Maricarmen
Abascal saiu da sua habitação de maca. De uma forma indigna, humilhante. Já
sabíamos que este Mundo não é para velhos. Agora, também não é para novos.
Durante 70 anos, Maricarmen pagou uma renda. Até ao dia em que a casa onde
morava passou para as mãos de novos proprietários, que contestaram o direito de
permanência da inquilina. Queriam 1600 euros mensais. A idosa tinha uma reforma
de 1400. Seguiu-se uma disputa judicial até ao despejo. Fatal.
Encontrar
culpados nesta história é difícil. Porventura, o menos importante. Mas ninguém
fica bem na fotografia. Nem a empresa imobiliária, nem os tribunais, nem o
sistema de proteção social, muito menos o Governo.
Não
interessa se somos de Esquerda ou de Direita, do Centro ou de outra coisa
qualquer. Maricarmen não se tornou apenas num símbolo da crise da habitação em
Espanha. É um símbolo das sociedades que se estão a esquecer das pessoas.
Maricarmen estava em perigo. A sua situação era conhecida. A sua fragilidade e
a sua idade também.
Ontem,
chorou-se em Espanha. Uma mistura de dor e raiva tomou conta das análises
políticas e das caixas de comentários nas redes sociais. De pouco adianta.
Maricarmen Abascal morreu sem regressar a casa.
Manuel
Molinos – Jornal de Notícias - 9 de outubro, 2026
