25.8.16

NISA: 40 Anos de Poder Local Democrático (1) - Curiosidades




Autto de arrematação dehuma sorte de terra da tapada de D. catharina Mouzinho a Lage do Curral pertecente a capella de Santa Anna arrematado a Joaquim Aniceto por 2:050 reis.
Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo demil oitocentos quarenta equatro, aos quinze dias do mez de Setembro do dito anno nesta Notável Villa de Niza e Secretaria da Administração do Concelho da mesma aonde se achava prezente o actual Administrador do Concelho Joze Manoel de Sampaio e Eça, mando o mesmo meter apregão em hasta publica de arrendamento por tempo de hum anno de que se hade pagar a sua renda pelo São Miguel de mil oitocentos quarenta e cinco huma sorte de terra dentro da tapada de D. Catharina Mouzinho a Lage do Curral pertencente a Capella de Santa Anna, e andando a mesma em praça teve varios lanços e o ultimo foi o de dous mil e cincoenta reis que lhe poz Francisco Rodrigues Carollo e deu o dito arrematante por seu fiador a Januário Farto e pelo arrematante não saber escrever forão testemunhas prezentes Joaquim Mendes digo Joaquim Gonçalves Prestello, e por João Rodrigues digo João Semedo Rovisco, que todos assignarão, de que para constar se fez este auto que todos assignarão e Eu.
*****
Em 1976, há 40 anos, realizaram-se as primeiras eleições para os órgãos das Autarquias Locais. Lembrando esta efeméride iremos divulgar algumas curiosidades acerca do nosso Poder Local, o mais recente (da República) e o mais antigo de simbologia monárquica.
1) O primeiro documento é do século XIX e "retrata" uma realidade social que se manteve até à primeira vintena do século XX: os filhos fora do casamento, designados por "enjeitados" e que geraram um outro fenómeno histórico, a Roda dos Expostos.
O Livro de Assentamentos foi uma (pequena) tentativa para controlar este autêntico flagelo social gerado pelo analfabetismo, o atraso e pela pobreza.
2) O segundo documento, já do século XX e da década de 30, porventura a mais repressiva do Estado Novo fascista, é uma Declaração ou Atestado de Bom Comportamento, documento indispensável, na altura, para um sem número de situações, desde a procura de emprego na função pública ou a obtenção de qualquer licença.
A administração local, no caso a Junta de Freguesia, arvorava-se, a mando da Administração Central, em polícia dos costumes e de juiz da sanidade mental e moral de um qualquer cidadão, que não era considerado como tal.
3) Terceiro documento, trata de um auto de arrematação, organizado pelo Administrador do Concelho, de uma sorte de terra, pertencente à Capella de Santa Anna, edifício que existia próximo do local onde está hoje o Cine Teatro e onde, até final do século XIX esteve instalado o cemitério. O templo religioso viria a ser demolido no início do século XX, depois de anos de ruína e de alguma polémica, registada em diversa documentação, sobre quem seriam os responsáveis a suportar os custos de tal demolição: a Câmara ou a Igreja.

24.8.16

ALENTEJO: A Cal é a Cultura a recuperar




Exposição "40 anos da Constituição, 40 anos do Poder Local Democrático" na ARPI de Montemor-o-Novo

Em maio de 2016 foi inaugurada a exposição 40 anos da Constituição, 40 anos do Poder Local Democrático, no Átrio dos Paços do Concelho de Montemor-o-Novo. Após passar por algumas festas populares do nosso concelho, esta mostra estará patente na sede da ARPI de Montemor-o-Novo de 19 a 28 de agosto, com a inauguração marcada para as 17h00, estando prevista a atuação do Grupo de Cantares da ARPI. De seguida, será exposta na Feira da Luz/Expomor 2016, na Sede do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo e na EB 2, 3 S. João de Deus. A itinerância prosseguirá até final do ano em algumas freguesias do Concelho.

A Câmara Municipal assinala deste modo os 40 anos da promulgação da Constituição da Republica Portuguesa e das primeiras eleições do Poder Local Democrático. O texto constitucional de 1976 inaugurou o estado democrático e só com os princípios enunciados na Constituição de 1976, aprovada pela Assembleia Constituinte como lei fundamental da República a 2 de abril, foi possível desenvolver a ação democrática que permitiu elevar a qualidade de vida dos montemorenses. Nesta Exposição é apresentado o fundamental da ação das autarquias, Câmara e Freguesias, em estreita e permanente relação com as massas associativas do Concelho, num reconhecimento e afirmação da importância dos Princípios Constitucionais para o exercício do Poder Local democrático, aliado ao Associativismo, vertentes inseparáveis da história e do desenvolvimento político, económico, social e cultural de Montemor-o-Novo.          

CASTELO DE VIDE: Exposição de Julio Cantero na Igreja de S. João


COMENDA: Festa em honra da Senhora das Necessidades


IMPRENSA REGIONAL: "Alto Alentejo" - edição de 24/8/2016


23.8.16

OPINIÃO: A despedida (excerto de crónica inédita)

