8.4.26

OPINIÃO: O esgoto do machismo


Há quem lhe chame o esgoto do machismo, quem diga que é apenas entretenimento ou quem, simplesmente, encolha os ombros por se tratar de mais uma estupidez típica das redes sociais.

Uma "trend", conhecida como "se ela disser não", espalhou-se no TikTok através de vídeos curtos e ganhou dimensão por altura do Dia Internacional da Mulher. A narrativa assenta em pedidos de namoro ou de casamento. Os homens (com "h" pequenino) encenam um momento romântico e imaginam a possibilidade de ser rejeitados. Quando surge o hipotético não, fingem agressões físicas. Espancam bonecas, manequins, simulam disparos com armas de brincar ou mostram-se a treinar o corpo para estarem em forma no momento da agressão. A moral da história é simples: um não justifica violência.

É difícil decidir o que é mais perturbador. Se são as redes sociais coniventes com este tipo de conteúdos ou se é a cultura machista a ganhar espaço na sociedade. Pior, se normaliza de tal forma a violência de género que a apresenta como uma simples piada.

No Brasil, o caso já está na Justiça. A Polícia Federal abriu uma investigação para identificar os autores dos vídeos, depois de um grupo de jornalistas ter identificado publicações deste género com milhares de interações. O TikTok também foi intimado a fornecer informações sobre os sistemas de moderação automática de conteúdos.

Os vídeos em causa remetem o machismo para outra dimensão. Agora com música ambiente, com filtros bonitos e hashtags. Podemos culpar as redes. Mas, neste caso, o TikTok é apenas o esgoto por onde a água passa.

Manuel Molinos – Jornal de Notícias -13 de março,2026