4.11.26

OPINIÃO: Um ministro que não governa


Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, passou nas últimas horas pelo susto de ver um incêndio rondar habitações. É natural que a notícia tenha passado despercebida, dado que o país tem vindo a lidar com outros fogos. Não se trata, ainda assim, de mera curiosidade ou caso isolado. Convém que o país não se esqueça do que aconteceu em outubro de 2017, em pleno outono. Ou dos alertas sobre as fragilidades que continuamos a demonstrar perante as chamas, como ainda no início do verão lembrava mais um relatório de mais uma comissão técnica independente.Em agosto do ano passado, o Governo prometia apresentar até final de 2025 uma proposta de revisão da lei orgânica da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Em janeiro, o secretário de Estado que tutela a pasta dizia que a nova lei estava concluída e entraria em vigor este ano. A 22 de abril, com cerca de um mês nas funções de ministro da Administração Interna, Luís Neves confirmava já existir "um esboço de um documento", mas invocava as dificuldades esperadas no verão para adiar a anunciada reforma para outubro. Já entrámos em novembro, e novidades na área da Proteção Civil, nem vê-las.Depois de um verão que acabou por ser mais quente do que esperaria dentro da sua própria casa, Luís Neves entrou em modo defensor da autoridade e da força do Estado, tornando-se o rosto do Governo para a via policial adotada para reprimir os protestos pela habitação. A tantas outras dificuldades que o ministro da Administração Interna acumula no cargo, junta-se esta: o empenho colocado na definição política da tática do bastão não lhe deixa tempo para governar. Opções de quem está mais focado em exibir o poder, do que em exercê-lo legitimamente.

Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 4 de novembro, 2026