10.10.26

OPINIÃO: Maricarmen foi empurrada da vida

Maricarmen, de 87 anos, podia ser nossa mãe, avó, tia, família. Daquelas senhoras que moram sozinhas e para quem a casa não é apenas um local onde se vive. É o lugar da segurança, das memórias, de uma vida. O sítio onde cabe um mundo inteiro. Fez-me recordar a avó Carolina que, reformada e a viver com a filha, também idosa, todos os anos ficava num estado de ansiedade enorme à espera da atualização da renda que pagava na Rua do Zambeze, no Porto.

Maricarmen Abascal saiu da sua habitação de maca. De uma forma indigna, humilhante. Já sabíamos que este Mundo não é para velhos. Agora, também não é para novos. Durante 70 anos, Maricarmen pagou uma renda. Até ao dia em que a casa onde morava passou para as mãos de novos proprietários, que contestaram o direito de permanência da inquilina. Queriam 1600 euros mensais. A idosa tinha uma reforma de 1400. Seguiu-se uma disputa judicial até ao despejo. Fatal.

Encontrar culpados nesta história é difícil. Porventura, o menos importante. Mas ninguém fica bem na fotografia. Nem a empresa imobiliária, nem os tribunais, nem o sistema de proteção social, muito menos o Governo.

Não interessa se somos de Esquerda ou de Direita, do Centro ou de outra coisa qualquer. Maricarmen não se tornou apenas num símbolo da crise da habitação em Espanha. É um símbolo das sociedades que se estão a esquecer das pessoas. Maricarmen estava em perigo. A sua situação era conhecida. A sua fragilidade e a sua idade também.

Ontem, chorou-se em Espanha. Uma mistura de dor e raiva tomou conta das análises políticas e das caixas de comentários nas redes sociais. De pouco adianta. Maricarmen Abascal morreu sem regressar a casa.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias - 9 de outubro, 2026