22.6.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (XXXIII) - José Curado Lopes da Silva

 


QUADRAS POPULARES (Em noite de S. João) 

Na noite de S. João

Eu caí numa fogueira:

- Foi no fogo dum olhar

Duma garota brejeira…

 

Minha alcachofra queimada

Tende piedade de mim…

Solteira, sempre solteira,

Não quero ficar assim…

 

Muitas mentiras se dizem

Na noite de S. João!

- Doces mentiras de amor

De que vai cheio o balão!

 

Ao saltar uma fogueira

Meu coração se queimou…

-Foi o teu, que nela ardia,

É que o meu incendiou…

 

Deste-me um cravo encarnado.

Com juramentos de amor;

Foste, porém, tão sincera,

Que o pobre mudou de cor… 

·         José Curado Lopes da Silva

NISA: União de Freguesias promove Concurso "Capelas de S. João"

 


20.6.25

Clube de Automóveis Antigos celebrou 27 aniversário ao se passear até Nisa

O Clube de Automóveis Antigos de Castelo Branco (CAACB) cumpriu 27 anos de existência no passado dia 4 de Abril e comemorámos essa efeméride comemorou-se com um belíssimo passeio até a vila alentejana de Nisa, no domingo passado, 15 de Junho.

A manhã começou bem cedo, pelas 9h, na sede do clube. Juntaram-se os participantes para aí tomar o café matinal e aproveitar para se confortar com o pequeno-almoço à disposição…

Rumo a Nisa, vila que tanto carinho merece, fomos recebidos com um cuidado especial por parte de Mário Macedo e João Malpique, do executivo da Junta de Freguesia de Nisa (União de Freguesias de Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça e São Simão), que prepararam um reforço de pequeno-almoço, bem como um roteiro pedestre guiado pelas artérias locais. Destaque para a Rua de Santa Maria, que nos transporta para as raízes de Nisa: a olaria pedrada, aqui homenageada com a sua calçada de barro e mármore. Ouvimos ainda a história da Rua Direita, sombreada com motivos florais e identitários, onde pudemos apreciar os registos fotográficos de quem por ali morou ao longo do tempo…

O almoço, que decorreu no Quintal da Festa, foi mais uma vez num espaço dedicado à tradição e à história, onde foi possível reviver o ambiente dos casamentos de outrora. Uma refeição especial, sem pressas, cozinhada com carinho e servida sob a latada de parreiras, que se revelou fresquíssima num dia em que o calor fez jus à fama do Alto Alentejo. O Quintal da Festa é também uma casa-museu, onde podemos reviver os espaços de habitação e de ensino de bordadeiras, tão bem recriados por Paulo Bagulho, fiel contador de histórias e vivências, que tão bem recebeu os cerca de 80 participantes, em sua casa.

A tarde foi passada pelas serpenteantes estradas municipais dos concelhos, fugindo à monotonia das IP’s, visitando as freguesias de Tolosa e Póvoa e Meadas, onde fomos sempre recebidos de mesa posta, com as iguarias características da localidade. Destacamos o galardoado queijo de Nisa, que Ana Fortunato apresentou de forma sublime, em prova de queijos na sua queijaria, e os enchidos com que a Freguesia de Nossa Senhora da Graça e Póvoa e Meadas, na pessoa do presidente António Simão, nos presenteou à chegada à vila.

Foi hora de regressar a casa, não sem antes cantarmos os parabéns ao clube e apagarmos as velas — desta feita em Pé da Serra, com a companhia dos autarcas que tão bem nos receberam nas suas terras.

Foram mais de 30 automóveis antigos, desde o Plymouth de 1934 do sócio António Conceição, passando por Chevrolet, Fiat, Mini, Volkswagen, Ford, DKW, Mercedes, etc., que percorreram os cerca de 200 km de passeio. Destacamos, com gosto, a participação vinda de Espanha dos colegas David Romero e Alfredo Martín, num belíssimo Pontiac Trans AM de 1990 — já participantes habituais dos nossos eventos — e que muito nos honram.

“Ser CAACB é dar a conhecer cultura, tradição, descobrir os locais de baixa densidade e as gentes de bem que por ali resistem, conhecer o nosso Portugal profundo e tão delicioso que nos rodeia…” afirma o Clube em comunicado

 2025-06-20 - Diário Digital Castelo Branco

 

NISA: Dois detidos e apreensão de mais de 200 doses de estupefacientes


O Comando Territorial de Portalegre, através Posto Territorial de Nisa, no dia 18 de junho, deteve dois homens, ambos de 26 anos, por tráfico de estupefacientes, no concelho de Nisa.

