6.10.26

OPINIÃO: Não devo nada a Cristiano Ronaldo


Tenho de começar a guardar as faturas de tudo o que compro. Se alguém sugerir que devo a Cristiano Ronaldo as calças que trago vestidas, não tenho como provar que as paguei com o meu guito.

Como tantas pessoas, já vivi momentos em que precisei de empréstimos, mas nunca pedi um cêntimo ao futebolista madeirense. Ainda não há um mês, por razões do meu interesse pessoal, obtive certidões de não dívida da Autoridade Tributária e da Segurança Social. Pensei que isso me colocaria em boa situação, até porque o registo criminal também está imaculado, mas faltava o que aqui deixo em letra impressa: uma declaração de não dívida a CR7.

Agora que já agitei as águas, suscitando a aprovação de uns e a reprovação de outros, convém que me explique melhor, com base numa noção dos livros de contabilidade, aquela em que se confrontam o deve e o haver.

Obviamente, estamos a falar do maior futebolista português de sempre e, mais do que das alegrias que deu no relvado, de alguém que muito contribuiu para promover internacionalmente o nome de Portugal e para enriquecer os que gravitam em seu redor (pessoas, negócios, instituições), entre os quais não me encontro. Mas a coluna do "haver" de Cristiano apresenta valores muito mais baixos do que a do "deve", e esse desequilíbrio demonstra que ele nos deve muito mais do que nós lhe devemos. Ou seja, fica anulada a nossa dívida, de eventual gratidão (note-se que eu sobreviveria sem as alegrias a que Ronaldo está associado, mas não propiciou sozinho), permanecendo nós como credores: se o jogador é podre de rico, deve isso a mim, eventualmente a si, que está a ler esta crónica, a toda a gente no Mundo que dá importância ao futebol, que transforma o futebol num fenómeno global de massas, que viabiliza o futebol como um negócio de milhões.

Sem adeptos, qualquer craque seria um pé-rapado a dar pontapés na bola. Assim, pés-rapados somos nós, embora os cristianos ronaldos desta vida (e toda a parasitagem em seu redor) nos devam tudo.

Até poderia escrever milhões de palavras sobre o lastimável comportamento do jogador, incapaz de perceber o superior interesse que a seleção nacional representa, e sobre a incapacidade que o próprio teve de sair pela porta grande, acumulando anos de insana obstinação. Mas isso seria demasiadamente subjetivo. Prefiro ater-me aos factos: não lhe devo nada, ele é que me deve a mim.

Posto isto, VIVA A REPÚBLICA!

Pedro Olavo Simões – Jornal de Notícias - 5 de outubro, 2026