Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, passou nas
últimas horas pelo susto de ver um incêndio rondar habitações. É natural que a
notícia tenha passado despercebida, dado que o país tem vindo a lidar com
outros fogos. Não se trata, ainda assim, de mera curiosidade ou caso isolado.
Convém que o país não se esqueça do que aconteceu em outubro de 2017, em pleno
outono. Ou dos alertas sobre as fragilidades que continuamos a demonstrar
perante as chamas, como ainda no início do verão lembrava mais um relatório de
mais uma comissão técnica independente.Em agosto do ano passado, o Governo
prometia apresentar até final de 2025 uma proposta de revisão da lei orgânica
da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Em janeiro, o secretário
de Estado que tutela a pasta dizia que a nova lei estava concluída e entraria
em vigor este ano. A 22 de abril, com cerca de um mês nas funções de ministro
da Administração Interna, Luís Neves confirmava já existir "um esboço de
um documento", mas invocava as dificuldades esperadas no verão para adiar
a anunciada reforma para outubro. Já entrámos em novembro, e novidades na área
da Proteção Civil, nem vê-las.Depois de um verão que acabou por ser mais quente
do que esperaria dentro da sua própria casa, Luís Neves entrou em modo defensor
da autoridade e da força do Estado, tornando-se o rosto do Governo para a via
policial adotada para reprimir os protestos pela habitação. A tantas outras
dificuldades que o ministro da Administração Interna acumula no cargo, junta-se
esta: o empenho colocado na definição política da tática do bastão não lhe
deixa tempo para governar. Opções de quem está mais focado em exibir o poder,
do que em exercê-lo legitimamente.
Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 4 de novembro, 2026
.jpg)