No âmbito de uma operação de fiscalização rodoviária, orientada para a deteção de consumo excessivo de álcool e de substâncias estupefacientes, realizada naquele concelho, os militares da Guarda abordaram uma viatura, tendo verificado que os ocupantes se encontravam na posse de substâncias ilícitas. A ação culminou na detenção dos suspeitos e na apreensão do seguinte material:

·         80 doses de MDMA;

·         28 doses de crack;

·         20 doses de haxixe;

·         12 doses de 2CB;

·         19,24 gramas de cetamina;

·         11,28 gramas de cogumelos alucinogénios;

·         Cinco selos de LSD.

Os detidos foram constituídos arguidos e permanecem nas instalações da GNR até serem presentes ao Tribunal Judicial de Nisa, para aplicação das medidas de coação.

 

19.6.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (XXXII) – Maria Sampaio Freire Temudo

 


MARCHA POPULAR

A nossa marcha é bonita

Todo o povo gosta dela

Quando pela rua passa

Vaidosa, cheia de graça

Todos vêm à janela.

CORO

Lá vem a marchar a passar

Tão bonita e tão contente

Quando a nossa marcha passa

A cantar e a dançar

Ela encanta toda a gente.

II

Passa a marcha e quando passa

Muito alegre e tão bonita.

Com o seu arco na mão

Tendo no meio um balão

Todo enfeitado de fitas.

CORO

Lá vem a marchar a passar

Tão bonita e tão contente

Quando a nossa marcha passa

A cantar e a dançar

Ela encanta toda a gente.

III

Há balões pelas janelas

Andam foguetes no ar

Eu saio prá minha rua

E ando de esquina em esquina

P´ra ver a marcha passar.

CORO

Lá vem a marchar a passar

Tão bonita e tão contente

Quando a nossa marcha passa

A cantar e a dançar

Ela encanta toda a gente.

IV

Moças com saias vermelhas

E com os lenços bordados

Com a sua chinelinha

As meias todas branquinhas

A dançar com os namorados.

CORO

Lá vem a marchar a passar

Tão bonita e tão contente

Quando a nossa marcha passa

A cantar e a dançar

Ela encanta toda a gente.

V

Segue a marcha pela rua

E tudo contente vai

Quando a nossa marcha passa

E já vai chegando à praça

Começa o arraial

CORO

Lá vem a marchar a passar

Tão bonita e tão contente

Quando a nossa marcha passa

A cantar e a dançar

Ela encanta toda a gente.

VI

Lá vem a marcha a passar

De arquinho e balão

Juntam-se as raparigas

A cantar lindas cantigas

Na noite de S. João. 

Maria Sampaio Freire Temudo

FEIRA DO LIVRO: Apresentação do livro "Mulheres na luta contra o fascismo e o colonialismo

 

As Edições Colibri promove no próximo dia 21 na Feira do Livro de Lisboa, a apresentação do livro "Mulheres na Luta contra o Fascismo e o Colonialismo, com edição de Regina Marques, Inocência Mata, Leonor Teixeira, Joana Dias Pereira e Raquel Ribeiro.

A apresentação estará a cargo de Isabel Branco

MARVÃO: II Observação Astronómica

 


Promovida pela Academia de Marvão, em parceria com o Centro de Ciência Viva de Constância, na Quinta dos Olhos d’Água.

20 de junho (sexta-feira) -  21h30

📍 Quinta dos Olhos d'Água (São Salvador da Aramenha)

👉 Programa:

- Identificar estrelas e constelações;

- Momento de Poesia: "A pintura celestial de Camões";

- Observar "objetos celestes" com telescópios: Marte, enxame de estrelas e nebulosas;

- Observar "objetos celestes" para além da Via Láctea: galáxia Redemoinho; galáxia Catavento; galáxia do charuto; galáxia de Bode.

17.6.25

ROTA DOS CORETOS: Animação Musical de volta ao Alto Alentejo


Está de volta a Rota dos Coretos, dinamização musical a cargo de bandas filarmónica e que promete animar os espaços públicos de algumas localidades do Alto Alentejo.

Estão programados sete concertos, a realizar entre Junho e Outubro, o primeiro a ter lugar já no próximo dia 23 em Póvoa e Meadas, pelas 21 horas, com concerto a cargo da Banda da Sociedade Recreativa e Musical de Póvoa e Meadas.

