21.4.26

OPINIÃO: Um Sánchez em cada esquina

Há menos de um ano, conversava com um grupo de espanhóis a tentar medir o pulso à popularidade interna do primeiro-ministro, Pedro Sánchez. Já na altura se percebia que o país vizinho não alinhava na cartilha norte-americana nas questões do armamento e que, à custa das tarifas dos EUA, estaria de antenas no ar à procura de novas parcerias estratégicas a oriente. Diziam-me estes espanhóis sobre Sánchez ser um político interessante: "sí, pero...", acompanhado de um esgar a fazer lembrar a cara de uma criança quando vê brócolos no prato. Este "mas" prendia-se com a proximidade de grupos empresariais e com casos duvidosos nos quais o socialista estava envolvido diretamente ou via aliados/mulher/família. E se nesse âmbito há fragilidades a apontar - se calhar não tantas quanto se julga - na ação política vemos Espanha como líder europeia e não como mais uma ovelha no rebanho.

Sobre a NATO, Sánchez fez questão de explicar que não ia gastar 5% do PIB em armamento, porque tal não seria necessário para cumprir as missões no âmbito da aliança. Outros houve que foram a correr gastar o dinheiro. Em quê e com que objetivo ainda se está para ver. Sobre as tarifas, Sánchez montou uma robusta rede de proteção das empresas e do emprego. Ainda no plano interno, iniciou na semana passada um processo especial de regularização de imigrantes que já viviam e trabalhavam em Espanha, uma medida óbvia por questões de humanismo, mas também económicas. Já antes, atacou a inflação na energia com um vigor fácil de ver nos postos de combustível ali em Tui ou Badajoz. E sobre Gaza, nunca vacilou na defesa do povo oprimido e hoje mesmo vai propor à UE o fim do acordo de associação com Israel, por "violações de direitos humanos".

Tudo isto com a economia pujante e a crescer mais do que a Europa e sem se ajoelhar a Trump. Mais vale um Sánchez em cada esquina do que o cheiro a mofo que anda por aí.

Luís Pedro Carvalho – Jornal de Notícias - 21 de abril, 2026