23.6.17

7 Sóis 7Luas: O Festival que une os povos completa 25 anos

Estávamos em 1993 quando um grupo de jovens estudantes italianos chegou a Portugal para preparar um espetáculo de Teatro. Procuravam um espaço no qual encontrassem inspiração e paz e deram com Montemor-o-Novo, onde as pessoas falaram de um escritor que aí tinha passado uma pequena temporada e,  se ainda por lá estivesse, teria certamente gostado de os conhecer. Sim, porque eles eram estranhos, faziam exercícios bizarros rodando braços e pernas pelo ar, e para além disso eram italianos – nunca antes tinham visto italianos – e é certo que isso seria inspirador para a pena de um escritor. Esse escritor era o José Saramago, e encontrou-se com esses rapazes daí a pouco tempo e, como é evidente, ficou impressionado. Cedeu-lhes os direitos italianos para o livro “O Ano de 1993” e o nome para o seu novo projeto Sete Sóis Sete Luas (as personagens visionárias de “Memorial do Convento”, romance que o fez conquistar em 1998 o Prémio Nobel da Literatura), um Festival que iria crescer até abraçar dez países do Mediterrâneo e do mundo lusófono. De um encontro casual, de uma troca de afetos nasceu o Festival que hoje completa 25 anos e que, desde o começo, tem feito com que os povos se encontrem, difundindo a cultura de cada um dos países e promovendo o diálogo. Um projeto ambicioso, mas bem sucedido, que todos os anos move artistas de todo o mundo, e que é embaixador de uma cultura muito pouco conhecida, ou por vezes olhada com desconfiança, mas que consegue sempre surpreender o público, envolvendo-o e fazendo-o aproximar-se. Estes artistas quebram as fronteiras físicas e mentais, animando as praças de verão com sons, cores e, por vezes, até cheiros e sabores. O projeto Sete Sóis Sete Luas reúne, efetivamente, não apenas músicos, mas também artistas plásticos e chefes de cozinha, porque a cultura passa pela totalidade dos cinco sentidos.
Para o público português a viagem sensorial e cultural começou este ano nos Açores onde, na povoação de Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, entre 10 e 16 de junho, o street artist toscano Zed1 criou uma pintura mural inspirada no mar que rodeia a ilha, mural que foi inaugurado a 17 de junho, no Edifício da Banda 15 de agosto. Esta colaboração com Vila do Porto é nova, e começou graças ao encontro com o talentoso e multipremiado fotógrafo Pepe Brix que, em 2016 e 2017 mostrou o seu trabalho nos Centrum Sete Sóis Sete Luas (centros para as artes do Mediterrâneo e do mundo lusófono) existentes em Portugal, Itália, França e Cabo Verde. Outra ótima novidade deste ano é a colaboração com a vila de Mafra, onde se passa a ação de o “Memorial do Convento” e onde se consuma o amor entre Baltasar (Sete Sóis) e Blimunda (Sete Luas) que, com o padre Bartolomeu de Gusmão, construíram a primeira máquina voadora (símbolo e logótipo do Festival). Diz-se mesmo que esta máquina é anterior à dos irmãos Montgolfier. Um regresso a casa dos dois apaixonados que, a bordo da sua máquina voadora, a 24 e 25 de junho lançarão como flores, no Jardim do Cerco, os ritmos e as danças bascas dos Korrontzi e os sons e as palavras em sabir – antiga língua franca mediterrânea, que reúne vários idiomas, falada nos portos e usada para estabelecer trocas comerciais – da Piccola Banda Ikona (Itália). A Piccola Banda Ikona e o sabir, no qual se misturam italiano, francês, espanhol e árabe, irão igualmente abrir a edição 2017 do Festival na histórica localidade de Ponte de Sor a 23 de junho e em Pombal a 24 de junho.
Pombal, que entrou na rede Sete Sóis Sete Luas em 2015, acolhe uma programação que abrange tanto a música como o teatro de rua. A não perder a 30 de junho o espetáculo de teatro de rua da companhia L’Avalot que irá, literalmente, pôr a cidade em combustão, mas não menos relevantes serão as atuações a 2 de julho do grupo Kalascima, que vem da Apúlia (sul de Itália), com os ritmos hipnotizantes da taranta, e a companhia basca de teatro de rua Deabru Beltzak – os diabos negros – que, com efeitos de pirotecnia e ao som de tambores, irão invadir as ruas de Pombal.
