11.4.17

OPINIÃO: Depois de Espanha

Notícias dando conta de problemas durante viagens de finalistas ao Sul de Espanha não são propriamente uma novidade. O destino tornou-se dominante há mais de duas décadas, a Polícia monta operações especiais, há apreensões de droga, acidentes e rios de tinta em descrições sobre os receios sentidos pelos pais.
Ainda assim, o espanto ganha espaço quando se leem as descrições dos estragos que levaram o hotel Pueblo Camino Real, em Torremolinos, a expulsar oito centenas de estudantes portugueses. Haverá azulejos partidos, colchões atirados pelas janelas, estragos com pó dos extintores. Prejuízos avaliados em milhares de euros. Vandalismo, numa palavra.
É fácil cair em discursos moralistas e sentenças sumárias, mesmo antes de haver um apuramento completo do que sucedeu - e sabendo-se que, entre 800 estudantes, haverá seguramente graus de responsabilidade e comportamentos muito distintos. Vale sempre a pena respirar fundo e evitar as frases feitas que se espalham pelas redes sociais.
Diz-se, por exemplo, que esta é uma geração mimada e regada em álcool. Como se o discurso "no meu tempo é que era" não fosse um clássico e o conflito de gerações um fenómeno abordado desde os primórdios da filosofia. E como se o consumo de álcool fosse um problema novo, num país que integra o "top ten" do consumo per capita e em que a ingestão é particularmente abusiva na faixa etária acima dos 65 anos.
Viajar para longe de casa em grupo, numa etapa que é suposto ser de transição, em programas que pouco mais oferecem do que praia e noites longas, cria a oportunidade perfeita para que os excessos aconteçam. Era assim há 20 anos, era assim há 10, será assim amanhã. Mas quando tantas linhas vermelhas foram pisadas, talvez seja tempo de olhar para as viagens de finalistas com um sentido reforçado de responsabilidade. Das agências de viagens que as organizam e que têm feito muito negócio à conta de programas sem qualquer conteúdo. Das escolas que autorizam iniciativas para angariar verbas, demitindo-se de acompanhar as organizações. Dos pais que ficam em pânico, mas aceitam que o ritual se cumpra.
Noites de excessos e de álcool são normais. Disparates à medida que crescemos (e a vida toda, afinal) são normais. Mas nada disso é significado de vandalismo. Quando a irresponsabilidade se sobrepõe à confiança que depositamos nos filhos, é altura de lhes dizer basta e de procurar horizontes novos nos destinos destas viagens. E o "não" é tantas vezes a palavra que lhes faz mais falta para crescer.
Inês Cardoso in "Jornal de Notícias" - 10/4/2017
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