É uma frase
que ouço frequentemente em consulta. E há algo de paradoxal nela. Afinal, se
aquilo que comemos é saudável, como pode fazer-nos sentir mal?
Neste Dia Mundial da Alimentação, como médica gastrenterologista, gostaria de partilhar uma reflexão sobre a extraordinária complexidade da alimentação. A ideia de que a alimentação pode ser terapêutica é antiga. Contudo, numa época em que somos constantemente expostos a novas dietas, alimentos enriquecidos com nutrientes ou reduzidos em calorias, açúcares e gorduras, talvez seja útil voltar ao princípio: antes de escolhermos o que comer, precisamos de perceber porque comemos.
Falamos
habitualmente de fome, como se fosse uma coisa simples. Mas não é.
Existe a
fome homeostática, que resulta das necessidades energéticas do organismo e é
regulada por uma complexa rede que envolve o cérebro, o estômago, o intestino e
várias hormonas. É a fome que nos lembra de que precisamos de energia.
Temos também
a fome hedónica: comemos porque gostamos, porque determinado alimento nos dá
prazer, porque estamos cansados, stressados ou porque associamos o alimento a
uma memória. A comida não alimenta apenas o corpo. Alimenta também emoções,
relações e cultura.
Há ainda uma
dimensão fascinante que estamos apenas a começar a compreender: a influência da
microbiota intestinal nas nossas escolhas alimentares. Os milhares de milhões
de microrganismos que habitam o nosso intestino produzem moléculas capazes de
influenciar os mecanismos de fome, saciedade e comunicação entre o intestino e
o cérebro. Uma relação cuja verdadeira dimensão ainda estamos a descobrir.
Temos, por
fim, que considerar o papel da cultura nas nossas escolhas alimentares. Num
país onde nos relacionamos à volta de uma mesa, comer é raramente apenas uma
questão biológica. Aprendemos desde cedo que determinados alimentos são uma
recompensa, que uma refeição é uma demonstração de afeto e que “merecemos”
aquela sobremesa depois de um dia difícil.
Então,
quantas das nossas escolhas alimentares são realmente escolhas conscientes? E,
quantas são hábito, prazer, memória, emoção ou necessidade?
Talvez por
isso, a pergunta “o que é saudável?” seja menos simples do que parece.
Para alguém
com síndrome do intestino irritável, por exemplo, um alimento nutricionalmente
equilibrado pode contribuir para sintomas digestivos. Um abacate ou uma maçã
podem ser perfeitamente saudáveis e, ainda assim, não serem bem tolerados por
determinada pessoa.
Isto não
significa que devamos ter medo da comida. Significa que devemos aprender a
compreendê-la e, sobretudo, a escutar o nosso corpo.
Neste Dia
Mundial da Alimentação, convido-vos a parar antes da próxima refeição e a
perguntar: Tenho fome? Tenho vontade de comer? Procuro conforto? Estou
simplesmente a repetir um hábito?
Porque, aquilo que colocamos no prato resulta, na verdade, de uma conversa silenciosa entre o nosso corpo, o cérebro, o intestino, as emoções, a nossa história e a sociedade em que vivemos.
Talvez a
alimentação saudável não seja aquela que obedece à mais perfeita lista de
regras, mas aquela que consegue alimentar o corpo sem esquecer a pessoa que
existe dentro dele.
E, talvez,
seja essa a reflexão mais importante neste Dia Mundial da Alimentação: não
precisamos apenas de aprender o que devemos comer, precisamos também de
compreender porque comemos.
Porque comer é uma decisão que parece nossa, mas que, na verdade, não tomamos sozinhos.
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Artigo escrito por Mónica Velosa, Médica
Gastrenterologista, Presidente do Núcleo de Neurogastroenterologia e Motilidade
Digestiva (NMD) da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)


