29.3.25

NISA. O Centro Histórico - Memória e Apagamento (II)

 


Aproveitando a tarde solarenga e a propósito de assinalar o Dia Nacional dos Centros Históricos fiz uma visita a edifícios e ruas da antiga bastide nisense. O que vi, deixou-me triste e desalentado. Impressiona, não só a desertificação do chamado centro histórico, como a ausência de limpeza nas ruas, a flagrante falta de cuidados de manutenção dos edifícios, mormente de alguns que, desde há muito, deviam estar classificados.

Sufoca-me o coração, olhar e sentir o actual estado da Rua Direita, que a fértil imaginação idalinista transformou numa espécie de necrotério, com os retratos de alguns antigos moradores afixados nas frontarias das casas. Rostos que, na maioria dos casos nada dizem ou acrescentam à história vivida dos edifícios, contribuindo, inclusive, para deturpar muitas das actividades que neles se desenvolveram. Estão lá, ainda, duas das casas em que morei, uma delas de onde saí para me casar.

Visitei o Núcleo do Bordado, inaugurado em Abril de 2005, e que a edil, seguindo uma estratégia de apagamento histórico e da obra de anteriores autarcas, resolveu – uma vez mais sem dar cavaco a ninguém – “rebaptizar” de Casa da Etnografia. Os bordados de grande valor que se mostravam em vitrines na entrada do edifício, bem como outros artefactos, “viajaram” para o Museu do Bordado e do Barro. O edifício funciona agora como sede de um serviço municipal denominado Radar Social. É um radar “silencioso” e que, sem qualquer indicação no exterior afasta os visitantes e inibe-os de testarem a sua curiosidade e conhecerem o rico acervo artesanal que o edifício abriga. Está fechado aos fins-de-semana, poupando a Câmara em mão de obra de funcionários e remetendo os visitantes ou para a “Rua das Pedrinhas” (queres ver que o piso da Ruinha de Santa Maria era em terra batida?) ou para o edifício da “moda”, a Casa das Memórias que, com o designado Centro de Artes e Ofícios” merecem as “honras” da publicidade institucional em tudo o que é sítio.

Visitei, pela primeira vez, a Casa das Memórias”, tantas as memórias de infância e juventude que tinha (e tenho) do amplo edifício que se estende desde a Cadeia Velha.

Nesta rua, de tantas recordações e afectos, fiquei boquiaberto com a desinformação toponímica (rima com idalínica) que as novas placas metalizadas e côr de vinho, ostentam. Dizer que o antigo Canto da Cadeia era, afinal, o Canto de S. Pedro só pode resultar de uma de duas coisas: ignorância (que é, no fundo) e de provocação. O antigo Canto de S. Pedro existia, sim, mas na actual (desde 1932) Rua Capitão Vaz Monteiro, designação que substituiu, graças a favores políticos durante a Ditadura, a de Rua de S. Pedro.

E como aparece aqui o “S. Pedro”? perguntarão. Apenas e tão só porque a edilidade adquiriu uma casa e que demoliu dando ao espaço o nome pomposo, mais um, de “Canto da Muralha”. E ali, naquele recanto, por artes idalínicas, foram colocados alguns blocos esculpidos em granito, talvez desencantados no “Curral da Adua”, um deles com simbologia religiosa, indicando tratar-se de restos de obras efectuadas na capela de S. Pedro, na rua, original, do mesmo nome e que a Câmara demoliu em 1970, integrando todo o terreno (capela e adro) no património da Misericórdia.

Um bloco com simbologia de S. Pedro? Oh! Lá lá! Pronto, foi encontrado pela frenética mente idalinista, o nome “antigo” do Canto da Cadeia e, sem mais demoras toca a imprimi-lo numa placa “baptismal” para enganar actuais e vindouros. Assim se refaz ou desfaz a história.

Num curto espaço de cinco metros, mais duas placas metálicas, estas de homenagem ao ego da edil, a dizerem que foi ela que inaugurou, o edifício de poucas memórias (e algumas bem más e agonizantes) e o Canto.

Idalina, na outra vida, devia pertencer à alta nobreza, tal a quantidade de baptizados que tem protagonizado e de afilhados/as que tem deixado, em cada “canto”. Deixo a “Casa das Memórias” para mais tarde e sigo.

A Rua Dr. Graça (antiga Rua do Poço) era a mais populosa, agitada e alegre rua da “Vila”. Hoje está completamente transfigurada. Edifícios em ruínas e outros com obras começadas há mais de 20 anos e nunca concluídas, casas abandonadas, a “pele” de muitas frontarias a mostrarem um colossal desleixo, como que gritando a pedir socorro e intervenções urgentes. Junta-se a tudo isso, a sensação de caminharmos num arruamento fantasma, sem vivalma, a que se juntou também a nova “moda” do entaipamento forçado, em cimento e tijolo, de portas e janelas para fazer frente à intrusão, roubo e vandalismo.

Alguns proprietários de casas bem pretendem dar-lhes um novo destino e aproveitamento, mas a Câmara, tal como no passado, é inflexível, remete para normas e regulamentos, aponta a designação de “Centro Histórico” como um papão e proíbe a moradores e proprietários, tipos de construção e materiais que ela própria, Câmara, utiliza em larga escala à revelia das leis, que como entidade pública estaria obrigada a cumprir. O exemplo mais acabado está no edifício do Hospital Velho.

O Centro Histórico, a “Vila”, precisa de medidas e acções municipais de outro nível, mais arrojado e sustentável. Não de casas dos bolos ou de “centros interpretativos”, nem de espampanantes e colossais placards colocados em edifícios particulares, publicitando o que não existe e impedindo que as frontarias possam respirar e ganhar alguma alegria.

O Centro Histórico de Nisa é um “projecto” folclórico, pimba. Páginas e páginas de intenções, repetidas a cada semana e que não são – nunca foram – para cumprir.

Mas, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas” e os nisenses, iludidos e mal pagos, pela propaganda, lá vão continuando a dizer: Dé! Nisa tá munte bunita!

Uma autêntica maravilha. A senhum presidenta até diz que a vila tem a rua mais bonita do universe!

* Mário Mendes