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27.5.25

OPINIÃO: Uma Esquerda à procura do sentido da vida


A passagem de testemunho no Partido Socialista está alinhada e, consequência imediata, a viabilização do próximo Governo na Assembleia da República também, para sossego de Marcelo Rebelo de Sousa e dos portugueses que estão fartos de eleições. O sentido de Estado do PS voltará a ser fundamental para o país seguir com os padrões mínimos de estabilidade política, à semelhança do que aconteceu na legislatura anterior, mas a questão de fundo mantém-se, na perspetiva do partido e de toda a Esquerda: o que fazer perante a estrondosa derrota eleitoral da semana passada? A perda de influência da Esquerda junto dos jovens e a falta de capacidade para apresentar uma resposta eficaz aos reais problemas das populações, servida em mensagem simples (sem ser simplista ou populista), está a penalizar os partidos que respiram fora do ecossistema de uma Direita em crescimento, o que conduz à transferência massiva do sentido de voto. De resto, a situação verifica-se um pouco por toda a Europa. As forças democráticas – de centro-direita também, portanto – têm obrigação de contrariar a proliferação de tendências extremistas que, inevitavelmente, se nos deixarmos anestesiar, conduzirão à perda de direitos fundamentais, pelo que, como há dias apontava Rui Tavares, líder do Livre, pode ter chegado a hora de os partidos de Esquerda, sem perderem identidade, terem uma estratégia comum. Em França, a experiência correu bem. E em Portugal também, se recuarmos à génese da geringonça, habilmente negociada por Pedro Nuno Santos. Talvez o agora ex-líder do PS tenha tido razão antes de tempo.

Vítor Santos - 25 maio, 2025 às 00:49

 

21.4.25

OPINIÃO: Este país é para velhos

Quem pretende governar um país com as características demográficas de Portugal tem de preocupar-se com os reformados. Desde logo porque uma percentagem significativa deste segmento da população costuma votar nas eleições, talvez por conhecer bem a realidade anterior ao 25 de Abril, o que lhe permite valorizar a vida em democracia, algo que começa a faltar a muitos dos nossos jovens. Espero que esta devoção dos políticos aos pensionistas não resulte do apenas do facto de Portugal ter uma das maiores percentagens de cidadãos com mais de 65 anos da União Europeia. O problema é que às vezes parece que é assim, porque sempre que estamos em campanha eleitoral chovem promessas de aumento de reformas. A discussão sobre a velhice, na aproximação às legislativas, quase se resume a isso. É pouco. A realidade diz-nos que é preciso muito mais. Na semana passada, o JN tratou dois temas que ilustram bem a incapacidade do Estado perante a revolução demográfica que está a tornar o país mais velho: o recorde de pessoas com alta clínica que não têm condições de irem para casa e o registo infame de mais de 300 doentes que fugiram dos hospitais. Em ambos as situações estamos a falar, sobretudo, de idosos, muitos com demência. Se esta é a realidade atual e o pico do envelhecimento, segundo estudos recentes, só será atingido em 2040, o que estamos nós a reservar aos mais velhos para o fim da vida? Só com políticas direcionadas à resolução destas e de outras insuficiências em termos de assistência social será possível combater a incapacidade do Estado, que não se resolve com o anúncio populista de subida das reformas. A discussão devia ser outra.

·        * Vítor Santos – Jornal de Notícias - 20 abril, 2025

 

18.7.19

OPINIÃO: Beata no chão é dinheiro em caixa

 As preocupações com a longevidade da Terra ainda estão verdes, mas felizmente as novas gerações parecem muito interessadas em zelar pelo futuro do planeta.
Não faltam testemunhos públicos desta evidência e ainda há bem pouco tempo estudantes saíram à rua para defender o clima; outros, em circuito privado, observo-os na primeira pessoa, ao perceber a preocupação dos meus sobrinhos. Sempre que me veem a fumar, logo montam guarda à espera de perceberem se coloco a ponta do cigarro no sítio certo. Esta vai ser a missão das autoridades, após a aprovação do projeto de lei que regulamenta o fim que deve ser atribuído às beatas. O Alexandre e o Salvador só não passam multa, mas, à maneira deles, já desempenham as funções da Polícia.
Colocar o lixo no sítio certo devia ser uma preocupação de todos, pelo que até percebo as multas, de 25 a 250 euros, que venham a ser aplicadas aos prevaricadores. Mas é necessário mais. E é absurdo o Estado preparar-se para financiar os proprietários de espaços públicos para estes adquirirem, por exemplo, cinzeiros. Trata-se de uma decisão ridícula, um contrassenso, porque a consciência ambiental não se estimula com subsídios. Esse dinheiro público podia e devia ser melhor utilizado.
Depois, há ainda a questão de entregar aos polícias a missão de vigiar os poluidores, quando já são poucos para perseguir os criminosos. Na Maia, por exemplo, vai ser possível deitar beatas para o chão à porta da esquadra, porque esta encerra com o cair da noite, por falta de efetivos.
Podem sempre meter lá dois miúdos de oito anos (são eficazes, garanto), mas esses não permitirão ao Estado ganhar dinheiro à conta da falta de asseio. A ausência de consciência ambiental é um problema de educação, ou da falta dela. Não seria melhor promover ações de consciencialização junto das pessoas, ou obrigá-las a trabalho comunitário direcionado ao ambiente?
Vítor Santos in Jornal de Notícias - 18/7/2019