2.7.17

OPINIÃO: A desproteção de quem nos protege

As instalações estão a ser verificadas e os números não são confirmados oficialmente, mas os que já se conhecem através de fontes militares chegam para assustar: 44 lança-granadas e quatro engenhos explosivos prontos a detonar, 120 granadas ofensivas, 20 granadas de gás lacrimogéneo e 1500 munições de calibre 9 mm, que em Portugal apenas pode ser utilizado legalmente por forças de segurança e militares. A lista do material de guerra roubado esta semana dos Paióis Nacionais de Tancos representa o mais grave incidente do género registado no país.
O arsenal pode vir a alimentar organizações terroristas e outros grupos criminosos em qualquer parte do Mundo. O assalto foi considerado bastante "profissional", mas falhas graves de segurança facilitaram o acesso ao polígono militar, já que o sistema de videovigilância das instalações estava avariado há dois anos. E não pode deixar de inquietar que material de guerra deste calibre seja roubado com a aparente facilidade descrita pela Comunicação Social.
Mais perturbador ainda é ter em conta que, embora em menor dimensão, roubos de material confiado às polícias e Forças Armadas são relativamente recorrentes. Em fevereiro, 50 pistolas Glock desapareceram da PSP e algumas foram entretanto apanhadas em rusgas no Porto. E recuando aos últimos anos, encontram-se registos de furtos noutras instalações militares, nomeadamente na base da Marinha no Alfeite e no Centro de Tropas Comandos, na Carregueira.
Garantir a sua própria segurança e a defesa dos seus próprios bens tem de ser a primeira missão das forças policiais e militares. Sem essa garantia, dificilmente os cidadãos confiarão que as autoridades consigam acautelar a segurança pública. Essa confiança rompe-se, e de que maneira, com incidentes deste nível de gravidade.
Olhar para o que se passou em Tancos, ou olhar para o que se passou em fevereiro na PSP, obriga ao apuramento sério de responsabilidades. Porque importa perceber se há falhas de organização, ou se também o investimento público em defesa e segurança tem sido insuficiente e tem comprometido a capacidade operacional. Essa é uma dúvida que tem de ser esclarecida.
Num tempo em que as ameaças são cada vez mais complexas e internacionais, não se pode cair na tentação de enfraquecer e fragilizar os serviços que é suposto assegurarem a nossa proteção. A segurança é uma das necessidades básicas do ser humano. E constrói-se com base na confiança. Esse é um laço que o Estado precisa urgentemente de fortalecer.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias”  - 1/7/2017