 Era quase meia-noite e o meu pai deslumbrava-se com o ardor dessa gente nova, de sangue na guelra, que tinha sentado à sua volta, num entusiasmo patriótico de ímpetos ancestrais. Quando o ponteiro do relógio da sala contígua se aproximou das 0 horas, alguém se lembrou:
- E se fôssemos saudar o novo ano de 1962 com uns tiros para o ar, ali no quintal?
- Nem é tarde nem é cedo... – gritaram dois.
- É preciso cuidado, vejam lá oque arranjam... – ponderou o meu pai. O tenente da Guarda anda por aí...! Mas dêem fogo! Ali está a FN de cinco tiros.
Levantei-me, num ápice, e agarrei a minha velha arma com redobrado carinho de caçador. Retirei da cartucheira as cinco “bombas” de fulminantes cobertos e enchi a câmara e o tambor. E quando as doze badaladas começavam a ouvir-se no relógio da torre da vila, o trabuco despejou pausadamente as nossas salvas para o ar calmo dessa noite de memória eterna. A essa hora, sem sabermos de nada, absolutamente nada, o pronunciamento de Beja começava e o Monstro Colonial aproximava-se já de nós, a passos largos, vomitando fogo e transpirando sangue.
Ah!, o Monstro que viria, de rosto pintado de vermelho e negro, quando rufaram tambors ao longe e as botas de tacões largos bateram  nos lagedos das praças dormentes de sol, onde lagartos dormiam à sombra milenária e cómoda de hinos e heróis acumulados. A Pátria é “una e indivisível”! O “esforço estóico” está aí, outra vez! E quem vai, quem vai? Vão os mancebos! Quem há-de ir? ( E há que ir?!... Aos milhares?) Os mancebos! Os velhos mandarão e os mancebos vão!
Os “velhos” só já têm tempo para mandar e aos mancebos sobra-lhes tempo para tudo, ainda que seja para morrer já. Resta a aura, a glória! E, além disso, fica-se sempre novo, mesmo depois da morte, quando se é jovem. Que o digam certas velhas fotografias...
- Eu já morri uma vez, Pedro! – dizia-me o Alberto Diniz
- Tu sabes. A Mena morreu naquele hediondo desastre de viação, ela e os pais, e eu também morri nessa hora. Foi a minha primeira morte. Insuportável. Irreparável. Bem um final de vida e, mais do que isso, de sonho. “Pelo sonho é que vamos...” como dizia o Sebastião da Gama, o nosso poeta da pureza, mas eu não fui... fiquei, para sempre, ali, presa naquela curva maldita onde o “Mercedes” novo era um destroço de aço e sangue.

- Mas nego-me, nego-me a morrer em Angola ou a 10 mil quilómetros daqui... Eu não vou! Tu vais, mas eu não vou! Quero conhecer gente, quero conhecer os homens, conhecer mulheres, eu ainda não conheço nada e já me querem tirar o Mundo? Já morri uma vez e ainda não vivi. Agora quero viver e não morrer mais..., ao menos não morrer, definitivamente.
Não morrer “definitivamente”, dizia o Alberto Diniz em Abril de 1962, um outro Abril longínquo, em Nisa, a meio da longa recta de Palhais, inundada de luar e cheiros de boninas, àquela hora da madrugada em que nem sequer os galos cantaram, fazendo coro nessa despedida rápida, com o carro do Passador ao fundo, silencioso, escondido numa das gares laterais à estrada, quase à vista da famigerada curva do Padreca.
Tinha chovido há pouco e a faixa do asfalto brilhava como largo rastro metálico, de prateado astral. Era como que o caminho para uma outra galáxia, uma via sem fim, não sinuosa, que se perdia no escuro dos longes que rumavam para lá da mancha negro-cinza, fantástica e colossal da serra de S. Miguel.
Essa nossa serra, tão familiar, mas enigmática e com alma. Tinha-o “desvendado” o Alberto num dia de calor, em Junho, em que observávamos a montanha redonda e principal, o cabeço, do alto da colina da Virgem da Graça.
Silêncio e calor. A leve brisa castanho-esverdeado, postado naquela derradeira quietude estranha que toca em misticismo bíblico quem a contempla em recolhimento.
- Estás a ver? – sussurrava o Alberto. Este silêncio e aquela montanha! Que ternura! Descobri! Eu “descobri”, Pedro!. Sabes porque é que o Dionísio Baco aqui parou e ficou, esse tal lendário e primeiro conquistador das Espanhas, de que fala Motta e Moura? Também condutor de homens a caminho de um paraíso imaginário, ele sentiu aqui o seu Sinal, sim, como Moisés... Esta foi, com toda a certeza, a sua montanha adorada. E Nísio, muito mais tarde Nisa, o rasto humano que ficou dessa maravilhosa e profunda contemplação.
O motor do velho Chevrolet de praça começou a ronronar. Passavam nuvens que  que taparam a lua cheia, por momentos.
Íamos só os três, caminhávamos em silêncio pesado, eu, o Alberto e a Mãe. De repente, ele parou e disse:
- Não, minha Mãe, não caminhe mais. A caminhada, daqui para a frente, é só minha, tem que ser só minha.
Parámos, atónitos e vazios, e ele seguiu em frente, sozinho. A Mãe esboçou um grito rouco, de joelhos no chão:
- Meu querido filho! Que Nosso Senhor te acompanhe!
Ele parou ainda uma vez, além, a meio da faixa de prateado astral e olhou bem para nós. Depois voltou-se e correu, como um louco, até desaparecer por completo na lomba do Barracão.
Carlos Franco Figueiredo

(Dedico aos meus queridos Companheiros de Juventude: Manuel Francisco Semedo, João Pereira Peleja, Emílio Figueiredo, Fernado da Mata Veiga, João Zacarias Curado, Manuel Filipe, Emílio Ferreira, Victor Bonito, Jorge Cruz Miguel e António Neves Isabel).

CANTINHO do EMIGRANTE: Eu, aqui, tão longe!...

E' triste emigrar, mas mais triste é sentirmo-nos portugueses de "segunda classe", na terra que nos viu nascer. Sim! Digo isto, porque nos cá longe vamos perdendo os hábitos e os nossos costumes, até mesmo a expressão da nossa língua, porque o nosso português é muito mal falado, não só porque a erosão do tempo nos foi apagando as boas recordações, muito embora, nos desloquemos todos os anos, ao nosso lindo país, a terra dos 3 éfes: Fátima, Futebol e Fados, como aqui é conhecido Portugal...
Os emigrantes actuais, não são nada menos corajosos do que os das décadas de 60/70, muito embora as dificuldades de integração na sociedade sejam as mesmas, mas temos que reconhecer, que os primitivos abriram o caminho, fazendo a viagem em condições muito penosas, ao contrário de hoje.
Como a saudade me faz falar, digo que 42 anos de emigrado não são 42 dias, por isso muita coisa aconteceu. O nascimento dos meus filhos e dos meus netos, fizeram com que eu ficasse “cortado” ao meio, entre a França e Portugal, pois não os quero abandonar, apostando em ficar por cá, muito embora a todos os momentos sinta o meu coração palpitar, quando se fala de Portugal, e este ano ainda mais, porque por motivos de doença grave, talvez não possa ir matar saudades à minha querida terra, desfrutar um pouco da minha casa que tenho em Nisa, ver a família e os amigos...

