Como tantas
pessoas, já vivi momentos em que precisei de empréstimos, mas nunca pedi um
cêntimo ao futebolista madeirense. Ainda não há um mês, por razões do meu
interesse pessoal, obtive certidões de não dívida da Autoridade Tributária e da
Segurança Social. Pensei que isso me colocaria em boa situação, até porque o
registo criminal também está imaculado, mas faltava o que aqui deixo em letra
impressa: uma declaração de não dívida a CR7.
Agora que já
agitei as águas, suscitando a aprovação de uns e a reprovação de outros, convém
que me explique melhor, com base numa noção dos livros de contabilidade, aquela
em que se confrontam o deve e o haver.
Obviamente,
estamos a falar do maior futebolista português de sempre e, mais do que das
alegrias que deu no relvado, de alguém que muito contribuiu para promover
internacionalmente o nome de Portugal e para enriquecer os que gravitam em seu
redor (pessoas, negócios, instituições), entre os quais não me encontro. Mas a
coluna do "haver" de Cristiano apresenta valores muito mais baixos do
que a do "deve", e esse desequilíbrio demonstra que ele nos deve
muito mais do que nós lhe devemos. Ou seja, fica anulada a nossa dívida, de
eventual gratidão (note-se que eu sobreviveria sem as alegrias a que Ronaldo
está associado, mas não propiciou sozinho), permanecendo nós como credores: se
o jogador é podre de rico, deve isso a mim, eventualmente a si, que está a ler
esta crónica, a toda a gente no Mundo que dá importância ao futebol, que
transforma o futebol num fenómeno global de massas, que viabiliza o futebol
como um negócio de milhões.
Sem adeptos,
qualquer craque seria um pé-rapado a dar pontapés na bola. Assim, pés-rapados
somos nós, embora os cristianos ronaldos desta vida (e toda a parasitagem em
seu redor) nos devam tudo.
Até poderia
escrever milhões de palavras sobre o lastimável comportamento do jogador,
incapaz de perceber o superior interesse que a seleção nacional representa, e
sobre a incapacidade que o próprio teve de sair pela porta grande, acumulando
anos de insana obstinação. Mas isso seria demasiadamente subjetivo. Prefiro
ater-me aos factos: não lhe devo nada, ele é que me deve a mim.
Posto isto,
VIVA A REPÚBLICA!
Pedro Olavo
Simões – Jornal de Notícias - 5 de outubro, 2026
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