4.4.17

OPINIÃO: Não, não é amor

Os saltos eufóricos, lágrimas e gritos que se libertam nos estádios bastariam para demonstrar a paixão que tantos adeptos sentem pelos seus clubes. Mas agora é científico: a Universidade de Coimbra acaba de divulgar as conclusões de um estudo realizado ao longo de três anos, comprovando que os circuitos cerebrais ativados em momentos decisivos de um jogo de futebol são idênticos aos do amor. Há estudos internacionais no mesmo sentido que comparam o prazer de um golo ao obtido com um orgasmo.
Os investigadores classificam-no como um "amor tribal". Para não usar o termo fanatismo, que comporta uma carga negativa. É em nome desse amor que se percorrem quilómetros, se entoam cânticos, se erguem bandeiras e cachecóis. Pelo clube vibra-se e trocam-se argumentos. Pelo clube há birras e amuos. Mas a irracionalidade própria das paixões não pode ser desculpa para tudo. Quem ama o futebol não pode considerar normal que a violência destrua o que começou por ser um desporto, se tornou negócio e em qualquer caso deveria manter-se um espetáculo de multidões.
Já nos habituámos a ouvir classificar os clássicos como jogos de alto risco. Os balanços já nem nos espantam. Onze detidos no Benfica-F. C. Porto. Três centenas e meia de cadeiras partidas, sete tampos de sanita, um lavatório, uma interminável lista de estragos que ocuparia demasiadas linhas desta crónica.
No jogo de ontem da Divisão Elite da A. F. Porto, o Canelas, com quem boa parte dos adversários se recusa a entrar em campo, fixou um novo recorde negro. O embate em casa do Rio Tinto terminou quase ao começar, estavam decorridos apenas dois minutos. Um avançado agrediu o árbitro à joelhada, incidente que fez com que a partida fosse imediatamente interrompida.
Amor e violência são duas palavras incompatíveis. Quando tantos pais começam a sentir que não é seguro levarem os filhos ao futebol. Quando há equipas a desistir do jogo por medo. Quando há estragos consecutivos e batalhas entre polícias e adeptos. Quando há quatro dezenas de árbitros agredidos desde início da época. Quando até no discurso de comentadores e dirigentes desportivos, que deveriam zelar pela festa e pelo desportivismo, há uma agressividade latente. Está na altura de Federação, clubes e autoridades levarem muito a sério a questão da segurança e do civismo nos estádios. E de serem tomadas medidas severas para recolocar o futebol no sítio. Só assim será possível a festa.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias” – 3/4/2017