 "O sentir", é qualquer coisa que nos atrai, como se fosse o aproximar do negativo à realidade, mas quando lá vou, fico com o coração despedaçado, de não ver em lado nenhum, uma recompensa em "Honra dos Emigrantes", isto é, num lado qualquer da vila, um sinal alusivo à memoria de todos os emigrantes, pois quase todas as vilas e aldeias já o fizeram. Que me desculpem se repito muita vez os mesmos argumentos, mas nunca é de mais falar num assunto que julgo de interesse de todos os nisenses.
Por isso, uma vez mais, venho lembrar à nossa autarquia, em especial à senhora presidente, Dra. Idalina Trindade, que tem uma dívida para com os emigrantes, estes que labutam cá longe e que ao longo de décadas têm contribuído para a divulgação e o desenvolvimento da sua terra e país.
Em face do exposto, deixo aqui três sugestões ao Município de Nisa, para que ao menos, possam concretizar uma:
1 - Homenagem ao Emigrante (Monumento).
2 – Atribuição de nome a uma rua da vila (Rua do Emigrante).
3 - Afixar uma lápide (Memória dos Emigrantes).
Este reconhecimento, merecido, contribuiria para devolver a dignidade perdida de todos aqueles que cá longe, ajudam ou ajudaram a dignificar o nome de Portugal!
Lembro que, juntamente com outros nisenses contribuí para que o sonho da geminação entre Nisa e Azay le Rideau se tornasse realidade, pois esta vila foi como nossa mãe, que nos soube acolher de braços abertos, onde muitos nisenses se instalaram e trabalharam, colaborando na vida activa da região.
Só lamento o facto de “estar cá tão longe", mas não estou arrependido, porque consegui o que talvez não conseguisse em Portugal, desfrutando da minha reforma e da minha casa, junto da minha esposa, filhos e netos, embora o estado de saúde actual, não seja favorável, mas com a fé que eu tenho em Deus tudo se ultrapassará.
Despeço-me com um forte abraço para todos vós, até à próxima!
António Conicha in "Alto Alentejo" - 18/5/2016

Ecolojovem realiza Acampamento em Castelo Branco

Iniciativa decorre de 25 a 28 de Agosto
Este ano o Acampamento da Ecolojovem – Os Verdes, juventude do Partido Ecologista Os Verdes, será em Castelo Branco, de 25 a 28 de Agosto, sob o lema do 40º aniversário da Constituição da República Portuguesa.
A Constituição da República Portuguesa de 1976 é um marco fundamental na história do nosso país. Representa a consagração de direitos e leis fundamentais conquistados com a Revolução de Abril.
Para nós jovens, representa a consagração do direito à educação de qualidade de forma gratuita, inexistente no período pré 25 de Abril. Representa o fim da discriminação com base em rendimentos, em crenças religiosas ou convicções políticas. Representa a consagração do direito à cultura e pelo fim da sua elitização: artes plásticas, música, cinema, teatro.
É a lei que permite que possamos associar-nos em organizações, associações, partidos políticos e grupos informais, algo que durante o regime salazarista era proibido.
Para nós Ecologistas, representa o dia em que o Ambiente passa realmente a estar consagrado em lei, o direito à sua usufruição, o dever de o proteger e o direito a ter uma qualidade de vida num ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado.
Assim, se divulga o programa do Acampamento que contará com iniciativas em torno da Central Nuclear de Almaraz, da poluição do Rio Tejo e claro, sobre a Constituição da República Portuguesa e os seus 40 anos.
PROGRAMA

Quinta-feira, dia 25 de Agosto
17h – Reunião Câmara Municipal de Castelo Branco
20h – Jantar com Produtos Regionais
22h – Pintura de Faixa
Sexta-feira, dia 26 de Agosto
10h – Iniciativa pelo Encerramento da Central Nuclear de Almaraz
14h – Almoço
16h – Tarde livre/Visita à Praia Fluvial do Sesmo
20h – Jantar
22h – Preparação do Workshop de Observação de Aves
Sábado, dia 27 de Agosto
10h – Workshop de Observação de Aves (BAFARI – Carlos Almeida)
13h – Almoço
14h – Iniciativa em Defesa do Tejo
18h – Conversa Ecologista com o tema “40 Anos da Constituição da República Portuguesa”
20h – Jantar
22h – Noite Convívio
Domingo, 28 de Agosto
10h – Reunião da Ecolojovem
12h – Encerramento do Acampamento
Para mais informações sobre esta iniciativa, os senhores e senhoras jornalistas poderão contactar  através dos números 964 574 167 (Ema Gomes) e 918 304 764 (Beatriz Goulart).


