5.4.26

OPINIÃO: Violência no namoro: a banalização do inaceitável


Há realidades que não admitem indiferença. O facto de uma percentagem significativa de jovens - sobretudo raparigas - relativizar ou até justificar comportamentos violentos nas relações de namoro não é apenas alarmante: revela uma transformação profunda na forma como a violência é percecionada. Não estamos perante casos isolados, mas diante de um problema estrutural que expõe fragilidades na educação, na cultura e na construção das relações.

Os dados mais recentes mostram um cenário inquietante. Muitas jovens continuam a interiorizar a culpa por atos que constituem claras violações da sua intimidade e dignidade. A partilha não consentida de imagens íntimas é disso exemplo: em vez de ser reconhecida como abuso, é frequentemente interpretada como consequência de uma decisão individual. Esta inversão de responsabilidade evidencia que o problema não está apenas nos comportamentos, mas na forma como são compreendidos e legitimados.

A normalização da violência constrói-se de forma silenciosa, em vários contextos: em dinâmicas familiares fragilizadas, em padrões culturais ainda marcados por desigualdades, em conteúdos mediáticos que romantizam o controlo e, de forma particularmente relevante, na ausência de uma educação afetiva e sexual consistente. Quando o controlo, o ciúme ou a manipulação são confundidos com amor e/ou cuidado, estamos perante uma distorção perigosa do significado de uma relação saudável.

O problema não é apenas a existência da violência, mas a sua aceitação. Quando deixa de ser reconhecida como tal, deixa também de ser combatida.

É neste contexto que surge o projeto-piloto europeu dedicado à promoção do consentimento - "Vamos falar sobre consentimento - Rede Europeia do Consentimento" - uma iniciativa relevante e necessária, que representa um passo importante no reconhecimento deste problema. O facto de arrancar em países como Portugal, Irlanda e Suécia demonstra a intenção de testar soluções em diferentes realidades e de caminhar para uma abordagem europeia mais consistente.

Assente em três pilares - a utilização da arte como forma de sensibilização, o diálogo e ação local em escolas e comunidades, e a intervenção estratégica nas redes sociais -, o projeto revela uma preocupação fundamental: comunicar eficazmente com os jovens, utilizando os códigos e os espaços onde estes constroem hoje as suas referências.

Importa reconhecer o mérito desta abordagem. Num contexto em que as redes sociais desempenham um papel central na formação de atitudes e comportamentos, procurar intervir nesses mesmos espaços é não apenas pertinente, mas indispensável. Este tipo de iniciativas constitui um contributo valioso para contrariar tendências preocupantes e promover uma cultura de respeito.

Contudo, a sua eficácia dependerá sempre de uma transformação mais ampla. Falar de consentimento implica educar para a liberdade, para os limites e para a responsabilidade. Implica afirmar, de forma clara, que o "não" não é negociável, que o silêncio não é consentimento e que o amor não se confunde com controlo ou posse.

Nenhuma política pública será suficiente sem um compromisso coletivo. A escola tem um papel essencial, mas não exclusivo. As famílias, os meios de comunicação social, as plataformas digitais e a sociedade em geral são igualmente responsáveis pela construção de referências saudáveis.

Também do ponto de vista jurídico, importa não desvalorizar esta realidade. A violência no namoro não é um fenómeno menor. Trata-se de uma forma de violência que pode e deve ser enquadrada no âmbito da violência doméstica, sob pena de se perpetuarem, quer a não denúncia destes fenómenos, quer a sua impunidade.

Mas talvez o aspeto mais inquietante seja este: quando a violência deixa de ser reconhecida, deixa de ser contestada. E uma sociedade que não identifica a violência está mais próxima de a aceitar. Perante isto, a questão é inevitável: que referências estamos a transmitir? Normalizar é, em última análise, tolerar. E tolerar a violência - ainda que nas suas formas mais subtis - é comprometer o futuro coletivo.

Educar para o consentimento é essencial. Mas é igualmente necessário educar para a igualdade, para o respeito e para a dignidade. E isso exige mais do que medidas pontuais - exige um compromisso sério e continuado.

·         Mariana Roque Caetano – Jornal de Notícias - 2 de abril, 2026