19.4.17

OPINIÃO: Quando a dureza nos chama pelo nome

Saía da Praça do Marquês, no Porto, quando uma voz anónima se fez ouvir. "Dá-me uma moeda." Ainda decorriam os segundos de hesitação a avaliar o pedido, quando a mesma voz me chamou pelo nome. Em sobressalto, olhei o homem parado a poucos metros e aproximei-me à procura de traços que me dissessem de onde nos conhecíamos. A minha confusão deve ter sido tão evidente que foi ele a justificar-se. Cruzámo-nos há vários anos, quando fazia uma reportagem nos Anjos, em Lisboa. A razão de ter fixado o meu nome? Em tempos, teve uma filha Inês. Noutra vida, arrumada numa gaveta bem fechada na memória, quando não se sentia um fantasma a deambular pelos dias.
Falou de como se mudou de Lisboa para o Porto, com uma passagem de dois anos por um emprego em Famalicão. Dois anos em que chegou a pensar que a vida ia endireitar-se, para de novo acabar desempregado. E do futuro que o convida a regressar à aldeia alentejana. Ao colo da mãe que não sabe sequer se é viva. Nem sabe se gostaria de o rever - assim, partido em pedaços. Talvez o dinheiro apertado entre os dedos nunca chegue a servir para o autocarro rumo ao Alentejo. Afastei-me sem saber bem o que dizer ou fazer. Sem distinguir onde a realidade era inteira numa cena que toda ela parecia ficção.
O Governo promete levar ao Parlamento, ainda este mês, uma nova estratégia para os sem-abrigo. As associações que trabalham com esta população pedem que, além de habitação e emprego, o novo plano concretize um objetivo que ficou por fazer no anterior documento: criar uma base de dados específica que permita conhecer devidamente o universo de pessoas em causa.
Em 2016, a Segurança Social registou 4003 sem-abrigo em todo o país. As associações que andam no terreno dizem que serão mais. Tal como o Governo não sabe ao certo quantos vivem sem um teto, sem um apoio e na total insegurança do que trarão os dias, assusta pensar quantos seremos os que não sabemos bem como reagir quando somos interpelados.
Vi aquele vulto largo seguir para a Rua de Latino Coelho. Fiquei a pensar em tanta palavra que podia ter dito, nas pistas para o ajudar que ficaram por dar. Já passaram vários dias mas continuo a sentir, com a ponta de culpa que nos pesa sempre que tudo fica por fazer, que talvez nem sequer o visse se ele não me tivesse chamado. Às vezes, só olhamos a dureza de frente quando ela nos chama pelo nome.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias” – 16/4/2017