A programação da Rota dos Coretos é retomada no dia 4 de Julho, pelas 21,30h na vila de Crato com o concerto da Filarmónica do Crato, prosseguindo o programa nas datas que assinalamos:

·         22 de Agosto – 22h – Nisa – Concerto pela Sociedade Musical Nisense

·         6 de Setembro – 21,30h – Alter do Chão – Banda Musical Alterense

·         13 de Setembro – 17,30h – Gavião – Banda Juvenil do Município do Gavião

·         20 de Setembro – 21,30h – Gáfete – Filarmónica do Crato

·         4 de Outubro – 17,30h – Alpalhão – Sociedade Filarmónica Alpalhoense

 

NISA: Conheça os poetas do concelho (XXXI) – Manuel Carita Pestana


Marcha das Cantarinhas

O Rancho das Cantarinhas

É um rancho muito alegre;

Há nele rapariguinhas

Que são as mais bonitinhas

Das terras de Portalegre.

 

Sempre que saem á rua

Tudo fica encantado.

Com seus trajes multicolores

Algumas com seus amores

Deixam tudo enfeitiçado.

 

As bem formosas nisenses

Actuam pelo país.

Com as suas cantarinhas

Tudo se sente feliz.

 

E elas lá vão andando

Com o povo que as rodeia

Ouvindo de quando em quando

Oportuna explicação

Do bom Rodrigues Correia.

 

Todos são muito engraçados

Tudo já gosta de os ver

“As Cantarinhas de Nisa”

Com quem tudo simpatiza

Acreditem, podem crer.

 

O seu grande ensaiador

Que segue boa divisa

Se lhe entrega com amor

E bem merece o valor

Dos habitantes de Nisa.

 

Senhor Rodrigues Correia

Vai o Rancho acompanhar,

É o seu ensaiador

Ao Rancho tem muito amor

Nunca o pode abandonar.

 

O Rancho das Cantarinhas

Onde vai faz sensação

Cumpre bem o seu dever

E tudo gosta de o ver

Rancho do meu coração.

 

·         Manuel Carita Pestana – “Correio de Nisa” – 4/5/1966

NOTA- Fundado em Junho de 1964, o Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa completa este ano, meio século de vida. Os versos que aqui publicamos da autoria do nisense Manuel Carita Pestana, durante muitos anos radicado no Montijo e grande entusiasta do Rancho, servem como forma de lembrar esta efeméride e este grupo folclórico da nossa terra, que tantos êxitos coleccionou, contribuindo para a divulgação dos nossos trajes e tradições, para além da promoção do concelho e da região alto-alentejana.

 

NISA: Convívio de Pesca Inter-Sócios da Inijovem

 


PONTE DE SOR: Prémio Literário "José Luís Peixoto"

 


16.6.25

ALPALHÃO: Arraial de S. João no Largo do Terreiro

 


AVIS: 𝐂𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐚𝐝𝐚 “𝐒𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐀𝐧𝐭ó𝐧𝐢𝐨 𝐝𝐞 𝐀𝐥có𝐫𝐫𝐞𝐠𝐨 𝐞 𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐈𝐠𝐫𝐞𝐣𝐚”


O Calendário de Caminhadas e Passeios 2025 tem agendado uma caminhada para o próximo dia 22 de junho, em Alcórrego, com o tema “Santo António de Alcórrego e a sua Igreja”.

A rota proposta para este passeio de, aproximadamente, 4 Km, segue as linhas previamente estipuladas: concentração na Junta de Freguesia de Alcórrego, às 9h00, passagem por várias ruas da freguesia e saída em direção à Igreja de Santo António, situada junto à estrada de acesso ao lugar de Pisão, com paragem para uma visita ao interior da Igreja, assim como à área envolvente, onde se localiza o antigo cemitério, algumas casas e um forno comunitário. Aproveite para respirar ar puro, sentir os cheiros da vegetação e apreciar as várias vistas que daqui se alcançam, porque, aqui, a Natureza é mãe e, decerto, encarregar-se-á de o cativar e de fazer de si um admirador incondicional deste lugar que justifica uma visita. Depois, é tempo de voltar para trás e regressar ao ponto de partida.

