8.11.16

Histórias e Memórias: o S. Martinho

Mestre Vicente, carpinteiro de seu ofício, um dia meteu-se a estatuário e, em vez de   arrancar à montanha a pedra tosca, bruta, dura e informe, foi-se ao tronco duma figueira anosa e trouxe para casa a matéria prima em que depois iria corporizar a sua ideia...
Lança mão da enxó e, “depois que desbastou o mais grosso”, toma o formão, a grosa e outra utensilhagem e começou a esculpir... o S. Martinho.
Alguns dias depois, a casa do Santeiro era uma nova Meca para os sectários da religião de Baco, e irmãos e irmãs acorriam em peregrinação a ver e a admirar o orago da confraria, que os sucessivos e aprimorados retoques do artista iam tornando cada vez mais venerável.
Até que, em 10 de Novembro daquele ano, o S. Martinho, simbolicamente ajaezado e repimpado sobre condigno andor, foi conduzido, através das ruas do burgo, numa procissão que deixou a perder de vista todas as realizadas até então.
Naquela noite, que o veranito do festejado tornara deliciosamente amena, à luz de archotes e balões venezianos, uma enorme multidão de devotos, em vozearia ensurdecedora, cabeças estonteadas pelo vinho novo, acompanhou o Santo, cantando em berros avinhados.
- Era o vinho meu Deus, era o vinho
Era o vinho que eu mais adorava...
Esta adoração, concretizada em visitas a todas as capelas do itinerário, resultou, como era de prever, em um sem número de cardinas...
E sempre aos ombros dos mais conspícuos confrades, o cabeça de pau, que os archotes laivavam de vermelho, lá recolheu de novo a casa de Mestre Vicente.
Foi isto não sei há quantos anos. Agora, a propósito, ocorre-me, nesta época de prova de vinho novo, um episódio sucedido numa outra procissão...
Ainda o pai do S. Martinho, como ficou conhecido o Santeiro, não tinha arrancado à sua bossa artística a criação que o celebrizou.
Como não havia Santo, era costume alçupremar a uma padiola um dos mais afamados bebedores. Naquele ano fazia de S. Martinho um indivíduo cujo nome não vem ao caso e que, tempos depois, me referiu as impressões da sua odisseia através das artérias da povoação.
Dizia-me ele: “Eu ia lá que nem um cacho e nem sei como me aguentava na padiola; mas os que me transportavam não iam melhores”. E contava que, por entre o alarido do acompanhamento, percorreram quase toda a vila; mas no trajecto deu-lhe a bebedeira para chasquear com os irmãos que com ele carregavam, umas vezes atirando-lhe um arre estimulador, outras fazendo-os suspender a marcha com um chô arreliante.
Quando iam chegando ao poço do Rossio, no local onde hoje se ergue o novo edifício do correio, poço com uns sete ou oito metros de profundidade, um dos da padiola, talvez abespinhado por algum remoque mais incisivo, diz para os outros:
- Ó rapazes, pregamos com ele dentro do poço!...
E ele então, com um sorriso de quem escapou de boa:
- Ó Sr. F. eu não sei como aquilo foi: passou-me a bebedeira de repente. Se não salto da padiola tão depressa, os malditos atiravam-me para o fundo! Não ganhei para o susto!
Mas... Voltemos a Mestre Vicente.
O pobre homem, desde que fez o Santo, não mais teve uma hora de ventura.
Naturalmente supersticioso como todo o portuguesito, disse lá para consigo:
- O S. Martinho, depois de muitos tombos e maus tratos em várias patuscadas, não deve estar satisfeito. Vou restaurá-lo, aperfeiçoá-lo e certamente a sorte mudará.
E assim fez. Mas a macaca continuava, o cabeça de pau dava-lhe enguiço e o homenzinho resolveu livrar-se dele duma vez para sempre. E ofereceu-o aos irmãos de Póvoa e Meadas, os quais uns dias antes da festa do Patrono, vieram buscá-lo entre ruidosas e significativas demonstrações de regozijo. Pois vejam os leitores o que é o azar! À hora em que na Póvoa, o Santo contribuía para atenuar a crise vinícola, fazendo vibrar a população na alegria e no bulício duma festa popular, Mestre Vicente caía dum andaime e dava entrada no hospital de Nisa, cruciado de dores e mais uma vez amachucado pela sua negra sina.
Era caso para dar ao diabo o boneco de figueira, se não o tivesse já dado aos da Póvoa!...
J. Figueiredo – In “Correio de Nisa” (1945)