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26.7.18

OPINIÃO: A alegria da pobreza

Não quero ser desmancha prazeres. Mas ver amigos que muito prezo, aos saltos, num palco, a debitarem, aos berros, uma parte desta reacionaríssima letra fez-me sentir algo estranho.
Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar
assim num primeiro andar
a contar vindo do céu
O meu quarto lembra um ninho
e o seu tecto é tão baixinho
que eu, ao ir para me deitar,
abro a porta em tom discreto,
digo sempre: «Senhor tecto,
por favor deixe-me entrar.»
Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.
De manhã salto da cama
e ao som dos pregões de Alfama
trato de me levantar,
porque o sol, meu namorado,
rompe as frestas no telhado
e a sorrir vem-me acordar.
Corro então toda ladina
na casa pequenina,
bem dizendo, eu sou cristão,
“deitar cedo e cedo erguer
dá saude e faz crescer”
diz o povo e tem razão.
Eu sei que era uma homenagem a Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, mas isso não invalida que quem canta um texto saiba o que está efetivamente a cantar. Ou será que, um destes dias, ainda poderemos voltar a ver as três principais figuras do Estado, divertidas, a zurzir os nossos ouvidos com uma versão rock desta outra peça do miserabilismo lusitano mais retrógado?
Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa com a gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
Que o povo nunca desmente
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente
Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho à alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho
A cortina da janela e o luar,
Mais o sol que bate nela
Basta pouco, poucochinho pra alegrar
Uma existência singela
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela
Não tem importância nenhuma? É apenas uma memória da tradição, que nada tem de ideológico? Ai não? Então, e se acaso a um destes modernaços intérpretes lhe desse na veneta de fazer um rap de outra peça? Será que essas mesmas figuras (e os seus "compagnons" de palco) aceitariam debitar estas estrofes?
Lá vamos, cantando e rindo
Levados, levados, sim
Pela voz de som tremendo
Das tubas, clamor sem fim.
Lá vamos, que o sonho é lindo!
Torres e torres erguendo.
Rasgões, clareiras, abrindo!
Alva da Luz imortal,
Roxas névoas despedaça
Doira o céu de Portugal!
Querer! Querer! E lá vamos!
Tronco em flor, estende os ramos
À Mocidade que passa.
Cale-se a voz que, turbada,
De si mesma se espanta,
Cesse dos ventos a insânia,
Ante a clara madrugada,
Em nossas almas nascida.
E, por nós, oh! Lusitânia,
Corpo de Amor, terra santa,
Pátria! Serás celebrada,
E por nós serás erguida,
Erguida ao alto da Vida!
Querer é a nossa divisa.
Querer, palavra que vem
Das mais profundas raízes.
Deslumbra a sombra indecisa
Transcende as nuvens de além...
Querer, palavra da Graça
Grito das almas felizes
Querer! Querer! E lá vamos
Tronco em flor estende os ramos
À Mocidade que passa.
Um pouco mais de atenção àquilo que se diz era capaz de não ser uma má política. Digo eu...
Francisco Seixas da Costa

11.3.18

OPINIÃO: O passado, hoje

Há dias, no Parlamento, o CDS não se associou a um voto de pesar pela morte de Varela Gomes, um militar que combateu, de armas na mão, a ditadura salazarista. Imagino que o pretexto tenham sido as atitudes dessa figura, no período mais conturbado do pós-25 de Abril.
Alguma direita portuguesa passa o tempo a queixar-se de que a esquerda a acusa de colagem ao regime anterior mas, como se vê, perde ensejos preciosos para afastar esse estigma. Isso acontece tanto na ação política como na produção intelectual. Alguma nova historiografia edulcora os crimes do regime salazarista, carregando os tons, em contraponto ácido, nos malefícios da República que o antecedeu. O que esses historiadores dizem de Afonso Costa e correligionários não diverge muito da versão diabolizada que nos foi impingida pelos "historiadores" da ditadura. Depois, não se queixem!
A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa deixou alguma esperança de que, com o tempo, ele pudesse ajudar a direita portuguesa a sair desse seu complexado "gueto". Nada era expectável de Cavaco Silva, por razões que escuso de desenvolver. Mas seria muito interessante que o segundo presidente civil oriundo da direita política usasse da sua autoridade para ajudar esse mesmo setor a distanciar-se do regime que vigorou até 1974.
Marcelo Rebelo de Sousa nasceu no seio de uma família do Estado Novo. O seu pai, governante com Salazar e Caetano, esteve, contudo, longe do perfil radical de algumas figuras desse tempo. Foi mesmo um governador colonial dotado de abertura de espírito e dimensão social na ação. O jovem Marcelo, ainda em ditadura, revelou-se moderadamente crítico do fechamento do regime, enquanto jornalista do "Expresso". Mais de quatro décadas depois, o presidente Marcelo já teve gestos muito louváveis na denúncia de barbaridades coloniais e da escravatura.
Na morte de Varela Gomes, o presidente da República qualificou contudo o regime ditatorial com uma bizarra "trouvaille" semântica - uma "ditadura constitucionalizada". O professor Marcelo prevaleceu sobre o chefe de Estado. Ora a ditadura foi "apenas" uma ditadura: com censura, polícia política, perseguições, prisões, torturas e mortes.
Alguns dirão, em abono do presidente, que a personalidade de Varela Gomes não ajudava a uma generosidade no gesto. O militar foi um revoltoso no 25 de novembro e era defensor de um modelo de sociedade política muito diferente daquela em que hoje vivemos.
A dimensão das figuras de Estado mede-se precisamente pelo modo com sabem elevar-se acima das polémicas do passado. Esta foi, manifestamente, uma oportunidade perdida. Outras haverá. Esperemos o que o presidente dirá um dia ao país numa visita ao Aljube, a Peniche ou ao Tarrafal.
Francisco Seixas da Costa in “Jornal de Notícias” – 9/3/2018