16.1.16

LUÍS COSTA - Entrevistado há 30 anos para o "Fonte Nova"

Há 30 anos (4 de Setembro de 1985) como colaborador do semanário "Fonte Nova" fiz a primeira entrevista de fundo ao atleta nisense Luís Costa, que em Dezembro último "apadrinhou" a Corrida de S. Silvestre, organizada pelo Sporting Clube de Nisa. A entrevista, descobri-a, há dias, num amontoado de jornais e revistas, papéis (e memórias) que teimo em guardar e agora partilho com os visitantes do "Portal".

LUÍS COSTA: Correr por desporto e com o "credo" na boca
Quem percorre com frequência as estradas que ligam a Portalegre, há-de já ter notado certamente num jovem franzino, que indiferente a quem passa e pela berma da estrada vai palmilhando a correr, quilómetros atrás de quilómetros, numa passada ligeira e num jeito muito seu. O seu nome é conhecido daqueles que se interessam pelo desporto e pelas chamadas “modalidades amadoras”.
O Luís Costa é um desses atletas amadores, sem aspas nem sufixos. Construiu a pulso e por si (sabe-se lá quantas raivas contidas, quantas lágrimas suspensas) uma carreira desportiva recheada de êxitos, bem demonstrativa das suas potencialidades.
Falámos com ele. Sentimos a sua amargura, desilusão e desencanto. Ouvimos histórias e episódios dos seus êxitos e de alguns fracassos. Do mundo subterrâneo que não devia ser o do Desporto. E ficámos-nos a perguntar: com um Desporto a sério, com apoios capazes, até onde iria este homem (atleta), caramba?
FN – Quando começaste a correr?
Luís Costa – Comecei a correr em provas populares, mais precisamente numa corrida de S. Silvestre em Nisa, tinha 13 ou 14 anos.
Nessa altura tinhas já algum “fraco” pelo atletismo?
Não, não tinha. Corri por correr, na brincadeira. Saí-me bem, pois logo pela primeira vez que corri e entre concorrentes mais credenciados fiquei em 2º lugar.
Depois disso não mais paraste?
A partir daí o senhor Tapadinhas convidou-me para uma prova na Festa dos Aventais em Portalegre, prova que ganhei e comecei a entrar noutras provas mais conhecidas em representação dos Pallés.
Estive no Grande Prémio de Alcanena e muitas outras provas de nível regional tendo vencido diversas. Comecei a entusiasmar-me e a acreditar nas minhas capacidades para o atletismo.
E começaste a dar nas vistas, não foi?

Fui ganhando várias corridas e naturalmente comecei a ser conhecido. Antes de despertar o interesse de alguns clubes, ainda passei as “passas do Algarve” para correr. Por exemplo, para participar no Grande Prémio do Bocage em Setúbal, fui de bolei até aquela cidade apenas com uma “sandes2 no bucho. Ganhei a prova e recebi um convite do Vitória de Setúbal para representar o clube. Em representação do Vitória, participei no 1º Passo – importante torneio organizado pelo Sporting e por onde têm passado os melhores atletas portugueses – tendo sido a grande revelação do Torneio, pois ganhei a prova dos 3.000 metros num tempo que ainda hoje é record do Torneio.
Pelo Vitória participei em diversas provas das quais destaco o Cross das Amendoeiras e a S. Silvestre de Lérida (Espanha) onde fui o melhor português.
Depois veio o interesse do Sporting?
Sim, fui contactado por dirigentes do Sporting e passei a representar este clube em juniores. Participei no Nacional de Corta-Mato e fui campeão regional de Lisboa em corta-mato. Venci também o Torneio de Abertura e outras em representação do clube de Alvalade. Fiz uma época em juniores e passei seguidamente a sénior tendo voltado a Portalegre e aos Pallés.
Por que trocaste o Sporting – grande clube na modalidade – por um clube modesto como os Pallés?
Porque tinha muitas dificuldades. O Sporting pagava-me apenas o alojamento e a alimentação e isso não dava para eu estar em Lisboa.
Quais os teus maiores êxitos em representação dos Pallés?
Participei em muitas provas ao longo da época, tendo obtido muitas vitórias, quer individual, quer por equipas. Destaco as vitórias nos Grandes Prémios de Seia, Gouveia e Covilhã, onde participam atletas de bom nível, bem como 3 estafetas Castelo de Vide-Portalegre.
De seguida, novo regresso a Setúbal. Porquê?
Em Portalegre, apesar da boa vontade e carolice de alguns dirigentes, as condições para a prática da modalidade eram más. Um atleta não é só correr. Precisa de ajuda, de quem o compreenda nos momentos menos bons de forma. Precisa também de condições para treinar, para melhorar os resultados e atingir outros níveis na sua carreira desportiva. Além disso o Vitória oferecia-me emprego e por isso não recuei.
No Vitória, nova etapa na tua carreira?