Lembramos que a participação nesta iniciativa obedece a uma inscrição prévia, pelo que os interessados a deverão fazer na Divisão de Desenvolvimento Sociocultural Turismo e Desporto, Juntas de Freguesia ou através do formulário disponível online em: https://tinyurl.com/CaminhadaAlcorrego25, até ao dia 18 de junho.

Venha participar!

TOLOSA: Festa de S. Pedro no Centro Social

 


Castelo de Vide recebeu V Meeting do Dia Nacional do Dardo com os melhores atletas nacionais


Decorreu ontem, em Castelo de Vide, a quinta edição do Meeting do Dia Nacional do Dardo, uma competição que já se afirma como um marco anual no calendário do atletismo nacional. Organizado pela Associação Desportiva de Castelo de Vide (ADCV), com o apoio da Associação de Atletismo do Distrito de Portalegre (AADP) e do Município de Castelo de Vide, o evento voltou a reunir os melhores especialistas nacionais da disciplina.

Na prova absoluta feminina, a vitória pertenceu a Marta Trovoada, que confirmou o excelente momento de forma que atravessa. No setor masculino, Leandro Ramos — atual detentor do recorde nacional — impôs-se com a autoridade que já lhe é reconhecida, abrilhantando ainda mais a competição com a sua presença.

Ao longo das cinco edições já realizadas, o Meeting do Dia Nacional do Dardo tem registado um crescimento sustentado, tanto em número de participantes como em notoriedade. Este progresso é reflexo do empenho da organização e da aposta contínua na promoção desta disciplina técnica e exigente, num cenário natural e inspirador como é o de Castelo de Vide.


Destaque ainda para a excelente prestação dos atletas dos clubes filiados na AADP, que deixaram a sua marca em diversos escalões. Constança Nascimento, da ADCV, foi a vencedora no escalão Sub-12 feminino, mostrando o potencial das gerações mais jovens da região. Em Sub-20 feminino, Diana Camejo, da AJJ, venceu com grande qualidade, enquanto Jandira Yopo, do Eléctrico FC, garantiu um meritório 2.º lugar. No mesmo escalão, mas no setor masculino, Guilherme Vélez (AJJ) conquistou também o 2.º lugar, num excelente desempenho entre os melhores jovens nacionais.

A ADCV, com o apoio da AADP e do Município de Castelo de Vide, reforça assim o seu compromisso com o desenvolvimento do atletismo regional e nacional, proporcionando condições de excelência para a prática e valorização do lançamento do dardo.

 

 

 

15.6.25

NISA: Conheça os poetas do concelho (XXX) - João R.

 


AS SORTES

Síntese

Em 1971, chegou o meu dia de “sortes”: uma inspecção médica para decidir a incorporação nas forças armadas e, posterior, mobilização para a Guerra Colonial. Apesar de todos os receios, era um dia de festa. Todos os rapazes, que completavam 20 anos nesse ano, percorriam as ruas da aldeia, abraçados e a cantar ao som duma concertina. Para manter os ânimos íamos bebendo copinhos de vinho, em cada taberna: era uma tradição que se perdia nos confins do tempo. Inspirado por: TRIO MUSICAL VICTOR COSTA – Cantar na Adega.

CENAS DA ALDEIA – O DIA DAS SORTES

Música : Cantar na Adega – Trio Musical Vitor Costa

1

 Rua acima, rua abaixo,

Pega o copo e bota-abaixo,

Para molhar a garganta.

Rua abaixo, rua acima,

É o vinho que nos anima,

Que com água ninguém canta!

2

Aqui, ninguém desafina,

Ao toque da concertina,

Ao bater das castanholas.

E, quem não tem pandeireta,

Com os ferrinhos se ajeita

Ou na dança se consola.

3

Chegámos a cambalear,

Abraçados e a cantar,

À tasca da tchá Zabumba.

O “vento” estava forte;

Alguém que perdeu o norte

Caiu no chão, catrapumba!

4

 Manjericos na lapela

E as moças à janela,

Para nos verem passar.

Os olhares e sorrisos

Faziam sinais precisos

Pedindo pra namorar.

5

Vamos cantar e bailar,

Enquanto o dia durar,

Mesmo que a voz nos doa.

As pernas já nos fraquejam;

Nossos corações arquejam,

Mas a alegria ressoa.

6

Somos a malta das sortes

Esperando passaportes

Para a guerra fraticida.

Não era nossa vontade

Servir a tanta maldade,

Mas não nos resta saída.

7

Pra manter a tradição

E ganhar animação,

Vamos bebendo uns copinhos.

