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2.7.26

OPINIÃO: Somos mais pobres do que julgávamos


Já não somos o país do número redondo. Os dez milhões agora são 11,4 milhões. É verdade que os que distinguem entre "portugueses de bem" e os outros poderão continuar a usar o número redondo. Mas são vozes de burro, não chegam ao céu, ou, neste caso, não chegam ao Instituto Nacional de Estatística, que se rege por critérios objetivos e não por preconceitos. Somos, portanto, uma comunidade de 11,4 milhões de residentes, sendo que 14% têm origem noutras geografias. Portugal foi sempre, ao longo dos tempos, local de partida e de chegada.

Continua a ser, mas, nos últimos anos, tem sido mais de chegada do que de partida, pelo menos em números absolutos. O que trouxe coisas boas, como revela uma outra estatística recente, do Conselho de Finanças Públicas. Ao longo de uma década (2015 a 2025), os que chegaram acrescentaram 16,3 mil milhões de euros só aos cofres da Segurança Social (já subtraídos os subsídios a que qualquer pessoa que por aqui vive também tem direito, em caso de necessidade).E acrescentaram riqueza em geral, mesmo que seja com trabalho de baixas qualificações e salários. E esse é o lado mais sombrio deste movimento de partidas e chegadas. Como explica o diretor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto, Óscar Afonso, o acréscimo populacional repentino teve um efeito paradoxal: somos mais pobres do que julgávamos ser. Se a riqueza fosse distribuída de forma equitativa (na verdade, não é, porque há quem tenha uma nota de 20 euros na carteira e outros apenas uma moeda de 20 cêntimos no bolso), o PIB per capita português, em paridade de poder de compra, seria de apenas 77% da média europeia, o sexto pior dos 27 países da União Europeia.Resumindo, no movimento de saída há demasiados jovens qualificados e, no de entrada, muita gente que, independentemente das qualificações, vem para trabalho intensivo, de fraca produtividade e salários baixos. E num país assim, o futuro não é promissor. Continuamos a precisar de imigrantes, mas precisamos também de um outro tipo de atitude cívica, como diz Óscar Afonso: "os portugueses têm de exigir mais dos governantes de cada vez que vão às urnas e no espaço público".

·         Rafael Barbosa – Jornal de Notícias - 28 de junho, 2026

24.10.22

OPINIÃO: A passividade dos cidadãos que apenas olham para o umbigo

 
No início desta semana tivemos o “Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17/outubro)”. Portugal é o oitavo país da Europa com maior risco de pobreza ou exclusão social e o 13.º mais pobre da União Europeia. Esta situação tem se agravado e não temos perspetivas de a inverter. Mais de quatro milhões de portugueses seriam pobres sem a ajuda do Estado.
Podem dizer o que quiserem, mas continuamos com políticas de empobrecimento e Portugal é o país onde a pobreza cresceu mais, em muito devido à pandemia. Agora com os efeitos da guerra, espera-se um tsunami de pobreza, quando Portugal já é o segundo país com mais pessoas a viver em más condições materiais. A solução não pode estar na “caridadezinha”.
Enquanto alguns têm reformas milionárias, cerca de “72% dos pensionistas de velhice e 87% dos pensionistas de invalidez viviam com menos de 665 euros mensais, o valor do salário mínimo em 2021”, segundo a Pordata. Depois ainda temos de assistir a manobras enganosas por parte do Governo a deixar os pensionistas ainda mais pobres, quando afinal era possível melhorar a sua situação. Ao contrário, ainda são assaltados pelo governo de António Costa.
Segundo o Observatório do Emprego Jovem, 35,5% dos jovens licenciados, auferem o salário mínimo. Este dado preocupante soma-se à precariedade, às condições difíceis em que se confrontam para organizar as suas vidas, a começar pelo acesso à habitação, onde Portugal, também está mal colocado. E depois, os opinantes do sistema, queixam-se da falta de natalidade. 
Temos um Orçamento de Estado com aprovação garantida, via opção do eleitorado que deu uma maioria absoluta ao PS. Como já se previa, quem trabalha e quem trabalhou, vai perder poder de compra, enquanto assistimos a borlas fiscais e contributivas para os grandes grupos económico-financeiros. Enganam-nos aqueles, em especial os liberais, que defendem esta fórmula para o crescimento da economia.
Bem sabemos das dificuldades do país e dos esforços que temos de fazer para remediar as políticas erradas, que sempre nos impuseram; mas não é aceitável que se distorça os números para justificar mais um roubo aos pensionistas, com aumentos abaixo da inflação. O discurso da troika continua, agora sob a batuta do PS que apostou na perda do poder de compra a favor do capitalismo.
Não passou despercebido o apoio de Marques Mendes ao governo PS, pois reconheceu as benesses em IRC às grandes empresas e este comentador do sistema que sempre defendeu, está pouco preocupado com a desvalorização de salários, enquanto a taxação dos lucros excessivos continua na gaveta onde o “socialismo” ficou engavetado há décadas.
Continua a política de cortes de salários e o engordar de mordomias e de fechar os olhos às fugas aos impostos. Acresce a incapacidade de controlar os abusos, a especulação, preços e lucros excessivos das energias, ou seja, a selvajaria do mercado. Já agora, porque se fala do mercado regulado, então, o melhor é dizer que o mercado livre é desregulado.
As pessoas assistem ao aumento dos preços dos bens alimentares e das energias; estão cada vez mais endividadas e a pagarem mais devido à subida dos juros. E enquanto as pessoas sentem mais dificuldades para comprar alimentos, as margens de lucro das maiores companhias de distribuição aumentam de forma inadmissível, fruto da especulação.
O PS bem pode argumentar que é obrigado a seguir as políticas de direita da União Europeia, mas não é sério, quando no próprio Parlamento Europeu se junta ao PSD e CDS para chumbar propostas que respondem à crise energética, que impõem condições às grandes empresas que recebam apoios públicos. Não é difícil adivinhar que se o IL e o Chega, tivessem eurodeputados, estes também alinhariam com o PS, PSD e CDS contra o interesse das populações.
Perante uma instabilidade que é mundial, os franceses já estão a agitar a sua indignação contra o aumento do custo de vida e a falta de atenção para com as alterações climáticas. Exigem o salário mínimo de 1600€, políticas efetivas de defesa do ambiente e a reposição do imposto sobre as grandes fortunas que a extrema-direita de Marine Le Pen ajudou a chumbar.Assim sendo é importante fazermos escolhas certas e optar por quem defende as pessoas e o planeta e não escolher quem comprovadamente defende os interesses do lucro e da exploração. Estamos perante uma crise mundial a vários níveis e não se avistam soluções, mas a maior crise é a passividade dos cidadãos que apenas olham para o umbigo.
Paulo Cardoso - in Programa "Desabafos"- Rádio Portalegre - 21/10/2022