É verdade. Comecei a treinar com mais entusiasmo para justificar o convite que me fizeram e isso durante um ano. Foi uma boa época em que consegui excelentes resultados, embora tenha ficado muito desiludido. O Vitória enganou-me durante uma época com a promessa do emprego e nada feito, tive de vir embora.
Qual o trajecto, a seguir?
Uma vez que tinha feito uma boa época, o Sporting convidou-me novamente, clube que representei durante duas épocas e nas quais alcancei as minhas melhores marcas nos 5.000 e 10.000 metros. Foi um período de que guardo grandes recordações, apesar de continuar em Lisboa com grandes sacrifícios. Fiz o 3º melhor tempo da Estafeta Cascais – Lisboa. Alcancei o 11º lugar nos Nacionais de Corta-Mato e fiquei a dois lugares de ser seleccionado para o campeonato mundial da especialidade. Fiz de “lebre” durante 3.000 metros na primeira tentativa de Fernando Mamede para bater o “record” mundial dos 10.000 metros.
Por que não ficaste no Sporting?
No Sporting, sucedeu o mesmo que no Vitória de Setúbal. Promessas de emprego, melhoria de condições que nunca vieram, o desengano. Entretanto, casei em Portalegre e com a nova situação não me podia manter em Lisboa.
E outra vez os Pallés, não é?
Sim, radiquei-me em Portalegre, pois não havia condições de ir para outro lado. Aqui, ao menos há gente conhecida que me tem apoiado e incentivado a prosseguir.
Com a experiência e os resultados no Setúbal e no Sporting, não achas que poderias ir mais longe?
Sinto-me com capacidade para ir mais além, mas sem condições o que poderei eu fazer?
Tenho a minha vida, com grandes dificuldades pois estou desempregado. É claro que, com 25 anos, gostaria de mostrar todo o meu valor para o atletismo e alcançar melhores marcas. Assim vou aguardando que as coisas mudem e correndo onde é possível, dando o melhor que posso.
Como é que tu treinas?
Treino sozinho. Faço diariamente uma hora a correr, alternando a estrada com pisos de terra batida. Isto no princípio da época. Depois de 2 meses de treino, aumento o volume do treino, fazendo dois treinos diários: um de manhã e outro de tarde, correndo aproximadamente duas horas e percorrendo entre 30 e 35 quilómetros.
Quais as provas que gostas mais de correr?

Gosto de correr os 5.000 e os 10.000 metros e também a meia maratona (22.000 metros). Gostaria de tentar a maratona e penso que daqui a 2 ou 3 anos, se as condições o permitirem, poderei tentar esta prova.
O que é que pensas do atletismo a nível do nosso distrito?
Penso que está ainda bastante atrasado. Não há pistas; poucos clubes com secções organizadas, a participar, e falta de condições. O que é pena, pois há bastantes valores nas corridas e que poderiam fazer umas “coisas” se lhes dessem condições.
Uma última pergunta. Ó Luís, como é isso de uma pessoa, um jovem, estar desempregado, com dificuldades e ainda ter “energia” e estímulo para treinar e competir?
É muito difícil esta situação. Só quem passa por uma situação destas é que pode avaliar e compreender. Por vezes vou a correr, num treino e pergunto a mim mesmo por que é que ando a correr, para quê tudo isto? O desânimo é muito grande e só uma grande força de vontade é que me faz andar a correr. Tenho sido muito apoiado pela minha mulher que me ajuda e me diz "vai treinando, não pares de correr que melhores dias hão-de vir".
Tenho também corrido em muitas provas, principalmente em Espanha, onde tenho sido muito acarinhado. É isso que me ajuda a prosseguir e a confiar que no atletismo ainda poderei mostrar todo o meu valor".
Luís Costa, 25 anos, jovem, desempregado, atleta amador. Um depoimento impressionante e um exemplo de querer, de confiança. Um exemplo, também, de como não deveria ser o desporto em Portugal. Em Portalegre, aqui e agora.
Um exemplo para reflexão! Estão as autoridades (entidades) desportivas, interessadas nisso?
Mário Mendes in "Fonte Nova" - nº 41 - 4 Setembro 1985