4.12.24

OPINIÃO: O Invisível

Já passaram alguns dias desde a noite em que celebrámos Sara Tavares no Coliseu dos Recreios e ainda é difícil compor duas frases que façam jus ao que ali vivemos. A ideia era assinalar um ano da sua partida com um espetáculo que celebrasse a sua obra musical e o seu legado espiritual. E foi mesmo o seu espírito que quisemos canalizar naquela noite, por tudo o que de luminoso e agregador contém e multiplica. Houve muitas coisas comoventes na concretização daquele espetáculo. A adesão do público, que em poucas horas esgotou os bilhetes para, chegada a data, se entregar em energia, palmas e cântico, com toda a força. O conjunto de artistas que se prontificaram a dar voz aos temas da Sara, colegas e amigos da música, que sempre souberam a bênção que foi sermos seus contemporâneos. Mas sobretudo a sua equipa, os agentes, os técnicos e a banda, que prepararam tudo com um rigor e um sentido de responsabilidade tocante e o detalhe da cenografia (com livros, objetos, instrumentos, como numa sala de estar) que os amigos pensaram com todo o carinho. Emocionou-me muito observar o cuidado dos seus músicos, fiéis companheiros de estrada, que zelaram para que tudo estivesse ao seu gosto, respeitando a memória das suas indicações, ensaiando os arranjos como ela gostaria, e acolhendo cada convidado para que se sentisse em casa. Foi lindo de ver a emoção da banda, neste primeiro concerto sem Sara, com os seus temas, com as vozes dos seus amigos, numa sala cheia de fãs (os do palco não menos que os da plateia), para celebrar a sua eternidade. Foi lindo ver Selma Uamusse e Samuel Úria cantar o “Ter peito e espaço” com a solenidade de uma oração (como manda a letra). Foi lindo ver a plateia cantar o “Chamar a música” com a ternura que todos sentimos pela pequena Sara dos anos 90. Foi lindo ver o Carlão cantar com a silhueta da Sara projetada numa tela, quase como se estivesse mesmo lá. Sentir o abraço de Lura, celebrar o aniversário da Nenny e ouvir tantas vozes maravilhosas a honrar um repertório tão rico e intemporal. Confirmando que aquela mulher incrível, de olhos francos, sábia como uma anciã e com voz de nascente de água cristalina, nos tocou a todos de forma indelével. Capicua – Jornal de Notícias -03 dezembro, 2024