15.5.17

OPINIÃO: A importância de ser Salvador

 Poderia ser pelo resultado histórico, não apenas uma vitória única para Portugal mas ainda a mais alta votação de sempre em festivais da Eurovisão. Ou pela união que fez nascer à sua volta, conseguindo que mesmo quem detesta o festival voltasse a ligar a televisão para o seguir.
Poderia ser pela coragem de criticar o caminho da música vazia e sem conteúdo. Pela sua coerência numa imagem sem cedência a modas ou a imposições, por encher um palco sem fogo de artifício, por não precisar de mais para além da sua presença. Ou ainda por personificar a diferença num mundo cada vez mais padronizado e plástico.
Poderia ser pela camisola com que defendeu os direitos dos refugiados e demonstrou que a política é usar bem o palco sempre que o temos. Intervindo e dando voz a quem não a tem, colocando a urgência da mudança nos mais pequenos gestos ao nosso alcance.
Poderia ser pela humildade de não se sentir um herói e pela lucidez de se saber talhado para a efemeridade. Vivemos a um ritmo cada vez mais acelerado, especialistas tanto a criar como a descartar rapidamente ídolos.
Poderia ser pela força com que levou o português aos quatro cantos da Europa, demonstrando que não é preciso abdicar do que é nosso para nos fazermos ouvir. Pela capacidade de valorizar a cultura e a singularidade. Pela autenticidade.
Poderia ainda ser pelo espaço que o seu mediatismo deu à crítica, à mordacidade dos que lhe procuraram os tiques ou à simples indiferença com que muitos escaparam à vaga de euforia. Nem os mais destacados vencedores devem ambicionar a unanimidade.
Mas é, acima de tudo, pela alma que deu ao tema composto pela irmã. No princípio das coisas, mesmo que nesse princípio se encontre a genialidade de Luísa Sobral, estava apenas uma partitura cheia de semínimas e colcheias, pausas e claves a dar o tom. Foi ao dar vida às notas arrumadas sobre a pauta que Salvador conseguiu fazer corações de tantos países baterem juntos, emocionarem-se juntos, torcerem sem fronteiras por uma canção que deixou de ter língua ou nacionalidade. E isso não é lamechice. É a universalidade dos sentimentos. É simplesmente música.
Inês Cardoso – “Jornal de Notícias” – 15/5/2017
Foto de Salvador Sobral de Cátia Castel-Branco