6.4.26

OPINIÃO: SEJAMOS PESSOAS QUE GOSTAM DE PESSOAS


Depois de cerca de quarenta anos de lutas difíceis pelo aproveitamento integral do sangue, lideradas pelo Comendador Joaquim Moreira Alves, tivemos a oportunidade de em 2018, pela primeira vez em Portugal, ter medicamentos plasmáticos, obtidos através do fracionamento de plasma recolhido em Portugal.

Tal foi possível através do Programa Estratégico Nacional para o Fracionamento do Plasma Humano 2015 - 2019[1], pela mão do professor Adalberto Campos Fernandes, ministro da saúde na altura. Depois de ameaças de morte e situações complicadas que envolveram alterações profundas, até no movimento associativo/federativo – o esforço e o sacrifício foram recompensados, com esta mudança.

Para a transfusão de plasma, o nosso país já era autossuficiente, mas milhares de doentes em Portugal dependem dos medicamentos derivados do plasma, em especial a Albumina Humana, a Imunoglobulina e o Fator VIII, medicamentos críticos e essenciais. Nesta nova fase, os concursos para fracionamento foram de trinta mil litros, quinze mil e o mais recente de sessenta mil litros, mas Portugal precisa de cerca de cento e oitenta mil litros / ano. Isto significa que temos tido apenas 11% dos medicamentos plasmáticos necessários.

Por isso, Portugal e a Europa, dependem quase na totalidade do que importa dos Estados Unidos, que detêm a maior fatia do comércio mundial em mais de sessenta por cento. O custo destes medicamentos já representava, em 2022, cerca de cem milhões de euros por ano e a tendência é de crescimento.

Estamos a falar de tratamentos para doentes com imunodeficiências primárias e outras patologias graves e esses medicamentos não se fabricam em laboratórios; apenas são possíveis através da dádiva de braço estendido e o mesmo se passa com as plaquetas. Qualquer um de nós pode vir a precisar. Estima-se que uma em cada cinco pessoas, podem vir a contrair cancro e uma em cada dez, pode morrer de cancro e o cenário não está fácil.

E quando falamos de importar, temos de perceber o impacto. Não investimos em unidades separadoras celulares, para termos colheitas de aférese no plasma e nas plaquetas, tão necessárias em oncologia, dos cem milhões de euros gastos, podíamos poupar de imediato cerca de quarenta milhões de euros. Contudo o Hospital de São João no Porto, a maior referência no serviço de imunohemoterapia em Portugal[2],  estimou uma poupança anual de cerca de 200.000 euros se deixarmos de desperdiçar o plasma dos nossos dadores.

Mas a poupança não é tudo e a ciência comprova que devido ao meio-ambiente, alimentação, etc., o plasma de cada região do mundo varia e só temos a ganhar em qualidade se aproveitarmos o plasma recolhido em Portugal. E o que dizer da origem de grande parte do plasma que chega até à Europa proveniente do sul dos Estados Unidos em que pagam a pessoas que vivem miseravelmente e em condições de saúde duvidosas para vender plasma… e é esse plasma que exportam.

Os EUA, que para muitos é considerado um estado amigo e parceiro estratégico, foi até hoje o único país que utilizou a bomba atómica para dizimar japoneses inocentes com sequelas até hoje. Na apelidada maior potência do mundo, milhões de pessoas recorrem à dádiva de plasma remunerada para sobreviverem, para não falar da venda abominável de partes dos seus corpos, até ao negócio de “peças de cadáveres”.

Quanto ao plasma, que é pago nos E.U.A. conforme a condição física do dador, é exportado o que é de menor segurança e “qualidade”, estamos perante um mercado deplorável e perigoso.

E no momento que atravessamos, Portugal e a Europa, dependentes dos E.U.A. podem sofrer um revés, se por razões geopolíticas, for cortado o fornecimento ou aplicado entraves ao plasma. Mais uma razão para se trabalhar na autossuficiência europeia, respeitando o princípio plasmado no recém-aprovado regulamento europeu (SoHO), da não compensação financeira que vai ao encontro do que defendemos como dádiva benévola e não remunerada.

No entanto, regista-se uma redução do número de dadores. São quase menos dez mil desde 2017 para cá. Daí a necessidade da aposta de sensibilização nas escolas, junto dos deputados, governantes e Presidência da República. Esta, tem sido a preocupação por parte da Federação das Associações de Dadores de Sangue – FAS-Portugal. É importante reforçar o investimento no serviço de sangue e garantir mais apoio ao movimento associativo que tem ajudado a garantir as reservas nacionais, para que não faltem componentes sanguíneos a quem deles necessite. Como dizia o grande Joaquim Moreira Alves – “SEJAMOS PESSOAS QUE GOSTAM DE PESSOAS”!

·         Paulo Cardoso in 03-04-2026 - Programa Desabafos Rádio Portalegre