22.8.16

MARVÃO: Partido Socialista solicita apresentação de projecto para a Fronteira

O Município de Marvão vai levar a cabo no próximo dia 31 de Agosto uma sessão de hasta pública para alienação de 15 habitações no Aldeamento de Porto Roque, na Fronteira de Marvão. Este processo que já foi suspenso no mês de Junho foi agora retomado pela Câmara Municipal que apenas contou com os votos favoráveis do PSD. Esta hasta pública acontece depois do Município ter já alienado 6 habitações por ajuste directo.
 O Partido Socialista já apresentou uma moção em favor da defesa do interesse municipal e da valorização daquele importante espaço, não se contentando com a apresentação das propostas dos órgãos municipais, que não têm qualquer coerência ou perspectiva. Neste sentido, os responsáveis do PS Marvão têm insistido na ideia da necessidade de um Projecto estruturante para aquela zona de forma a sustentar e garantir a ideia de futuro para todo o edificado que se encontra em ruínas. Para a preparação de uma proposta com consistência, os responsáveis do PS trabalharam de forma a não provocar discussões estéreis, com fogachos e beberetes, trazendo convidados a sessões maçadoras onde no fim ninguém tira grandes conclusões.
Foram por isso contactados especialistas nas áreas do urbanismo, do turismo, da saúde e da economia social. Todas as opiniões têm sido unânimes na importância de salvaguardar e valorizar aquele espaço, nas oportunidades que ele oferece e, portanto a necessidade de um projecto global para todo o conjunto arquitectónico. A própria Câmara já assumiu esta posição, na medida que aprovou a classificação do conjunto de interesse municipal, com todas as consequências que daí advêm.
A venda das habitações nunca esteve em causa, segundo o Partido Socialista que tem defendido a primazia da habitação própria e a primeira habitação, de forma a fixar população naquele local, bem como travar quaisquer tentativas de especulação que possa haver em relação àquelas habitações será uma garantia para o sucesso de uma operação desta envergadura. Este desígnio tem o apoio da população e dos actuais moradores que não querem ver aquele espaço transformado num bairro de segundas habitações e de férias.
Este processo deveria, em condições normais, ser uma das componentes da operação, a decorrer em paralelo, com a concretização de outros projectos. Isto caso houvesse alguma ideia para o espaço. Neste momento o único processo a ser tratado é alienação no mercado de habitações sem quaisquer condições de habitabilidade porque o que se sabe e o que se pensa resume-se a um conjunto de devaneios imobiliários. O PS entende que dado o potencial que este espaço pode ter para a Economia local e para sectores como a construção civil, deveria haver um projecto gerador de mais-valias.

O Partido Socialista que se tem batido pela defesa da valorização do espaço e do interesse municipal, vem solicitar que o executivo Municipal apresente ate dia 31 de Agosto (data da hasta pública), até de forma especial aos possíveis compradores, uma ideia central para aquele bairro que não se fique pela venda de habitações sem condições de habitabilidade. O Partido Socialista está também disponível para ceder ao Executivo o resultado dos contactos que teve com especialistas sobre aquele espaço.
O Secretariado da Concelhia do PS Marvão

OPINIÃO: Uma criança fuligem

Façamos uma pausa. Nas notícias de uma máquina fiscal que cobra primeiro, pergunta depois. Não, não pergunta. É mentira. Nem responde. Cobra juros das repostas sem perguntas. Que procura taludes e casebres e mulheres a lavar no rio e roupa a secar nas varandas e janelas ao sol e casas com estação de metro e com paragens de autocarro. É um país que cobra e que semeia o medo. É guardar tudo e durante anos. Recibos, provas de pagamento, correspondência trocada. A máquina é devoradora e espera, à espreita, por um deslize. Ricos, remediados e pobres. Vale tudo para cobrar. Peçam recibos da esmola na igreja. Da bula ao padre.
Façamos uma pausa. Nas notícias dos incêndios, verão após verão, das desgraças dos pastores, das famílias sem casas, queimadas pelo fogo, das mortes, das queixas dos bombeiros, dos mesquinhos que tapam os poços, os tanques e as piscinas para impedirem o abastecimento de água. Façamos uma pausa porque precisaremos de uma pausa para absorver tudo o que se promete fazer para que, desta vez sim, se limpem as matas, se multem os proprietários, se criem corta-fogos, se trate da floresta, se reforce o combate, se envolva a Força Aérea.
Façamos uma pausa. Nas notícias dos milhares de milhões que já pagamos para salvar bancos falidos. No desastre que tem sido a gestão da Caixa Geral de Depósitos, no passado, no presente e que não se esperava no futuro, mas que agora pouco sabemos. Sabemos que precisa de dinheiro, pelos desastres do passado e do presente. E que a primeira pausa deste texto lá tratará de ajudar a conseguir.
Façamos até uma pausa dos banhos de sol, dos risos das crianças na praia, das bolas de Berlim, dos vinhos cheirados com tempo, das pernas morenas postadas nas redes sociais, só da parte da frente, para esconder do público curioso as misérias do inverno escondido, da crença de que as pausas todas anteriores serão sempre passageiras porque vivemos num país que tudo remedeia e tudo resolve.
Alepo, 2002. Eu, que sou mau com nomes, era capaz de os citar de cor. Se calhar mal escritos. Há crianças que correm pelo mercado centenário, enquanto os bezerros são sacrificados nas portas velhas. Há famílias no castelo, vêm do interior, de Kodak anos 70 em riste a pedir fotos com os turistas. Eles, os turistas, são raros por ali. Elas, as famílias, são muitas e riem de felicidade.
Alepo, 2016. Omran, 5 anos, quase jaz numa cadeira de ambulância (ainda as há?). É fuligem e ausência. Vale a pena viver ali?
Façamos uma pausa. Postem. Não haverá próxima foto. Estará morto. Publiquem e republiquem. Ou olhem só. Mesmo que seja apenas para aliviar a consciência. Os sírios já foram um dos povos mais bonitos de alma do Mundo.
Domingos de Andrade in "Jornal de Notícias" - 21/8/2016

