23.2.17

OPINIÃO: O interior existe mesmo

Quando entrou no hospital da Guarda, na quinta-feira passada, Cláudia Costa estava quase no final de uma gravidez desejada e para a qual se submeteu a tratamentos de fertilidade. O que se passou numa hora e meia de alegada espera por um obstetra, a hora e meia que foi do sonho prestes a cumprir-se à perda de um filho, só os inquéritos em curso poderão apurar. Sobra, contudo, uma inquietação. O desfecho teria sido o mesmo numa maternidade de Lisboa ou Porto, com mais recursos e médicos disponíveis?
A nossa relação com os serviços públicos faz-se mais de perceções do que de factos. E a saúde é um dos setores em que mais difícil tem sido, para os sucessivos governos, encontrar respostas eficazes para dar sentimentos de confiança às populações do interior. Por maiores que sejam os incentivos dados aos médicos, centenas de vagas vão continuando por preencher. Faltam especialistas e essa certeza mina de forma incontornável a forma como se lê qualquer notícia sobre eventuais problemas de assistência em hospitais da metade menos populosa do país.
Portugal tem, na sua largura máxima, 218 escassos quilómetros. Estando-se sempre tão perto do mar, como pode falar-se em interioridade? O conceito está apenas nas nossas cabeças, ouve-se invocar frequentemente. A verdade de quem vive e sente o que se passa no terreno é outra. Por mais que se multipliquem autoestradas e que se tenha feito um esforço notável de dotação de infraestruturas, há ainda em tantos serviços um país a duas velocidades.
Há quem não goste da expressão Portugal profundo, pelo que ela encerra de uma certa sensação de obscuridade e mesmo obscurantismo. Mas há sempre formas diferentes de ler a mesma coisa. Profundidade e interioridade remetem para o que vem de dentro da alma. E é precisamente isso que os chamados territórios de baixa densidade têm de mais distintivo.
Quem escolhe fixar-se no interior do país tem de amar essa autenticidade e o conforto do que é pequeno e próximo. Mas dizer, com desmedido otimismo, que a mobilidade e a tecnologia do século XXI já rasgaram todas as barreiras, é ignorar limitações que são evidentes e que não se resolvem apenas com dinheiro. Como se vê com toda a clareza na falta de resposta dos médicos portugueses às sucessivas chamadas. A falta de atratividade do interior nalgumas especialidades é a prova mais dolorosa de que a interioridade, afinal, existe mesmo.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias” – 21/2/2017