30.3.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (XIX) _ António dos Santos Sequeira


OS CAMPOS E OS CAMPONESES 

Há muitos anos atrás

Era costume ouvir dizer

Pelas ruas "tã, já lá vás"?

Muito antes do sol nascer.

 

Com botas brochadas

Pelas ruas a arrastar

Era o galo das madrugadas

E o aviso para acordar.

 

Sem muito tempo se perder

Era muito frequente

Irem à taberna beber

Um copo de aguardente.

 

Era então que começava

A sua árdua labuta

Pois o campo os esperava

Para mais um dia de luta.

 

Os campos noutras eras

Eram todos p´ra searas

Agora andam sujos deveras

Só há javalis e xáras.

 

Havia trigais tamanhos

E vida por todos os lados

Muita gente... grandes rebanhos

Como os tempos estão mudados!...

 

Toda a gente se esforçava

Por as terras cultivar

Logo o mato se limpava

Ao começar a alastrar.

 

Aqui e além se ouvia

Pessoas ou animais

A solidão não se sentia

Mesmo em distantes locais.

 

Pelos campos vida havia

Essa via que hoje não há

Parte dessa gente que se via

Já partiu, já lá não está.

 

As hortas e os pomares

Eram fonte de alimento

Para governar tantos lares

Como meio de sustento.

 

Prendiam-se burros à nora

Com os alcatruzes a despejar

A água que revigora

Toda a planta a criar.

 

Agora essas hortas

Onde se plantava o cebolo

Quase todas já estão mortas

Causam grande desconsolo.

 

A partir dos anos oitenta

Começou a grande invasão

Que de ano para ano aumenta

Dos eucaliptos, a plantação.

 

Depois das máquinas romperem

Esses matagais bravios

Há eucaliptos a crescerem

Já em numerosos plantios.

 

A pouca gente de Montalvão

Que ainda aqui se mantém

Desagrada-lhe tal situação

Visto que pouco lhe convém.

 

Havia fontes também

Com boa "água batida"

Onde cada um enchia bem

A infusa bem medida.

 

Diz-se "água batida"

Quando é boa para beber

Se a fonte anda mexida

Por tanta gente abastecer.

 

Muitas fontes presentemente

Ao recordá-las do passado

O que foi orgulho de outra gente

Está hoje tudo abandonado.

 

Havia palheiros e currais

Por esses campos espalhados

Para encerrar os animais

E ter os fenos guardados.

 

Muitos deles, sem telhado

E outros até já caídos

São relíquias do passado

Ou tesouros já perdidos.

 

Estar ao lume num palheiro

E ouvir o vento soprar

Com um forte aguaceiro

No telhado a desabar.

 

Causa uma sensação

De sonolência e moleza

Sendo perfeita a comunhão

Entre a vida e a natureza.

 

Dos campos ao regressarem

Pelos caminhos e azinhagas

Era ouvi-los a cantarem

E à alegria dando largas.

 

Apesar de fatigados

Traziam risos no rosto

Quando à vila já chegados

Era a festa do sol-posto.

 

Uns a pé outros a cavalo

E também de bicicleta

O regresso era um regalo

Com a rua de gente repleta.

 

Lá estão ainda as ruas

Com as pedras da calçada

Mas já sem as gentes suas

Minha terra abandonada.

* António dos Santos Sequeira 

** IMAGEM: Diogo Margarido