PORTALEGRE: 6º Festival One Man Band no CAE

16 e 17 SET. SEX. e SÁB 22H
6º Festival One Man Band
Blues / Rock | CC | 3€ | M/12 anos
10 anos de CAE Portalegre
A 6ª edição do Festival One Man Band irá mais uma vez realizar-se no CAEP, no espaço do café-concerto.
Este ano, depois das colaborações com Beja, Faro e Abrantes, é a vez da cidade “irmã” da Ponte de Sôr receber também músicos vindos da Suécia, Alemanha, Chile e Itália, além de dois músicos do nosso país.
Além dos regressos dos portugueses Little Orange e Nick Nicotine ao One Man Band, este ano os convidados do resto do mundo trarão a sua mescla de instrumentos e de perícia musical, viajando pelo blues, country, garage, folk e, claro, o puro rock’n’roll.
16 de Setembro (sexta)
BROR GUNNAR JANSSEN (Suécia/Blues, Country, Garage, Folk)
Se o blues de Bror Gunnar Jansson é áspero e primitivo, ele também sabe como ser mais suave e inebriante, com belas baladas que por vezes fazem lembrar Tom Waits.
A música de Bror Gunnar Jansson é cinematográfica, uma viagem intensa que não deixa ninguém indiferente. Encantador e com uma presença em palco irresistível, o multi-instrumentista sueco toca guitarra, banjo, bateria, teclado e saxofone, mas em palco apresenta-se com a sua guitarra e bateria.
SPOOKYMAN (Itália / Country Blues, Soul, Rock'n’Roll)
Spookyman é o projeto de Giulio Allegretti, músico italiano nascido em Roma, no ano de 1986.
Depois de ter feito um percurso que o levou a tocar em diversas bandas, foi aos 23 anos de idade que se decidiu a dar início ao seu projecto one man band. Ao vivo, apresenta-se com voz, guitarra, banjo, harpa, kazoo, stomp-box, etc.
NICK NICOTINE (Portugal / Rock’n’Roll)
Podia ser um homem dos sete instrumentos, mas rejeita o cliché. Nick Nicotine é um nome associado a múltiplas bandas, múltiplos sons, múltiplos trabalhos. Sozinho, em formato one-man band, Nick Nicotine toca guitarra, bateria, teclas, canta e ainda tem tempo para bater palminhas, o que certamente acontecerá neste regresso à Quina.
17 de Setembro (sábado)
BANG BANG BAND GIRL (Chile / Rock’n’Roll)
Bang Bang Band Girl-One Lady Band começou em 2011 em Valparaíso, no Chile. Uma amante de rock & rol, na sua essência mais verdadeira e mais crua influenciada pelo rockabilly, surf, garage, trash blues, ao vivo canta, toca uma guitarra vintage japonesa Teisco e bombo.
THE DAD HORSE EXPERIENCE (Alemanha/Keller-Gospel, European Underground with American Roots)
Foi aos 40 anos de idade que este alemão começou a fazer música, com um banjo tenor que lhe foi oferecido. Influenciado pela música de estilo “Appalachian” e pelos abismos da sua alma, criou uma mistura genuína de country gospel, singer songwriter, punk rock e “oompah-pah polka”, que foi catalogada de "Keller-Gospel."
Usando o nome de The Dad Horse Experience desde 2008, tem viajado pelo mundo cantando as suas canções misteriosas e sobrenaturais, com banjo, bandolim, pedal de baixo e kazoo.
LITTLE ORANGE (Portugal / Blues)
Alter-ego “esquizofrénico” de Sérgio Laranjo, Little Orange é o verdadeiro bluesman, que penteia o braço da sua guitarra com slide, permitindo respirar um pouco de missa numa qualquer igreja, junto ao capim do Mississippi. Experimentalismo do verdadeiro blues, com distorção e batida de Stomp-box, o regresso à Quina faz-se certamente numa noite estrelada!
Morada: Praça da Republica nº 39, 7300-109 Portalegre - Tel: 245 307 498

Festival das Sopas de Peixe traz Tiago Bettencourt a Ródão

Nos dias 24 e 25 de setembro, a autarquia de Vila Velha de Ródão, promove, no campo de feiras, o IV Festival das Sopas de Peixe.
O campo de feiras de Vila Velha de Ródão, e a sua zona envolvente, é dominado pelo Monumento Natural das Portas de Ródão e pela deslumbrante paisagem considerada Maravilha Natural de Portugal e vai centralizar a maior parte do programa desta edição do Festival das Sopas de Peixe. Neste local vai estar em permanência a restauração aderente cuja ementa tem em destaque as Sopas de Peixe contemplando também outros pratos típicos da região.
A receita das Sopas de Peixe de Ródão, um ícone de Ródão, conjugada com todos os recursos naturais que este território detém, abrange os valores de promoção do concelho que aposta nas tradições, no seu património e nas suas gentes.
A organização preparou um programa de animação bastante diversificado para miúdos e graúdos, com animações musicais e infantis e uma restauração de excelência.
Destaca-se o espetáculo de Tiago Bettencourt, no sábado, 24 de setembro, às 22h30 com Entrada Livre. Estão contempladas no programa visitas guiadas, em transporte gratuito disponibilizado pelo município, a vários pontos de interesse do concelho; o mercadinho do pão, animação de rua e passeios de barco; atividades que vão decorrer em permanência durante os dias do Festival.
O Festival das Sopas de Peixe é um emblema de qualidade da região e tem vindo a ganhar expressão desde a sua 1ªedição. Trata-se de um certame com uma forte vertente turística e promocional, pautado pela dinâmica dos espaços a visitar pelo concelho e serviços turísticos acoplados, aliados à boa gastronomia.