Celebramos a amizade:

Viva a nossa irmandade,

À espera doutros caminhos!

 

(João R. – Junho/2023)

OPINIÃO: As palavras e as pontes


Existimos em abertura. São as pontes que criamos que nos vão alargando o mundo e nos mostram respostas que sozinhos não veríamos. O que pode parecer uma evidência é hoje mensagem a repetir com insistência e sobretudo com ação condizente. A poesia com que Lídia Jorge teceu ligações entre o passado e o futuro, recordando a mistura e a diversidade que nos corre nas veias, teve o tom certo para tempos em que alguns professam a solidão e a divisão.

Marcelo Rebelo de Sousa e a escritora convidada para o último Dia de Portugal presidido pelo atual chefe de Estado estiveram sintonizados. Sem esquecer um dos temas clássicos dos seus mandatos, a pobreza ou o risco dela que afetam um em cada cinco portugueses, o presidente da República sublinhou que cuidar dos “nossos” é tarefa que exige uma visão solidária, relacional e coesa da sociedade. Não exclui ninguém, pelo contrário: é quando alguém fica para trás que nos tornamos incompletos e mais pequenos.

O país não cresce em fechamento. Somos em movimento, somos em relação, somos porque cruzamos as diferenças e nos enriquecemos com elas. Sem revisionismos, mas aprendendo com os erros que marcam a nossa história. E se esse é um equilíbrio tão difícil, é essencial que o conhecimento e a Cultura contribuam ativamente para o atingir.

Numa altura em que a Cultura perdeu espaço no Governo (a somar ao orçamento que sempre lhe faltou), foi importante a voz de Lídia Jorge. A salientar a atualidade de Camões e a força da palavra, capaz de fazer revoluções. A palavra é combate e reconstrução. A palavra encontra caminho entre a falha e a imperfeição.

·         Inês Cardoso – Jornal de Notícias - 11 junho, 2025

13.6.25

SOS RACISMO CONDENA: Violência da extrema-direita e inoperância do Governo


1. O SOS Racismo está solidário com todas as vítimas da extrema-direita, do racismo e da  xenofobia – em especial, com o ator Adérito Lopes e com a equipa do teatro A Barraca.

2. Estamos ao lado das pessoas que sofrem na pele a violência de grupos organizados de  extrema-direita, sobretudo imigrantes e pessoas racializadas, sempre e a qualquer hora. E  tudo faremos para as proteger e para que os criminosos racistas e xenófobos sejam levados  a Tribunal e julgados pelos crimes cometidos.

3. Ontem, 10 de junho de 2025, 30 anos depois do assassinato cruel e cobarde de Alcindo  Monteiro, a extrema-direita voltou a assaltar as ruas, em manifestações de apelo explícito ao  ódio e de incitamento à violência, agredindo várias pessoas que se atravessaram pelo seu  caminho.

4. Em Lisboa, um grupo de elementos de extrema-direita espalhou mensagens de ódio racista e  xenófobo pela cidade e atacou, com violência, atores e atrizes da companhia de teatro A  Barraca.

5. Este não foi um ato isolado – o Governo, o Ministério da Administração Interna, o Ministério  Público, a PSP, a GNR e a Polícia Judiciária têm conhecimento dos crimes que têm sido  diariamente praticados.

6. Sabe-se perfeitamente quem são muitos destes criminosos que propagam mensagens de  apelo ao ódio e à violência, que convocam manifestações, que intimidam, perseguem e  agridem pessoas.

7. Sabe-se também que estes grupos de extrema-direita não se escondem – anunciam  publicamente as suas intenções, quer na internet, quer em eventos presenciais.

8. Sabe-se que estes grupos têm bases de dados ilegais, com dados pessoais de imigrantes, de  anti-fascistas e de ativistas de organizações anti-racistas, de imigrantes, de esquerda ou  LGBTQI+, e que partilham estes dados pessoais para perseguir, intimidar, ameaçar e violentar  estas pessoas.

9. Sabe-se que esses grupos odeiam a liberdade e a cultura, e que se organizam para boicotar,  insultar e agredir quem participa em peças de teatro, em debates, em lançamentos de livros,  em concertos e palestras.

10. E sabe-se também que o aumento da violência da extrema-direita se tem acentuado desde  que este setor passou a estar representado na Assembleia da República: temos assistido à  proliferação do discurso de ódio e de mensagens violentas sobre imigrantes e minorias  étnicas, à apologia da violência para lidar com estas pessoas e a insultos constantes  perpetrados pela extrema-direita, quer no parlamento, quer nos espaços que ocupam.

