Trata bem este velhinho
Que tanto por ti passou
É teu pai, teu amiguinho
Sabes bem quem te criou.
Quanto ele desejava
De ver-te bem amparado
Para hoje se ver desprezado
Por um filho que tanto amava
À noite a casa chegava
Do trabalho, raladinho
Dava beijos ao filhinho
Sendo ele muito amigo
E para que Deus te não dê o castigo
Trata bem este velhinho.
Todo o pai que filhos tem
Sempre neles anda a pensar
Para ver se os pode deixar
No mundo a viver bem
Repara, considera bem
Como teu pai te estimou
Enquanto não te criou
Dispensou-te um amor santo
E se amanhã não fores constante
Por quem tanto por ti passou.
Algum dia podes ter
Quem te faça tanto ou mais
A mesma paga que dás
Ainda a podes receber
Depois é que hás-de querer
Ter dos teus algum carinho
Se eles vão pelo caminho
Que tu em tempo tiveste
Aqui pagas o que fizeste
A teu pai, teu amiguinho.
Trata bem do coração
Que é um dever que nós temos
Pagar bem a quem devemos
É esta a nossa criação
É uma bonita acção
Tratar bem quem nos criou
A quem tanta vez deixou
De comer, para te dar
Nunca o deves desprezar
Bem sabes quem te criou.
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19.3.21
19 de MARÇO - DIA DO PAI
António Branco - Poeta popular de Montalvão (já falecido)
8.10.17
NISA: Poetas populares do concelho
Diz lá ó Manel
Henriques
Para que queres o teu
saber?
Por que sempre ficas
mal
Faz favor de
responder
Já te conheço há tanto tempo
Nunca vi vitórias tuas
Diz-me se és campeão nas ruas
Com a mocidade do teu tempo
Se dás lições a toda a gente
Entre os pobres e os ricos
Quando te metes em despiques
Em descantes e aventuras
Quero ouvir uma das tuas
Diz lá ó Manel Henriques.
Tens coração de montezinho
E tens uma costela nisense
A terra aonde eu pertenço
Onde ouvir cantar o hino
Desde muito pequenino
Eu tomei este prazer
E tu hás de me responder
Em cantigas ou a falar
Mas se tu não sabes versar
Para que queres o teu saber?
Para aprenderes a ler
Andaste muito tempo à escola
Eu quero que me digas agora
Se já te sabes resolver
Para que nunca deixes perder
O teu nome em Portugal
Mas tu nunca foste pontual
Nunca alcançastes o desengano
Foste três vezes a exame
E sempre ficaste mal.
Compraste uma bicicleta
Para te meteres legionár(io)
Para evitares de pagar
Uma taxa que era certa
Mas se tu não és poeta
Nem disto queres saber
Faz favor de me dizer
Ao teu amigo A. Corrente
Para que queres o pensamento
Faz favor de responder.
JMV (espólio)
31.12.16
Poetas da Nossa Terra (I): José António Faustino (1)
Pensamentos
Quando
eu a pensar me ponho
No
passado e no que vem
Depois
dum sonho outro sonho
De
tantos que a vida tem
Aonde é
que está sorte
A sorte
onde está ela
Andamos
à procura dela
Para
encontrar a morte
E não há
nada que corte
Este
mal tão medonho
Que nos
não faz ser risonho
Com as
pessoas avança
Meu
sentido não descansa
Quando
eu a pensar me ponho
Deus
que a todos nos criou
Ele é o
nosso amiguinho
Mas ali
num instantinho
A nossa
vida acabou
Ali
tudo terminou
No
cemitério, além...
Outro
destino não tem
Ali tudo vai findar
Eu ando sempre a pensar
No passado e no que vem
Quando a gente está contente
Com saúde e compreensão
De repente vem a aflição
A vida é um momento
É isto que a gente sente
Eu digo e não me envergonho
E tudo o que eu suponho
Na vida sempre a cismar
Tantas vezes a sonhar
Depois dum sonho, outro sonho.
A vida amargurada
Sempre à procura da sorte
Onde quer se encontra a morte
Aí fica a vida acabada
O correr não vale de nada
Não dá prazer a ninguém
Amigos reparem bem
Eu vou explicar bem a fundo
Há tantos sonhos no mundo
De tantos que a vida tem.
José António Faustino
7.6.15
OLHAI! Os poetas da nossa terra (2)
JOSÉ ANTÓNIO VITORINO - TI ZÉ DO SANTO (1915-1995) - I
O Homem e a Natureza
O Homem e a Natureza
Sob
o meu ponto de vista
Há
na vida tanta empresa,
Não
há força que resista
Á
nossa mãe natureza.
Pus-me
a pensar no destino
Que
o homem sábio conquista,
A
ser grande é pequenino
Sob
o meu ponto de vista.
O
mais leve tremor de terra
Destrói
a maior fortaleza,
A
fabricar armas de guerra
Há
na vida tanta empresa.
Tanto
herói, tanto valente,
Tanto
cobarde egoísta,
À
continuação do tempo
Não
há nada que resista.
Um
castelo, uma muralha,
Construídos
com firmeza,
Nada
pode fazer batalha
À
nossa mãe natureza.