A 7 de julho começam as sextas-feiras musicais de Oeiras, outra sede histórica do Festival, com o grupo Il Parto delle Nuvole Pesanti (Itália) que canta viagens e emigrações. Prossegue a 14 com o grupo de culto da música étnico-eletrónica italiana, os Agricantus, que chegam de Palermo e que cantam a paz entre os povos e as culturas dos cinco continentes. A 25 de julho a Fábrica da Pólvora receberá um dos mais famosos artistas da música popular espanhola, o Eliseo Parra, que renovou o património tradicional com influências de jazz e do rock. Ainda este ano não poderia faltar uma das produções musicais originais do Festival; desta vez cabe aos Les Voix des 7Lunes a plena expressão deste projeto de diálogo cultural. Os músicos que compõem a banda são El Wafir, fundador do grupo histórico Rádio Tarifa do norte de África, com o oud e o violino, a voz de Éden Holan de Israel, Kafmaron da Ilha da Reunião com as tammorre (espécie de pandeiro da região de Nápoles), a voz de Valentina Ferraiuolo do sul de Itália e a voz e o contrabaixo de Sofia Neide, de Portugal. Sob o sol leonino de agosto, o público de Oeiras poderá apreciar na sexta-feira dia 4 a música tradicional do Magreb, que se associa aos ritmos da música balcânica, hindustani, raï e gnawa, que o grupo Aywa mistura com a música contemporânea amplificada até atingir um enérgico ambiente de festa e de encontro. A 11 a música será a da ilha das flores (Ilha Brava, Cabo Verde), conhecida pelas mornas e pela poesia de Eugénio Tavares, com a Brava 7Luas Band, outra produção musical original do Sete Sóis Sete Luas. A grande conclusão será com os ritmos da rumba, rock, pop e flamenco de El Chinchilla, artista de Castela-Mancha, a terra de Dom Quixote. Os amantes deste género musical poderão igualmente acompanhar El Chinchilla, no dia 22 de julho,  ao esplêndido cenário de Elvas, cidade que foi declarada património da humanidade, e com a possibilidade de degustar os sabores valencianos trazidos pelo chefe Victor Basset, que vem de Tavernes de la Valldigna, outra das cidades pertencentes à rede Sete Sóis Sete Luas. Baltasar e Blimunda também voarão sobre Elvas a 15 de julho e farão as delícias do público com os sons dos Agricantus e os sabores da Sicília preparados pelo chefe Matteo Cangilleri. Ainda em Agosto vão passar por Castelo Branco, com o espírito de partilha e de diversidade que define a abordagem musical e multi-étnica o grupo Aywa, dia 5, e a Brava 7Luas Band dia 16.
Entre 23 de julho e 8 de setembro será possível acompanhar a irresistível viagem de Sete Sóis e de Sete Luas na cidade de Ponte de Sor, entre a música, o teatro de rua e a arte contemporânea. Um calendário muito preenchido que também dará conta da residência musical de uma nova orquestra do Festival, que será dirigida pelo mestre da guitarra portuguesa Custódio Castelo e é composta por jovens talentosos provenientes de diversas cidades da rede: Toscânia, Sicília, Pombal, Alcázar de San Juan e Ponte de Sor. La Jeunesse II du 7Sóis, assim se chama a orquestra, apresentar-se-á em estreia absoluta no anfiteatro da zona ribeirinha a 5 de agosto. A 22 de julho o Centrum Sete Sóis Sete Luas receberá a exposição do artista cabo-verdiano Tchalé Figueira, que poderá ser visitada até ao dia 4 de setembro. Cereja no topo do bolo da programação é o excecional gaiteiro Budiño a 14 de julho. A sua música vai beber à tradição galega para depois a misturar com sons mais contemporâneos. Drum and bass, rock, new age e música tradicional constituem um catálogo variado e extenso de ritmos e de timbres que fazem dos seus concertos performances inolvidáveis, onde toda a gente começa a dançar num turbilhão musical indomável. E porque o verão não termina em agosto, setembro oferece ao público português outras extraordinárias oportunidades de poderem acompanhar este festival, que é único no mundo. Setembro começa logo no primeiro dia do mês, em Alfândega da Fé, onde a companhia L’Avalot procurará a incendiar os ânimos – e não só – com os seus dinossauros que regressarão à terra para esta ocasião. Les Voix des 7Lunes, a 8 de setembro, tentarão apagar o fogo com os seus instrumentos saídos das ondas do Mediterrâneo, mas também das de outros mares. No mesmo dia, em Ponte de Sor, inaugura a exposição do artista toscano Madiai e os diabos negros (Deabru Beltzak) chegam do País Basco para sacudir as almas.
Como já é habitual, será em Castro Verde e em Odemira que se puxam os cordelinhos deste incrível e popular festival durante o mês de setembro, com uma programação que não irá desiludir o público. Esta é uma viagem extraordinária de Sete Sóis Sete Luas, que vem confirmar um projeto e uma valência cultural raros nos tempos que correm. Num panorama geral onde se produz maioritariamente um entretenimento cru e despojado, o Festival Sete Sóis Sete Luas reafirma-se, por oposição, como um projeto de qualidade que também veicula valores. Como fruto da sua qualidade cultural, devemos recordar que, para além de José Saramago e Dario Fo – outro Prémio Nobel da Literatura – acreditaram neste projeto, a ponto de se tornarem seus presidentes honorários, o Presidente da República de Cabo Verde Jorge Carlos Fonseca e o Prémio Nobel da Paz de 2015 Mohamed Fadhel Mahfoudh.