11. Ao mesmo tempo, verificamos que aquele discurso e práticas racistas e xenófobas são  permitidos e legitimados pelas instituições – nomeadamente, pelo Presidente da Assembleia  da República; são permitidos e legitimados por outros partidos, com especial destaque para  a coligação AD que mimetizou grande parte da agenda política da extrema-direita; e são  permitidos e legitimados pela comunicação social.

12. São muitos, são demasiados os casos de violência racista e xenófoba – e não acontecem no  vazio. Estes grupos atuam de forma concertada, porque se sentem protegidos pela atual  configuração do Parlamento e instituições ditas “democráticas”, com uma Lei e instituições  ineficientes e esvaziadas de competência (Comissão para a Igualdade, AIMA ou entidade  Reguladora para a Comunicação Social), um Ministério Público que arquiva mais do que acusa  e tribunais lentos e complacentes".

13. A normalização do ódio a imigrantes, a minorias étnicas e a pessoas LGBTQI+, a obsessão pela  segurança, a perseguição politica a ativistas anti-racistas e o culto nacionalista que a presença  da extrema-direita na Assembleia da República veio trazer, é o principal combustível para a  violência que se sente nas ruas e nos espaços públicos.

14. E a conivência e inoperância do governo é assustadora: o capítulo e informações sobre  violência de grupos terroristas e de extrema-direita desapareceu do Relatório Anual de  Segurança Interna referente a 2024.

15. Nos anos anteriores, o Relatório Anual de Segurança Interna conteve sempre informação a  este respeito – mas, em 2024, toda a informação desapareceu.

16. E o ano de 2024 foi aquele em que se registaram o maior número de incidentes deste tipo – desde a invasão e destruição de casas e agressões bárbaras a imigrantes no Porto, às múltiplas  ofensivas a eventos e agentes culturais por todo o país.

17. O Governo não dá nenhuma explicação para este apagão e não confere qualquer informação  sobre a violência da extrema-direita – mas ela existe e é cada vez mais forte e evidente.

18. A passividade do Estado no combate ao racismo e à xenofobia é outra constatação: aos  crónicos problemas da Justiça neste capítulo, acresce a inoperância da Comissão para a  Igualdade e Contra a Discriminação Racial, que está sem funcionar desde outubro de 2023.

19. As pessoas que são vítimas de violência racista e xenófoba não conseguem apresentar as suas  queixas, os processos estão parados e milhares deles já prescreveram ou estão em vias de  prescrever.

20. E há um silêncio ensurdecedor a este respeito – ninguém aponta o óbvio, ninguém reclama  por justiça, as objetivas focam-se inevitavelmente nas alarvidades que a extrema-direita  promove. 

21. O SOS Racismo condena esta onda de violência racista, xenófoba e homofóbica extrema, que  se tem vindo a intensificar nos últimos tempos. 

Exigimos:

- A todos os responsáveis políticos que condenem estes atos e que condenem todos os  discursos de ódio que os sustentam;

- Ao Ministério da Administração Interna, que intervenha de forma imediata, garantindo a  proteção policial necessária para salvaguardar as pessoas.

- Ao Ministério Público, que atue rapidamente para deter e levar a julgamento este bando de  criminosos;

- Ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Governo, que condenem inequivocamente toda esta violência e que tomem as medidas necessárias para que as Instituições democráticas funcionem, e, em especial, para que a Comissão Para a Igualdade e  Contra a Discriminação Racial funcione.

Mas apelamos sobretudo a todas as pessoas que não se conformam e não aceitam a violência racista  e xenófoba para estarem ao lado das vítimas dessa violência. E para combaterem a extrema-direita  em todos os espaços – nas escolas, nos locais de trabalho, nos cafés, nos espaços culturais, nas ruas.

Os próximos anos vão ser difíceis. Mas sabemos onde temos de estar - ao lado das pessoas  imigrantes, das pessoas racializadas, das minorias e dos excluídos. Ao lado da verdade, pela igualdade  e pela solidariedade.

Não desistimos. E não esquecemos, nem perdoamos a quem cometeu estes crimes e a quem os  legitima politicamente todos os dias.

11 de junho de 2025

SOS Racismo

sosracismo@gmail.com * www.sosracismo.pt