7.10.26

OPINIÃO: A escola e o código postal


Olhando para a forma como as ruas francesas ardem, torna-se difícil acreditar que tudo começou num protesto de alunos e professores numa escola dos subúrbios a sudeste de Paris. Em duas semanas, o movimento saltou os muros do espaço estudantil, ganhou escala nacional e desafia o Governo. A falta de condições nas escolas e sobretudo a queixa de que o sistema está marcado pela desigualdade incendiaram as manifestações. Na comparação com outros países europeus, dados da OCDE comprovam que o código postal dos alunos conta demasiado em França e que uma criança nascida num bairro problemático dificilmente conseguirá superar esse contexto de partida. A média nacional de alunos por turma é elevada (situa-se em 29), mas em escolas dos subúrbios chega a 36. É também nos bairros mais pobres que se sente em força a falta de professores: no último ano letivo, algumas destas escolas registaram 20% de aulas não lecionadas.

Com as notícias sobre as turmas ainda sem professores a intensificarem-se também por cá, torna-se inevitável analisar a componente socioeconómica do problema. Uma análise dificultada, claro está, pela falta de informação oficial atualizada e clara. Sabemos que em Portugal a falta de professores tem como causa estrutural direta a crise na habitação, mas esse fator acaba por somar-se a outros que deixam particularmente expostas escolas inseridas em bairros com maior vulnerabilidade social, na Área Metropolitana de Lisboa. Casos mediatizados como os de Marvila, Monte Abraão ou Queluz-Belas tocam escolas inseridas em territórios educativos de intervenção prioritária (TEIP). Não é preciso bola de cristal para antever efeitos em cadeia nesta persistência da falta de professores em locais que deveriam ter instrumentos redobrados para intervir. Sendo objetivo do programa TEIP promover o sucesso e garantir a inclusão e igualdade de oportunidades, não há metas que resistam quando falta o mais básico dos ingredientes: o professor. Tanto por fazer. Tanto por cumprir.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 7 de outubro, 2026