Aprendi
tudo com o tempo,
Com
o tempo tudo perdi(m)
Nada
se cria sem tempo,
Com
o tempo tudo tem fim.
A guerra da bicharada
Nas
quentes manhãs de Julho
É
um gosto ir passear,
Para
ouvir a bicharada,
Uns
com os outros a ralhar.
I
Eu
fui, vi uma formiga
A
discutir com um lacrau,
Jogando
o jogo do pau,
Arranjaram
uma briga.
A
mosca salta-lhe em riba
Para
apaziguar o barulho
A
pulga deu um mergulho
Que
os lançou todos por terra
Já
vi bichos em guerra
Nas
quentes manhãs de Julho.
II
Encontrei
a cigarrega
Metida
numa talisca,
A
olhar para a sardanisca
Que
a queria correr à pedra
Um
sapo todo se arrenega
De
um gafanhoto o pisar
Começa
um rato a saltar
Com
medo de uma carraça
Para
ver tanta desgraça
É
um gosto ir passear.
III
Encontrei
um percevejo
Com
um piolho em discussão,
Só
porque ele ontem ao serão
Lhe
tinha chamado canejo
Quando
mal me descuido, vejo
Uma
cobra enjoelhada
Com
uma pistola atacada
Queria
matar um morcego
Levantei-me
um dia cedo
Para
ouvir a bicharada.
IV
Encontrei
uma centopeia
A
malhar com uma roca
Nas
costas de uma minhoca
Por
lhe ter tombado a ceia.
Na
boca de uma baleia
Vi
uma lesma chocar
Ouvi
um grilo gritar
Porque
um burro lhe pisou o pé
Tinha
que ver o banzé
Uns
com os outros a ralhar.
Ti Zé do Santo
Comemora-se este ano o centenário do nascimento de José António Vitorino, o Ti Zé do Santo, ocorrido a 2 de Fevereiro de 1915 em Salavessa (Montalvão-Nisa).
Homem do campo e quase analfabeto, de muito novo começou a compor versos, as populares décimas, poesia "repentista", nascida quase espontâneamente dos confins da alma e da experiência de uma vida sofrida e amarga. Quadras populares ou décimas que cantava ou declamava nas tabernas e noutros locais onde, frequentemente, apareciam outros cantadores ou declamadores e se "esgrimiam", ao despique, os argumentos poéticos de cada candidato.
Décimas que falavam da dureza da vida rural, do abandono das aldeias e dos campos, do exílio e da emigração. Décimas, muitas delas que só puderam ver a luz do dia após o 25 de Abril porque, brotando da alma, aparentemente ingénua e simples do trabalhador rural, exprimiam, em toda a sua pureza, as amarguras de vidas agarradas à enxada e à dureza da faina agrícola, ao sol ou à chuva, em troca de salários de miséria e de revolta.
Cantigas e décimas, ou vice-versa que, muitas vezes, eram o lenitivo, o afago da alma, aos domingos, para esquecer as vicissitudes de uma semana árdua de labuta e dor.
Versos, muitos versos, décimas alinhavadas em papel, com a escrita do povo, que o Ti Zé do Santo foi guardando e que a paciente determinação do professor doutor António Louro Carrilho - também ele um poeta da luta e da educação e que desapareceu do nosso convívio ainda bastante jovem - transformou na "Terra Pousia", o livro do poeta popular José António Vitorino, dado à estampa em 1996, um ano após a sua morte, numa edição da Câmara Municipal de Nisa.
Partiu o homem bom, generoso, filósofo da vida e da palavra, um amigo que sempre tive e me dedicou particular estima e atenção.
Os poetas de Nisa, de todo o concelho - que os houve e há, muitos e de qualidade - bem merecem que a sua obra seja divulgada. É o que procuraremos fazer neste espaço.
Mário Mendes
7.4.12
NISA: Poetas Populares do Concelho
REIS E RAINHAS
O alecrim é o rei das ervas
O ouro rei dos metais
Rosa rainha das flores
O leão rei dos animais
Deus é rei universal
Rei de toda a criação
Rei dos sábios Salomão
Rei do sabor o sal
Rei das matas o pinhal
Capitão rei das catervas
Virem rainha das servas
A romã rainha do fruto
O trigo rei do produto
O alecrim rei das ervas.
O amor é o rei das fontes
Cruz das armas a rainha
O bastardo rei da vinha
O pinheiro rei dos montes
O navio rei das pontes
Cló rei dos animais
Adão é rei dos pais
Rei dos poetas foi Dante
Rei das pedras o diamante
O ouro rei dos metais.
O vento rei dos nortes
O sol rei da claridade
Rei da pobreza a caridade
Rei do pranto a morte
O rei da ternura é a sorte
Oliveira rainha dos olivais
O melão rei dos meloais
A pêra rainha da fruta
Rei dos peixes a truta
O leão rei dos animais.
Rei da riqueza o trabalho
Rei dos fiadores o dinheiro
Rei dos paus o castanheiro
Rei dos dentes o alho
O rei dos martelos é o malho
O vinho rei dos licores
Coração rei dos amores
Rei dos amargos o fel
Rosa rainha das flores.
JMV
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