2ª Fase de candidaturas no Instituto Politécnico de Portalegre até sexta-feira



21.8.16

HUMOR EM TEMPO DE CÓLERA

A culpa é dos pais
Cartoon de Henrique Monteiro in http://henricartoon.blogs.sapo.pt

SAÚDE: Doentes com síndrome de dor regional complexa menosprezados em Portugal

A síndrome de dor regional complexa é uma condição dolorosa constante e incapacitante, que afeta as extremidades dos membros superiores e inferiores, e que está associada a uma elevada taxa de abandono laboral e isolamento social. Os médicos consideram que a doença é subdiagnosticada e subtratada em Portugal e os doentes menosprezados.
“Na maioria das vezes não são identificados quaisquer sinais indicativos da doença e os exames realizados também não detetam o problema. No entanto, esta é uma das piores dores que se pode sentir e, devido ao seu caráter permanente, acaba por fazer com que as pessoas abandonem o local de trabalho e comecem a isolar-se até das pessoas mais próximas”, explica Luís Frederico Braga, ortopedista do Hospital Lusíadas Lisboa.
E acrescenta: “a sociedade não reconhece nem compreende uma dor que não está «à vista», mais facilmente se pensa que pessoa está com problemas psicológicos ou a mentir”. 
 “Ainda não há muitos dados em Portugal sobre esta síndrome mas, garantidamente, há muitos portugueses que sofrem da doença e não têm conhecimento devido ao seu difícil diagnóstico, um problema que dificulta o tratamento correto e atempado”, revela.
 “Em alguns casos, a doença manifesta-se através de um inchaço e vermelhidão na zona dorida que provoca uma sensação de ardor, tal como acontece com uma queimadura. A ocorrência desta doença também pode estar relacionada com uma fratura que ocorreu anteriormente ou ser causada por um traumatismo local, mesmo sem haver fratura”, conclui.
 O tratamento da doença tem como objetivo aliviar a dor e permitir que o doente movimente as extremidades, uma vez que a tendência é a pessoa ficar imobilizada para atenuar a dor, uma condição que pode piorar a atrofia muscular e dificultar o tratamento.
 A síndrome de dor regional complexa é uma doença rara que se carateriza por dor neuropática, uma sensação dolorosa que está associada a doenças que afetam os nervos periféricos, medula espinhal ou cérebro. É uma doença subdiagnosticada e, por esse motivo, não é conhecida a sua prevalência junto da população portuguesa. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado num alto índice de suspeita.

ORIENTAÇÃO: Portugal "O" Meeting 2017 no Alto Alentejo

 No próximo ano, o POM - Portugal “O” Meeting 2017 regressa ao Alto Alentejo onde se funde com o evento emblemático do Alto Alentejo, o Norte Alentejano “O” Meeting, que desaparece assim do calendário.
Pela terceira vez no seu historial, o Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos organiza este evento de 25 a 28 de Fevereiro em três concelhos vizinhos que considera “com excelentes condições para o Turismo e para o Desporto na Natureza (Portalegre, Alter do Chão e Crato) que dão as mãos e unem esforços para realizar um evento inesquecível”.
O Portugal “O” Meeting é um evento de Orientação pedestre, candidato a integrar o ranking mundial da Federação Internacional de Orientação (IOF WRE) e o ranking da Taça de Portugal da Federação Portuguesa de Orientação.
O POM 2017 é “aberto a pessoas de qualquer idade, podendo participar nos escalões de competição ou nos escalões abertos, individualmente, ou em grupo”. Os organizadores não esqueceram “a componente inclusiva, organizando no dia 26 de Fevereiro uma etapa da Taça de Portugal de Orientação “de precisão, disciplina vocacionada para pessoas com mobilidade reduzida”.
O Portugal “O” Meeting será constituído pelos seguintes eventos: provas de treino nos dias 23 e 24 de Fevereiro de 2017, Prova de distância Média – Crato (na Aldeia da Mata), no dia 25, Prova de distância Longa – Crato (na Aldeia da Mata) e Invacare PreO em Alter do Chão, no dia 26, uma Prova de distância Média – Candidata a WRE (NAOM 2017) a 27 de Fevereiro em Portalegre onde decorre no último dia outra Prova de distância Longa.

20.8.16

Bombeiros de Nisa: UM SÉCULO DE VIDA

Mais dois "Subsídios" para a sua História
Andamos por aqui, há mais de dez anos (desde 2006) a alertar para o Centenário da fundação dos Bombeiros Voluntários de Nisa, comprovando a sua existência e criação com numerosos documentos, documentos esses que, em tempo oportuno foram também entregues à direcção da Associação Humanitária para que pudesse preparar um programa comemorativo que assinalasse, condignamente, tão meritória como honrosa data, a da criação dos nossos Bombeiros e o centenário da sua existência.
Uma comemoração de uma vida, UM SÉCULO, que neste ano da graça de 2016 se completa e que, a dois meses de Outubro, parece ser uma data condenada a ser esquecida e apagada do rol do registo das vivências associativas, forma grotesca de alijar responsabilidades.
Os Bombeiros Voluntários de Nisa completam, em Outubro, 100 anos de existência.
Aos documentos já aqui, no Portal, mostrados, juntamos, hoje, mais dois: duas pequenas notícias do semanário “O Concelho de Niza”, edição de 22 de Abril de 1920.
Leiam-nas e tirem as conclusões que entenderem.

