nossos filhos.

O papel da escola no combate ao bullying não tem sido ativo nem efetivo. A prova é que grande parte da comunidade educativa descobre agora expressões como “nonce” ou “incel”, pedófilo e homem que culpa as mulheres pela sua dificuldade em estabelecer relações íntimas, respetivamente.

A nossa “emojipedia” também se alargou. Ficamos a conhecer símbolos que representam órgãos sexuais, conteúdos eróticos e drogas. Uma aprendizagem que chegou aos ecrãs dos smartphones via PSP, que tem feito um excelente trabalho nas redes sociais. Um verdadeiro serviço público que devia servir de exemplo a quem define políticas educativas e pedagógicas.

Numa altura em que se partilham violações, em que a delinquência juvenil volta a subir e em que há menores a ganhar dinheiro com pornografia digital, o tema já não é proibir os telefones nas escolas. Isso é apenas deslocar o problema para outros ambientes. 

        Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 28 março, 2025