23.10.26

Opinião: A lei da força


Não há surpresa na intervenção de forças policiais e serviços municipais para repor a normalidade em ruas tomadas por tendas. Por muito que seja labiríntica a interpretação legal de algumas normas, num esgrimir de argumentos que eventualmente só os tribunais poderão esclarecer, é de esperar que governos, autarquias e autoridades tentem preservar a normalidade no espaço público. O que não significa, de todo, usar de uma força desproporcional e de violência. Ou optar, no plano político, por uma narrativa que prefere o tom bélico à possibilidade de diálogo e arrefecimento da conflitualidade.

Desde as intervenções iniciais a partir de Bruxelas, após a primeira intervenção policial no Porto, Luís Montenegro optou por colar os protestos à importação de fenómenos internacionais, nas tão equívocas declarações sobre as "razões meramente egoísticas" de partidos e movimentos. Essa continua a ser a estratégia, reforçada pelo ministro da Administração Interna, ao invocar efeitos miméticos e ao aconselhar os organizadores a evitarem infiltrações das forças extremistas. Colando os protestos a comportamentos violentos, o Governo tenta impedir que colham simpatia pública. E justifica, por outro lado, a linguagem repressiva: "a força, a firmeza e a robustez" serão para exercer.

Feitos os avisos, o Governo continua a demonstrar incapacidade de perceber que os protestos não são exclusivos de meia dúzia de pessoas que anseiam o caos e a desordem, mas reflexo de um problema transversal que asfixia a população portuguesa. Continua a recusar o exercício da escuta, essencial em democracia. E continua, sobretudo, a dar razões para a crescente tensão nas ruas. Como ontem à noite se viu, a consequência imediata foi a mobilização de manifestantes em mais cidades. O risco é de que os protestos subam de tom. Resta saber como é que as autoridades vão gerir essa pressão e que propostas sobre habitação tem o poder político para oferecer. A não ser, claro, que opte por se limitar aos raspanetes.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 21 de outubro, 2026