9.3.17

OPINIÃO: A indignidade da praxe

Imagino não ser fácil chegar, sozinho, a uma grande cidade e começar uma nova vida, agora numa universidade em que somos apenas um entre milhares. O senhor Luís já não nos cumprimenta quando transpomos o portão principal da escola, a professora de História não nos conhece desde pequeninos e os nossos amigos, com quem partilhámos a adolescência, também desapareceram. Seria bom ter à nossa espera, nesta nova vida académica, alguém que nos acolhesse.
A realidade é, no entanto, bem diferente. Um estudo agora publicado, da autoria de investigadores da Universidade do Porto e do ISCTE, vem colocar em letra impressa tudo aquilo que estamos cansados de ver com os próprios olhos nas ruas das nossas cidades. São cenários em que o chamado acolhimento é feito recorrendo à humilhação. Subalternizar e subjugar não pode ser entendido como acolhimento, antes como demonstração de exercício de poder.
O mais espantoso neste ambiente universitário é percebermos que os homens e mulheres do país futuro - os mais bem preparados, se considerarmos serem aqueles a ingressar nas competitivas universidades - legitimam uma cultura de vexação, violência e subjugação. E consideram, portanto, essas práticas positivas, não admitindo sequer a possibilidade de lhes pôr termo.
Universidades onde as mulheres são maioritárias e têm melhores notas e, parece mentira, nas quais a maioria não contesta ser praxada, em rituais quase sempre homofóbicos e machistas. O que explica isto? O medo de ser rejeitado. Alguém aponte o caso de um estudante que tenha dito não às praxes e não tenha conseguido singrar na vida académica. Será difícil.
A proibição não parece ser o melhor caminho para a mudança, embora sejam por demais conhecidas situações, algumas com finais trágicos, a justificarem o fim unilateral das praxes. Na Universidade do Minho, por exemplo, a reitoria criou regras apertadas. Nem assim os casos reportados de comportamentos pouco civilizados por parte dos estudantes findaram.
É às universidades que compete criar alternativas adequadas de acolhimento de novos alunos. Não chega aos reitores, sempre timidamente, censurar comportamentos desadequados. Têm de assumir a responsabilidade de receber os seus alunos, deixando de dar espaço e cobertura a cerimónias pouco dignificantes para praxantes e praxados.
Paula Ferreira in "Jornal de Notícias" - 7/3/2017