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11.10.26

PRAÇA DA LIBERDADE: A ideia de praça


Não obstante as suas insuperáveis leituras de alguns textos cimeiros do cânone ocidental - da "Antígona" aos "Irmãos Karamazov" - George Steiner é sobretudo conhecido e citado pela sua palestra sobre "a ideia de Europa", ou melhor, pela passagem que fala da Europa "dos cafés" e de hábitos pedestres que concorreram para a génese de um espaço público dialogal e democrático. Mas Steiner fala também das praças que, até pela toponímia, compõem um mosaico da memória comum. Elas oferecem-se à revalidação de afinidades como à revelação do outro. São simultaneamente lugares do frequente e do fortuito, de travessia e permanência.

Com Rui Pires Cabral, "as praças que estiveram/ ao fundo da noite uma vez/ é para onde caminhamos a vida inteira" ("Praças e quintais", 2003).

Depois de constatar a escassez de praças em freguesias como Ramalde, bem como as muitas que, sequestradas pelo automóvel soberano, são praças só de nome, apresentei na Assembleia Municipal, em 2022, a recomendação de um programa de construção e requalificação de praças e pracetas em áreas residenciais e zonas de expansão urbana. Respondeu-me o Executivo, na ocasião, que a densidade construtiva da cidade já não permitia novas praças. Isto apesar de terem sido inscritas no PDM, revisto em 2021, zonas de expansão e seis novas ORU (e apesar de Contumil, Azevedo, Viso, Requesende, da projetada Via Nun"Álvares...).

Mas, afinal, sempre é possível recuperar praças, como está a suceder na Praça de Pedro Nunes, em frente à Escola Rodrigues de Freitas. Saúda-se a empreitada, mas lamenta-se a reincidência na insólita prática que tem vingado neste tipo de intervenções. Numa época em que se recomendam miniflorestas urbanas, capazes de amortecer a canícula, e solos permeáveis, aptos a drenar a água das chuvas e a recarregar os aquíferos, é indefensável a opção por extensos tapetes de betão e a consequente rarefação do coberto vegetal, com a agravante da manutenção de lugares de estacionamento. Corre já uma petição que pede a revisão do projeto a uma escala mais humana - à escala das muitas crianças e jovens que ali estudam. Pedro Duarte, que mostra ter vocação não só para continuar a dar mundo ao Porto mas também para cuidar dos pequenos mundos portuenses, faria bem em escutar as razões dos peticionários.

Rui Lage – Jornal de Notícias - 8 de outubro, 2026