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2.11.15

NISA: "Dê-nos a Esmolinha dos Santos"


É assim todos os anos, nas véspera e no dia 1 de Novembro (Dia de Todos os Santos), no reviver de uma tradição que durante anos esteve quase a extinguir-se e que agora, com novos cambiantes, se renova, emprestando às ruas da vila o colorido de outros tempos.
Grupos de crianças vão de rua em rua, sacolas na mão e, tal como antigamente, pedem a "Esmolinha dos Santos", ou, noutras terras, o "pão de Deus".
Nas bolsas e sacolas já não "caem" os feijões pretos, as passas de figo, os frutos secos (nozes e castanhas) ou as romãs. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, isto é, os hábitos e os gostos. As guloseimas, os chocolates, bolos, e outros bens alimentares são as ofertas ou "esmolas" de cada casa onde ainda se preserva a lembrança da "Esmolinha dos Santos". Transcrevemos, a propósito, o texto de José Francisco Figueiredo que descreve a forma como este dia era vivido em Nisa na primeira metade do século passado.
O Dia de Todos os Santos *
"A comemoração dos Santos, prescrita pela Igreja em 1 de Novembro, tem nesta vila carácter simultaneamente festivo e lutuoso.
Como no Domingo de Páscoa, as ruas povoam-se de crianças que a casa dos padrinhos vão pedir o bolo. E, de porta em porta, ranchos de mulheres e garotos andam todo o dia a pedir esmola dos Santos, enquanto alguns matulões, embriagados, importunam com a mesma litania quem suponham dispostos a fomentar-lhes o vício.
Também costumam os rapazes e raparigas – quando o dia é pleno das belezas do veranito de S. Martinho – ir à Senhora da Graça, S. António ou outro local próximo, onde fazem os seus magustos e jovialmente se divertem.
Mas o fúnebre dobrar dos sinos – que começa logo depois do meio-dia e se prolonga por toda a parte – espalha no ambiente a tristeza de mestas recordações com a saudade dos Fiéis Defuntos, cuja comemoração se faz no dia seguinte e os campanários vão anunciando.
O culto pela memória dos antepassados está profundamente radicado na alma de todos os nisenses, motivo por que, no Dia de Finados, as três missas que, segundo o rito, os eclesiásticos podem celebrar, são extremamente concorridas.
Também nesse dia, e de ano para ano com maior incremento, grande parte da população visita o cemitério a fim de cobrir de flores a sepultura dos seus queridos mortos."
* José Francisco Figueiredo - Monografia da Notável Vila de Nisa (1956)

3.11.14

TRADIÇÕES: "Dê-nos a Esmolinha dos Santos"!





Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.
"Dê-nos a Esmolinha dos Santos" - pedem as crianças, alegres e sorridentes, cumprindo como um ritual,  em cada ano, esta tradição que se renova. Foi assim na véspera e no Dia de Todos os Santos, fazendo relembrar aos visitados de hoje, a condição de visitantes e pedintes da "Esmolinha" há cinquenta anos atrás, quando a vila respirava o ar do trabalho árduo do campo e das duras condições de vida e de sobrevivência.
As "casas grandes", dos lavradores e proprietários rurais, ou de gente remediada, davam ordens às criadas para atenderem, como um dever cristão, todas as solicitações do rapazio que, munidos de uma bolsa de pano, percorriam as ruas e demandavam as casas onde era previsível a melhor "colheita" das esmolinhas.
Castanhas, passas de figo e outros frutos secos, feijão frade, mesmo "furédos" eram recebidos com alegria e satisfação. Havia quem, à falta de géneros, desse cinco ou dez tostões, dinheiro que fazia surgir, de imediato, um cintilante brilhozinho nos olhos.
Era assim a tradição em Nisa. Noutros sítios, com algumas diferenças, a tradição da "esmolinha dos Santos", designada como "pedir o Pão de Deus" ou "os Santinhos", caiu, durante anos, em desuso, voltando a ser praticada não tanto pela necessidade sentida há décadas atrás, mas reanimada pelos próprios programas escolares que visam - ainda bem - a inserção das crianças nas suas comunidades.
E há lá coisa mais linda do que ver uma rua animada com o bulício das crianças!