Há muitos anos atrás
Era costume ouvir dizer
Pelas ruas "tã, já lá vás"?
Muito antes do sol nascer.
Com botas brochadas
Pelas ruas a arrastar
Era o galo das madrugadas
E o aviso para acordar.
Sem muito tempo se perder
Era muito frequente
Irem à taberna beber
Um copo de aguardente.
Era então que começava
A sua árdua labuta
Pois o campo os esperava
Para mais um dia de luta.
Os campos noutras eras
Eram todos p´ra searas
Agora andam sujos deveras
Só há javalis e xáras.
Havia trigais tamanhos
E vida por todos os lados
Muita gente... grandes rebanhos
Como os tempos estão mudados!...
Toda a gente se esforçava
Por as terras cultivar
Logo o mato se limpava
Ao começar a alastrar.
Aqui e além se ouvia
Pessoas ou animais
A solidão não se sentia
Mesmo em distantes locais.
Pelos campos vida havia
Essa via que hoje não há
Parte dessa gente que se via
Já partiu, já lá não está.
As hortas e os pomares
Eram fonte de alimento
Para governar tantos lares
Como meio de sustento.
Prendiam-se burros à nora
Com os alcatruzes a despejar
A água que revigora
Toda a planta a criar.
Agora essas hortas
Onde se plantava o cebolo
Quase todas já estão mortas
Causam grande desconsolo.
A partir dos anos oitenta
Começou a grande invasão
Que de ano para ano aumenta
Dos eucaliptos, a plantação.
Depois das máquinas romperem
Esses matagais bravios
Há eucaliptos a crescerem
Já em numerosos plantios.
A pouca gente de Montalvão
Que ainda aqui se mantém
Desagrada-lhe tal situação
Visto que pouco lhe convém.
Havia fontes também
Com boa "água batida"
Onde cada um enchia bem
A infusa bem medida.
Diz-se "água batida"
Quando é boa para beber
Se a fonte anda mexida
Por tanta gente abastecer.
Muitas fontes presentemente
Ao recordá-las do passado
O que foi orgulho de outra gente
Está hoje tudo abandonado.
Havia palheiros e currais
Por esses campos espalhados
Para encerrar os animais
E ter os fenos guardados.
Muitos deles, sem telhado
E outros até já caídos
São relíquias do passado
Ou tesouros já perdidos.
Estar ao lume num palheiro
E ouvir o vento soprar
Com um forte aguaceiro
No telhado a desabar.
Causa uma sensação
De sonolência e moleza
Sendo perfeita a comunhão
Entre a vida e a natureza.
Dos campos ao regressarem
Pelos caminhos e azinhagas
Era ouvi-los a cantarem
E à alegria dando largas.
Apesar de fatigados
Traziam risos no rosto
Quando à vila já chegados
Era a festa do sol-posto.
Uns a pé outros a cavalo
E também de bicicleta
O regresso era um regalo
Com a rua de gente repleta.
Lá estão ainda as ruas
Com as pedras da calçada
Mas já sem as gentes suas
Minha terra abandonada.