Desde
as intervenções iniciais a partir de Bruxelas, após a primeira intervenção
policial no Porto, Luís Montenegro optou por colar os protestos à importação de
fenómenos internacionais, nas tão equívocas declarações sobre as "razões
meramente egoísticas" de partidos e movimentos. Essa continua a ser a
estratégia, reforçada pelo ministro da Administração Interna, ao invocar
efeitos miméticos e ao aconselhar os organizadores a evitarem infiltrações das
forças extremistas. Colando os protestos a comportamentos violentos, o Governo
tenta impedir que colham simpatia pública. E justifica, por outro lado, a
linguagem repressiva: "a força, a firmeza e a robustez" serão para
exercer.
Feitos os avisos, o Governo continua a demonstrar incapacidade de perceber que os protestos não são exclusivos de meia dúzia de pessoas que anseiam o caos e a desordem, mas reflexo de um problema transversal que asfixia a população portuguesa. Continua a recusar o exercício da escuta, essencial em democracia. E continua, sobretudo, a dar razões para a crescente tensão nas ruas. Como ontem à noite se viu, a consequência imediata foi a mobilização de manifestantes em mais cidades. O risco é de que os protestos subam de tom. Resta saber como é que as autoridades vão gerir essa pressão e que propostas sobre habitação tem o poder político para oferecer. A não ser, claro, que opte por se limitar aos raspanetes.
Inês
Cardoso – Jornal de Notícias - 21 de outubro, 2026
