1.11.26

OPINIÃO: Ambrósio, custa-me tomar algo


O Governo tem sido, várias vezes, acusado de falhar na comunicação com os portugueses. As últimas semanas foram, aliás, ricas em exemplos de mensagens tardias e de comunicações absurdas.

O primeiro-ministro demorou 11 dias para falar sobre as manifestações e bastonadas nas cabeças na Praça de D. João I e no Rossio, argumentando que não se pronunciou antes porque estava a trabalhar! O presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana disse não saber se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa. Mais tarde, não teve outra solução que não fosse admitir que as declarações foram infelizes. Já a PSP foi para as redes sociais mostrar em vídeo editado a sua versão dos acontecimentos na madrugada de domingo, em Lisboa e no Porto, gerindo a imagem pública da instituição como se fosse um qualquer influencer. E, por fim, a ministra do Ambiente e da Energia veio dizer que lhe custa andar com motorista. Isso mesmo.

Durante o segundo dia de debate na generalidade da proposta do Governo do Orçamento do Estado, a deputada do Chega Patrícia Carvalho criticou Maria da Graça Carvalho por, ainda em setembro, ter sugerido a partilha de boleias como uma forma de poupar combustível perante a subida de preços. Nessa altura, a ministra apelou ao bom senso dos portugueses e recomendou "comportamentos de partilha", além da redução da velocidade dos veículos. É então que, na resposta à deputada do Chega, a ministra do Ambiente faz uma confissão pessoal. "Só não venho à boleia porque não posso vir à boleia. Das coisas que mais me custam, enquanto membro do Governo, é ter de andar com motorista".

A frase é muito mais do que uma declaração infeliz. É mesmo um exemplo daquilo que mais nos custa ouvir de quem nos governa.

Manuel Molinos –Jornal de Notícias -  30 de outubro, 2026