6.4.26

FESTAS E TRADIÇÕES: Procissão das “Tochas Floridas»


Considerada a grande celebração pascal desta típica vila serrana, remonta, supostamente, ao século XVII. Recuperada em 1981, nunca mais deixou de realizar-se, com o maior esplendor, na manhã de domingo de Páscoa.

A Festa das Tochas, ou Procissão da Ressurreição, tornou-se, ao longo do tempo, numa das mais expressivas e imponentes procissões de toda a província algarvia, para isso contribuindo as suas características religiosas, populares e festivas.

Conhecida, antigamente, por Procissão das Três Marias (em alusão às três mulheres que se deslocaram ao túmulo de Jesus, na manhã da Sua Ressurreição), era, igualmente, designada por Procissão das Flores (pela ornamentação floral das «tochas», das cruzes, dos pendões, das lanternas, e também das ruas, dos caminhos e outros locais).

No início do século XX, a Procissão das Tochas perdeu algum do seu brilho, devido à extinção das confrarias. Por outro lado, foram-lhe introduzidas algumas alterações.

As «tochas floridas» (velas grossas) acabaram substituídas por paus ornamentados com flores, vendo-se, nos finais do século XIX, já algumas feitas de cana (ao que parece, devido à escassez de cera).

De acordo com o preceito, as «tochas» são transportadas apenas por homens (vestidos a rigor: fato, camisa e gravata ou calça e casaco).

São eles que abrem a procissão, após a missa na igreja matriz (cerca das onze horas), formando alas e precedendo o andor do Senhor Ressuscitado.

Ao longo do percurso formam-se pequenos grupos, que, alternadamente, elevam o grito de «aleluias», seguido, aqui e além, por outras vozes masculinas, sonoras e fortes, que exclamam: «Ressuscitou como disse!». Nessa altura os grupos erguem bem alto as «tochas floridas» e respondem com entusiasmo: «Aleluia, aleluia, aleluia!». É a voz do povo a manifestar na sua fé a grande alegria em Cristo Ressuscitado.

Tem havido, entretanto, a preocupação de fazer ressurgir a tradição do antigo percurso do cortejo processional que voltou a realizar-se nos últimos anos como antigamente. O mesmo acontece com a igreja e as ruas que se apresentam de novo engalanadas, assim como vários locais do concelho, quer com «tochas», quer com arcos floridos e arranjos florais, a lembrar as celebrações do passado.

Com efeito, em tempos idos, o aparato era maior. As ruas eram varridas e atapetadas com alecrim, «rosmonos» (rosmaninho), alfazema e flores silvestres (costume recentemente retomado). As pequenas casas térreas algarvias, mais humildes, apareciam enfeitadas com grinaldas de flores, enquanto as famílias de mais posses mandavam erguer junto das suas casas grandes arcos de verdura com flores e fitas coloridas.

O próprio interior da igreja apresentava-se ornamentado de modo esmerado e solene. Desciam damascos e veludos vermelhos pelas colunas, em cujas bases se depunham palmas e ramos de oliveira.

De Faro e de Tavira vinham propositadamente os «armadores» para «armar» os altares e os retábulos com panos brancos, vermelhos e azuis. A imagem do Senhor Ressuscitado era exposta no altar-mor, debaixo de um dossel, e resplandecia sob as luzes. Após as «laudes» (oração da manhã), saía a procissão enquanto os sinos repicavam festivamente, sem parar. Todo o clero participava na celebração e os cantores do coro, incorporados no cortejo entoavam a «Antífona» de Ressurreição; «O Senhor Ressuscitou no Sepulcro, aleluia, aleluia, aleluia!». E o povo, em uníssono, respondia: «Que por nós esteve suspenso na Cruz, aleluia, aleluia, aleluia!». E tornavam os cantores: «O Senhor ressuscitou como disse, aleluia, aleluia, aleluia!». E o povo voltava a responder: «E apareceu a Simão, aleluia, aleluia, aleluia!»

Por essa época eram as confrarias que abriam a procissão, envergando as suas opas e «tochas floridas» (algumas com o peso aproximado de seis quilos). Seguiam-se os turiferários, a oscilar nas mãos os turíbulos, onde ardia o incenso que perfumava as ruas, e os acólitos, com salvas de prata cheias de pétalas de flores que espalhavam ao longo do percurso..

Actualmente, tudo se simplificou. Só a fé e a tradição popular se mantêm com a mesma verdade, feita de alegria e de fraternal convívio.

Quando o cortejo regressa à igreja, onde se procede à celebração da missa, parte dos homens (respeitada a praxe de outrora) retira as flores das «tochas» para espalhá-las no chão num preito de homenagem ao Senhor Ressuscitado, permitindo, assim, que o Seu andor passe sobre elas.

Refira-se que até 1910 todas as paróquias do Algarve organizavam a «Festa das Flores», tradição que se conservou, unicamente, em São Brás de Alportel. Contudo, ainda hoje em Olhão (e um pouco em Portimão) as crianças desfilam na Procissão da Ressurreição, levando nas mãos um círio enfeitado no topo com um laço de seda e um arranjo floral na base.

A São Brás de Alportel chegam nesta data milhares de pessoas, vindas um pouco de todo o lado, incluindo aqueles que se encontram fora da terra e que não faltam ao encontro com os seus familiares, amigos e conterrâneos, para matar saudades, levar na procissão a sua «tocha florida», ou, simplesmente, para assistir, conviver e comprar as tradicionais «amêndoas de pinhão», um dos manjares tradicionais da doçaria pascal de São Brás, confeccionadas, ainda hoje de modo artesanal.

A festa prolonga-se depois pela tarde e noite no adro da igreja com prémios atribuídos aos «Jogos Florais de Aleluia» e à «tocha florida» que, pela sua ornamentação, se revelar mais artística e dentro das praxes estabelecidas, a manter viva a ancestral tradição da Festa das Tochas em São Brás de Alportel.

Há que referir uma outra praxe bem mais recente. Trata-se do uso da «garrafinha da aguardente de medronho» (uma especialidade algarvia), levada na algibeira do fato, que os homens, ao longo do percurso, parecem fazer alarde em utilizar, discretamente ou não, bebendo-a, trago a trago, por entre as flores da «tocha».

Quanto à origem da festa estará ligada à invasão de Faro por piratas ingleses em 1596. Após saquearem algumas localidades, acabaram os piratas por ser repelidos em São Brás de Alportel, graças aos elementos da «Confraria do Nome de Jesus», munidos de varapaus (simbolicamente revistos depois nas mãos dos homens, transformados em «tochas floridas».

O prato cerimonial destes dias é o borrego assado com batatas, acompanhado com ervilhas. O tradicional folar fica para sobremesa

Em São Brás de Alportel, diz a tradição popular que «na Páscoa não deve comer-se animal de penas, porque o galo, por três vezes, denunciou a negação de Pedro».

Soledade Martinho Costa

Do livro festas e Tradições Portuguesas, Vol. III - Ed. Círculo de Leitores

Foto : pormenor da Procissão das Tochas Floridas