15.3.17

OPINIÃO: Lobo mau digital

Nos dias de tempo incerto, não é a espreitar pela janela que a minha filha decide que casaco vestir. Agarra no telefone e procura, com uma confiança exagerada, o que dita a aplicação meteorológica. Mesmo que a realidade contrarie as previsões, nada abala a sua convicção de que o telemóvel há de acertar. A tecnologia, que para a geração dela tem todas as virtualidades, é uma auxiliar do quotidiano que convém nunca menosprezar.
Não adianta discutir se a tecnologia é em si mesma positiva ou negativa. Mas porque ela pode ser usada de mil e uma formas, por pessoas com outras tantas intenções, a multiplicidade de tarefas para as quais usamos mecanismos tecnológicos expõe-nos a riscos novos que nem sempre sabemos avaliar devidamente.
Como nos facilitam a vida, fomos deixando que novas ferramentas tomassem conta do nosso dinheiro, das nossas rotinas, dos nossos passos e até dos nossos desejos. Uma consulta rápida na Internet e facilmente o rasto que deixamos permite a qualquer empresa reconstituir os nossos gostos e aspirações.
Os relatos de adolescentes aliciados através de redes sociais são um sinal inquietante da dificuldade que temos em explicar aos miúdos que a Internet, esse terreno movediço em que qualquer fantasma pode escolher forma e rosto, é um risco a que nos expomos voluntariamente. O cibercrime já mereceu uma atenção particular do legislador e a criação de um gabinete específico na Procuradoria-Geral da República. Mas as autoridades nunca substituirão a proteção que começa em casa.
Não se trata de investir em filtros de navegação ou de tentar controlar os filhos. Eles são, em regra, mais hábeis a dominar a tecnologia do que os pais. Mudam constantemente de redes, renovam a todo o momento aplicações, partilham entre eles segredos e truques. Por isso educá-los para o que significa cada informação dada ou cada imagem colocada online é crucial para se questionarem, desde cedo, sobre o uso que pode ser dado ao espaço virtual que pisam.
Como adultos, continuamos a avaliar os riscos à medida do que eram quando crescemos. Temos receio de os deixar sair de casa ou atravessar a rua. E nem sempre nos lembramos que sozinhos no quarto podem estar mais ameaçados do que a passear no parque com amigos. Acima de tudo, como educadores, não devemos deixar que um tablet ou um computador nos substituam. É nisso que os pais devem pensar todas as vezes que colocam um smartphone na mão dos filhos para que fiquem entretidos.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias” – 13/3/2017