FIGURAS POPULARES DE NISA: O Ti Camilo

(...) Meus avós moravam no prédio número oito da Rua Dr. Mário Monteiro e, ali perto, a uns escassos vinte ou trinta metros, fica o Largo dos Postigos – assim chamado devido a umas portas que lá havia, no tempo das antigas muralhas.
Como todas as crianças, aquele largo fascinava-me pela sua amplitude; ali podia brincar, correr e saltar, livre e despreocupadamente.
Neste recanto da Vila, havia duas garagens, pertença do senhor Aníbal Vieira e cujo motorista, o António Tomás, abria diariamente; uma oficina de “carpinteiro de obra grossa”, de que era proprietário o Ti Quintino e um palheiro cujo dono era o Ti Camilo.
Era este um homem de idade; quando o conheci, já ele tinha bem mais de setenta anos.
Coabitava com um irmão: - O Ti Tonho.
Vivia da agricultura, tendo por isso muitos animais domésticos: - borregos, cabras e ovelhas, um cão a quem chamava “Manjerico”, uma cadela que respondia pelonome de “Ligeira”, um macho castanho e um burro preto a quem baptizara de “Jerico”.
 Vendo tantos animais – o delírio dos pimpolhos daquela idade – lá passava todo o tempo que podia e ao velhote me fui afeiçoando.
Quem não gostava nada desta “camaradagem” era os meus pais e avós, pois no regresso a casa, vinha sempre sujo, cheio de palhas e com o pequeno corpo servindo de manjar às muitas pulgas que por lá impunemente imperavam, descansadas por saberem que o Ti Camilo as não ia molestar com o DDT ou qualquer outro produto químico inventado pelo homem, para extermínio de tão incómodo quanto nojento animal.
Até a vizinhança me queria cortar aquelas horas de prazer, alegando que não era próprio para um menino como eu, “filho e neto de professores”, andar metido com um homem tão sujo como era o Ti Camilo e, também, porque ia por lá aprendendo a dizer alguns palavrões, “nomes feios”, como eles diziam.
Coitados, pensavam eles que a diferença de nascimento é barreira intransponível para o bom relacionamento entre os homens...
Estavam, como é evidente, redondamente enganados e, se alguma coisa sei no campo da etnografia, a esse homem simples devo parte dos conhecimentos, bem como a paixão que nutro pela romântica e saudável vida campesina; quanto aos “nomes feios” que me valeram algumas sovas e castigos sempre os viria a aprender, sabe Deus se noutro local e com mais graves implicações.
Só o primo Fernando e a prima Maria dos Remédios me “faziam capa”, chagando ao ponto de, antes de ir para casa, passar pela residência deles, que era ali perto, no Largo do Município, para me limparem o fato, lavarem a cara e porem álcool nas babas de pulga; podia andar por lá à vontade, vir sujo, que eles resolviam o assunto e não teria problemas ao reencontrar a família mais chegada.
Após o falecimento de meu avô, veio minha avó residir para um prédio pegado com o deles e, em todas as férias eu aqui passava uns dias completamente à vontade.
Posto isto, quem era, afinal, o Ti Camilo?
João do Rosário Camilo Sena, de seu nome completo, nascera em Nisa, ali crescera, vivera e envelhecera.
Não sabia ler nem escrever, que nos tempos da sua meninice, os pais queriam era braços para o trabalho e não mandavam os filhos “aprender as letras”.
Era magro, de pequena estatura, a cabeça semi despovoada de cãs, sem vestígios de dentes a ornamentarem-lhe os maxilares que já há muito tinham mirrado.
Só fazia a barba de oito em oito dias.
Não tinha cama, dormia na palha, em cima de umas sacas e, aparava as unhas dos quatro membros com a mesma navalha que cortava o pão e o “conduto”.
Levantava-se com o sol.
Espreguiçava-se e dava uns bocejos.
Como dormia vestido e calçado, não tinha demoras a fazer a “toilette”.
Abria a porta do palheiro, atravessava o Largos dos Postigos e ia ao “chão” – pedaço de terreno cercado de paredes, onde tinha uma cabana para o gado pernoitar.
Aí ordenhava uma cabra, para dentro da “ferrada”, quantas vezes cheia de pó, palha ou formigas, regressando depois ao palheiro.
Sem ferver o leite, adicionava-lhe um pouco de café e de açúcar, que guardava dentro de uma velha e desconjuntada “arca” e deliciava-se a saboreá-lo, juntamente com um bocado de pão com queijo, que ele próprio fabricava.
Em seguida, punha o cabresto ao Jerico e, no dorso do mesmo animal, colocava umas sacas que faziam as vezes de albarda; soltava as cabras, pedia a um vizinho ou transeunte que lhe”desse o pé” para montar o pobre jumento e lá ia para as “tapadas” e os “bacelos” guardar a sua cabrada.
Se era Verão, e porque tinha muito medo do sol, levava um grande guarda-chuva aberto, qual João Semana de trazer por casa.
Almoçava no campo, o pão com o queijo e com morcela que levava dentro do “sarrão” e só voltava a casa ao sol posto.
Nessa altura, era o encontro dos dois irmãos.
O Ti Camilo que, montado no burro voltava com as cabras e, o Ti Tonho, a pé, como nos tempos em que fora soldado da Guarda Nacional Republicana, voltava com o rebanho de ovelhas.
Quando, no firmamento, apareciam as primeiras estrelas, a anunciar aos homens que o dia cessara, lá eles se encontravam tentando “derrotar” uma grande “bacia” de barro, cheia de sopas de batata ou de feijão frade, acompanhada, à laia de sobremesa, por uma enorme “bóia de toucinho” para cada um.
Comiam ambos da mesma malga, cada um de seu lado da mesma.
E como tinham bom apetite!!!
Era um gosto vê-los saborear aqueles manjares que a nós, homens quase deformados pelo excesso de civilização, por certo causariam abundantes náuseas...
Muitas vezes montei o seu Jerico, muitos tombos dele caí e muito ouvi ralhar por me arvorar no fiel companheiro de D. Quixote de La Mancha.
Todavia, mereceu a pena; comecei a interessar-me por aquela vida simples que aqui deixo mal descrita. Aprendi a amar a natureza em toda a sua plenitude, e o que foi mais importante, aprendi a conviver com as pessoas simples e despretensiosas, que são, afinal, quase sempre as mais puras e sinceras.
Só uma vez aquele homem, que no inverno vestia safões feitos de pele por ele curtidas, calçava botas grossas e cardadas, feitas pelo Ti Passão punha pelas costas um pelico castanho e na cabeça uma carapuça preta, me conseguiu causar certa repugnância.
Como sempre, foi ordenhar a cabra vermelha que dava pelo nome de “Cardosa”, preparou o café da maneira que atrás descrevi, provou-o com uma colher que previamente limpara às calças muito surradas, deitou-o numa tijela de barro já muito desbeiçada e, por gentileza que em infeliz hora lhe ocorreu, obrigou-me a bebê-lo.
Com sacrifício aceitei e a custo engoli.
Porém, pouco depois, tive que sair do palheiro e ir vomitar à azinhaga mais próxima.
É que o “menino João”, filho e neto de professores, como dizia a vizinhança, naquele dia não conseguiu ter domínio sobre o estômago esquisito e habituado a outros acepipes, servidos em melhores condições.
Mas, é este um dos episódios que mais me apraz recordar, cada vez que falo do Ti Camilo.
Homem honesto, senhor de alguns bens de fortuna, jamais se adaptou ao progresso e às regras de higiene ditadas pelo mundo em que vivia.
Talvez cansado da vida já longa, talvez desiludido, acabou seus dias no mês de Agosto de 1969, dependurado de uma “madre” do palheiro onde sempre vivera, sonhara e se veio a suicidar.
Paz à sua Alma, Ti Camilo!
 João Ribeirinho Leal in "Motivos Alentejanos"

