20.3.25

OPINIÃO: A paz e o pão: a encruzilhada europeia

 


Enquanto que as potências europeias, recentemente reunidas em Londres, continuam a marchar ao som dos tambores de uma guerra perdida, os direitos sociais e económicos dos seus povos esvaem-se em sangue.

Diziam-nos que não havia dinheiro para garantir a saúde pública, a educação ou a habitação. Não havia margem para aumentar salários, reduzir jornadas de trabalho ou melhorar as pensões. No entanto, há dinheiro – e em abundância – para continuar a alimentar uma guerra que nunca deveria ter existido, uma guerra travada à custa das condições de vida de milhões de trabalhadores na Europa.

A NATO e a União Europeia (UE) não só provocaram a guerra na Ucrânia, como agora se recusam a pôr-lhe fim. Apesar da suposta retirada dos Estados Unidos desse ermo de morte, repressão e pilhagem ocidental em que transformaram a Ucrânia, são agora a União Europeia e o Reino Unido – o mesmo que ontem rompia com Bruxelas e hoje se arvora em líder desta aventura militar – quem encabeça a escalada. Para eles, a guerra já não é só um negócio: é a cartada perfeita para justificar o seu rearmamento, a sua dívida infinita, o seu fracassado experimento de um exército europeu que só serve para disparar contra outros povos... e, quando chegar a altura, contra o seu próprio povo.

Como pode a mesma UE que impôs tectos de despesa, cortes e privatizações sob o mantra da austeridade agora propor gastar sem limites em armamento? Como podem os mesmos governos que reduzem orçamentos na saúde e encerram escolas multiplicar as suas despesas militares e exigir-nos que paguemos em silêncio?

Os exemplos da Alemanha, França e Espanha

A Alemanha é o caso mais evidente. Após décadas de "contenção" orçamental, o seu governo anunciou um fundo extraordinário de 100 mil milhões de euros para o rearmamento, e já avisou que poderá ser ampliado. Onde ficou o travão à dívida? Onde ficaram os limites ao défice?

Em França, enquanto Emmanuel Macron esmaga os protestos contra a reforma das pensões, destina 413 mil milhões de euros para despesas militares no período de 2024-2030. De onde vem esse dinheiro? Dos nossos bolsos, das nossas condições de vida, da nossa precariedade.

Como pode a mesma UE que impôs tectos de despesa, cortes e privatizações sob o mantra da austeridade agora propor gastar sem limites em armamento?

Espanha, que continua com um sistema de saúde pública em colapso e uma crise profunda de acesso à habitação, aumentou em 26% o seu orçamento militar num único ano. Enquanto os trabalhadores vivem presos a contratos precários e as rendas disparam sem controlo, mais de 13 mil milhões de euros são destinados à Defesa, financiando programas multimilionários para fabricar fragatas, veículos blindados e caças. Entretanto, os refeitórios escolares reduzem as suas ementas e os hospitais encerram alas inteiras.

Tudo isto enquanto nos mergulham numa histeria belicista sem precedentes. Na televisão, nos jornais e nos discursos institucionais, preparam a opinião pública para uma guerra longa, para sacrifícios "patrióticos", para aceitar que viveremos pior porque "é preciso defender a Europa".

Vendem-nos um enredo apocalíptico que justifica mais cortes, mais controlo social e mais repressão. Os exemplos são diários: o ministro da Defesa britânico, John Healey, sugerindo o regresso do serviço militar obrigatório; Josep Borrell alegando que a Europa é "um jardim" que deve ser protegido da "selva" exterior; Pedro Sánchez prometendo que Espanha gastará 2% do PIB em Defesa, mesmo que o país continue a liderar os rankings de desemprego jovem, como destaca o próprio Instituto Nacional de Estatística (INE) do Reino de Espanha. Na Polónia, o governo militariza as escolas. Na Suécia, esse "avançado" país nórdico, mostram-se "preocupados" com a nossa saúde mental, enquanto o primeiro-ministro apela a que nos preparemos psicologicamente para uma guerra total.

E tudo isto depois de terem dinamitado qualquer possibilidade de paz. Porque, recordemos, não é só o caso de os Acordos de Minsk terem fracassado — nunca houve sequer a intenção de os cumprir. A própria Angela Merkel confessou-o, assim como François Hollande: Minsk foi uma armadilha para ganhar tempo e rearmar a Ucrânia para a guerra. E, uma vez queimadas todas as pontes com a Rússia, a factura recai sobre todos nós.

Soberania europeia?

A ruptura energética não só fez disparar os preços, como também revelou que a Europa não tem qualquer soberania.

Os Estados Unidos destruíram o Nord Stream e nem sequer houve um protesto formal. Condenaram-nos a importar o seu gás de fracking, a preços exorbitantes, enquanto encerrávamos indústrias inteiras devido a custos energéticos incomportáveis. A Alemanha, suposta locomotiva industrial europeia, viu a sua produção entrar em colapso e fábricas centenárias fecharem portas. E quem pagou os despedimentos? A classe trabalhadora.

Enquanto isso, Volodymyr Zelensky desfila pelas capitais europeias, mendigando mais armas, mais dinheiro e mais corpos para enviar para o matadouro. A Ucrânia, transformada num protectorado ocidental — onde os sindicatos estão proibidos, os partidos da oposição foram ilegalizados e a população é sujeita a uma brutal mobilização forçada — serve de ensaio geral para o modelo que pretendem estender ao resto da Europa: um capitalismo em guerra, sem direitos, sem salários dignos, sem futuro.

A mesma União Europeia que nos impôs austeridade agora obriga-nos à militarização. A mesma que nos negou o pão, promete-nos guerra. Mas os povos da Europa, e em particular a sua classe trabalhadora, não têm nada a ganhar nesta escalada. Pelo contrário: mais guerra significa mais inflação, mais cortes, mais repressão e mais miséria.

A encruzilhada é clara: paz e pão, ou guerra e fome. Não é um slogan. É o dilema histórico que surge perante nós. E temos de escolher.

Ou nos resignamos a ser carne para canhão, pagando com a nossa vida e o nosso trabalho os delírios imperiais de Bruxelas, Washington e Londres, ou levantamos finalmente a voz contra esta loucura. E dizemos basta. Basta de guerras alheias, basta de pobreza planeada, basta de governos que governam contra os seus próprios povos. Porque, se não dissermos basta, se não travarmos esta engrenagem, chegará o dia em que não restará outra opção senão obedecer à ordem:

"Hão-de chamar-me, hão-de chamar-nos a todos / Tu, e tu, e eu, nos revezaremos / em turnos de cristal, diante da morte", clamava o poeta Blas de Otero, ao pedir paz e palavra.

Nós não queremos guerra. Queremos pão. Queremos paz. E devemos tomar a palavra.

* Carmen Parejo Rendón - Escritora e comentadora na HispanTV e na TeleSur, directora da revista digital La Comuna.

** Texto retirado de https://revistalibertaria.substack.com/