A Festa das Tochas, ou Procissão da Ressurreição, tornou-se, ao longo
do tempo, numa das mais expressivas e imponentes procissões de toda a província
algarvia, para isso contribuindo as suas características religiosas, populares
e festivas.
Conhecida, antigamente, por Procissão das Três Marias (em alusão às
três mulheres que se deslocaram ao túmulo de Jesus, na manhã da Sua
Ressurreição), era, igualmente, designada por Procissão das Flores (pela
ornamentação floral das «tochas», das cruzes, dos pendões, das lanternas, e
também das ruas, dos caminhos e outros locais).
No início do século XX, a Procissão das Tochas perdeu algum do seu
brilho, devido à extinção das confrarias. Por outro lado, foram-lhe
introduzidas algumas alterações.
As «tochas floridas» (velas grossas) acabaram substituídas por paus
ornamentados com flores, vendo-se, nos finais do século XIX, já algumas feitas
de cana (ao que parece, devido à escassez de cera).
De acordo com o preceito, as «tochas» são transportadas apenas por
homens (vestidos a rigor: fato, camisa e gravata ou calça e casaco).
São eles que abrem a procissão, após a missa na igreja matriz (cerca
das onze horas), formando alas e precedendo o andor do Senhor Ressuscitado.
Ao longo do percurso formam-se pequenos grupos, que, alternadamente,
elevam o grito de «aleluias», seguido, aqui e além, por outras vozes
masculinas, sonoras e fortes, que exclamam: «Ressuscitou como disse!». Nessa
altura os grupos erguem bem alto as «tochas floridas» e respondem com
entusiasmo: «Aleluia, aleluia, aleluia!». É a voz do povo a manifestar na sua
fé a grande alegria em Cristo Ressuscitado.
Tem havido, entretanto, a preocupação de fazer ressurgir a tradição do
antigo percurso do cortejo processional que voltou a realizar-se nos últimos
anos como antigamente. O mesmo acontece com a igreja e as ruas que se
apresentam de novo engalanadas, assim como vários locais do concelho, quer com
«tochas», quer com arcos floridos e arranjos florais, a lembrar as celebrações
do passado.
Com efeito, em tempos idos, o aparato era maior. As ruas eram varridas
e atapetadas com alecrim, «rosmonos» (rosmaninho), alfazema e flores silvestres
(costume recentemente retomado). As pequenas casas térreas algarvias, mais
humildes, apareciam enfeitadas com grinaldas de flores, enquanto as famílias de
mais posses mandavam erguer junto das suas casas grandes arcos de verdura com
flores e fitas coloridas.
O próprio interior da igreja apresentava-se ornamentado de modo
esmerado e solene. Desciam damascos e veludos vermelhos pelas colunas, em cujas
bases se depunham palmas e ramos de oliveira.
De Faro e de Tavira vinham propositadamente os «armadores» para «armar»
os altares e os retábulos com panos brancos, vermelhos e azuis. A imagem do
Senhor Ressuscitado era exposta no altar-mor, debaixo de um dossel, e
resplandecia sob as luzes. Após as «laudes» (oração da manhã), saía a procissão
enquanto os sinos repicavam festivamente, sem parar. Todo o clero participava
na celebração e os cantores do coro, incorporados no cortejo entoavam a
«Antífona» de Ressurreição; «O Senhor Ressuscitou no Sepulcro, aleluia,
aleluia, aleluia!». E o povo, em uníssono, respondia: «Que por nós esteve
suspenso na Cruz, aleluia, aleluia, aleluia!». E tornavam os cantores: «O
Senhor ressuscitou como disse, aleluia, aleluia, aleluia!». E o povo voltava a
responder: «E apareceu a Simão, aleluia, aleluia, aleluia!»
Por essa época eram as confrarias que abriam a procissão, envergando as
suas opas e «tochas floridas» (algumas com o peso aproximado de seis quilos).
Seguiam-se os turiferários, a oscilar nas mãos os turíbulos, onde ardia o
incenso que perfumava as ruas, e os acólitos, com salvas de prata cheias de
pétalas de flores que espalhavam ao longo do percurso..
Actualmente, tudo se simplificou. Só a fé e a tradição popular se
mantêm com a mesma verdade, feita de alegria e de fraternal convívio.
Quando o cortejo regressa à igreja, onde se procede à celebração da
missa, parte dos homens (respeitada a praxe de outrora) retira as flores das
«tochas» para espalhá-las no chão num preito de homenagem ao Senhor
Ressuscitado, permitindo, assim, que o Seu andor passe sobre elas.
Refira-se que até 1910 todas as paróquias do Algarve organizavam a
«Festa das Flores», tradição que se conservou, unicamente, em São Brás de
Alportel. Contudo, ainda hoje em Olhão (e um pouco em Portimão) as crianças
desfilam na Procissão da Ressurreição, levando nas mãos um círio enfeitado no
topo com um laço de seda e um arranjo floral na base.
A São Brás de Alportel chegam nesta data milhares de pessoas, vindas um
pouco de todo o lado, incluindo aqueles que se encontram fora da terra e que
não faltam ao encontro com os seus familiares, amigos e conterrâneos, para
matar saudades, levar na procissão a sua «tocha florida», ou, simplesmente,
para assistir, conviver e comprar as tradicionais «amêndoas de pinhão», um dos
manjares tradicionais da doçaria pascal de São Brás, confeccionadas, ainda hoje
de modo artesanal.
A festa prolonga-se depois pela tarde e noite no adro da igreja com
prémios atribuídos aos «Jogos Florais de Aleluia» e à «tocha florida» que, pela
sua ornamentação, se revelar mais artística e dentro das praxes estabelecidas,
a manter viva a ancestral tradição da Festa das Tochas em São Brás de Alportel.
Há que referir uma outra praxe bem mais recente. Trata-se do uso da
«garrafinha da aguardente de medronho» (uma especialidade algarvia), levada na
algibeira do fato, que os homens, ao longo do percurso, parecem fazer alarde em
utilizar, discretamente ou não, bebendo-a, trago a trago, por entre as flores
da «tocha».
Quanto à origem da festa estará ligada à invasão de Faro por piratas
ingleses em 1596. Após saquearem algumas localidades, acabaram os piratas por
ser repelidos em São Brás de Alportel, graças aos elementos da «Confraria do
Nome de Jesus», munidos de varapaus (simbolicamente revistos depois nas mãos
dos homens, transformados em «tochas floridas».
O prato cerimonial destes dias é o borrego assado com batatas,
acompanhado com ervilhas. O tradicional folar fica para sobremesa
Em São Brás de Alportel, diz a tradição popular que «na Páscoa não deve
comer-se animal de penas, porque o galo, por três vezes, denunciou a negação de
Pedro».
Soledade Martinho Costa
Do livro festas e Tradições Portuguesas, Vol. III - Ed. Círculo de
Leitores
Foto : pormenor da Procissão das Tochas Floridas
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