Poesia por Alepo - César Príncipe


19.8.16

OPINIÃO: O menino do gueto de Alepo

Olhamos para Omran e vemos toda a tragédia. O menino de cinco anos, olhar imóvel, resgatado dos escombros da sua casa em Alepo, sentado no banco cor de laranja de uma ambulância, fez mais pela denúncia das atrocidades do que todos os comunicados a veicular informação, contrainformação e propaganda. Não importa saber a identidade das bombas que caíram sobre a casa de Omran, onde provavelmente estaria a dormir. Não há inocentes nesta guerra, embora as primeiras notícias deem sinais de que o menino possa ter sido vítima de uma ofensiva governamental, apoiada pela aviação russa. A Síria está dividida entre os rebeldes e o regime de Bashar al-Assad, que governa o país há anos com mão de ferro.
Omran Daqneesh vive no bairro de Qaterji, controlado pelos rebeldes que combatem o regime de al-Assad. Uns e outros lutam deixando para trás a população civil - à beira da fome, sem hospitais, luz ou água potável. A foto de Omran, sentado na ambulância, sozinho, coberto de pó e sangue, desorientado, não precisa do enquadramento de prédios em ruínas para se transformar na imagem-símbolo da cidade-mártir de Alepo. Nessa metrópole, de acordo com a ONU, dois milhões de pessoas encontram-se em perigo, sitiadas, sem acesso a ajuda humanitária. Omran, o menino sozinho, que não grita, nem verte uma lágrima - em choque, como descreveu o médico que o tratou -, deverá ter o mérito de alertar consciências. Na guerra da Síria, repito, não há inocentes entre as partes envolvidas: alastra desde 2011, fez já mais de 290 mil mortos. Metade da população síria viu-se obrigada a fugir do país, engrossando as colunas de refugiados, em desespero, à procura de paz em algum ponto da Europa.
Precisamente no dia em que Omran foi resgatado dos escombros de sua casa, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, denunciava mais uma vez que a população da Síria vive uma catástrofe humanitária sem precedentes. Omran foi resgatado vivo. Mas todos os dias, nos últimos cinco anos, dezenas de crianças morrem, ficam estropiadas, órfãs - e delas, graças à dramática banalização da guerra, não há notícia.
Um dia, o conflito terá o seu fim, nem que seja quando já nada restar. E dos escombros surgirão os horrores da guerra. E, mais uma vez, a humanidade perguntará: como foi possível?
Paula Ferreira in “Jornal de Notícias” – 19/8/2016

João Daniel, de Fronteira, cumpre 75 dádivas de sangue





Em pleno pico estival, e de temperaturas elevadas, esteve a Associação de Dadores Benévolos de Sangue de Portalegre – ADBSP – na vila de Fronteira.
Dirigiram-se até ao Centro de Saúde local 27 voluntários, dos quais sete do sexo feminino. Por razões clínicas 05 dos presentes não puderam colaborar em pleno, pelo que foram 22 as unidades de sangue total conseguidas.
Num restaurante local foi servido o almoço convívio, que contou com o apoio da Câmara Municipal de Fronteira.
Este foi um momento emotivo, já que o dador João Ferreira Daniel, desta vila, doou sangue pela última vez. É que se aproxima mais um aniversário natalício do João, ditando o seu limite de idade como doador. Ele recorda que a primeira vez que deu sangue foi em 1972, quando cumpria o serviço militar no quartel de Elvas. E depois disso conseguiu doar um total de 75 unidades de sangue, o que acarreta um entusiasmo digno de se realçar. Esta doação, por ser a derradeira, foi única e o João teve de esperar alguns minutos para que a tensão estabilizasse. E o certo é que lá conseguiu estender o braço num gesto de pura platina!
Alpalhão a 27 de Agosto
Ainda durante o mês de Agosto a ADBSP estará em: Alpalhão (concelho de Nisa) no Grupo Ciclo Alpalhoense, no sábado 27 e na parte da manhã.
As comemorações do 26.º Aniversário da ADBSP acontecem no sábado 10 de Setembro. Do programa consta Celebração de Missa (na Capela do Hospital), Romagem ao Cemitério, Sessão Solene e Almoço Convívio (inscrições abertas).
Saiba mais sobre nós em www.facebook.com/groups/AdbsPortalegre . E por nada deste mundo deixe de doar sangue!
JR

NISA: Festas de Verão dos Bombeiros Voluntários

No ano em que se assinala o CENTENÁRIO (1916-2016) da fundação dos Bombeiros Voluntários de Nisa, a respectiva Associação Humanitária promove as Festas de Verão, na Alameda, com um programa de grande animação a ter lugar nos dias 2 e 3 de Setembro. 
De acordo com o programa das festas, os lucros desta iniciativa revertem a favor da aquisição de uma ambulância.