27.2.17

OPINIÃO: Fátima e a vida dupla

À medida que o calendário avança rumo a 12 de maio, o preço do alojamento em Fátima atinge valores cada vez menos católicos e acelera a produção de merchandising alusivo ao centenário das aparições e à visita papal. Vale a pena, face a notícias disparatadas que dão conta de quartos "económicos" com uma noite por 992 euros, ou dormidas em camaratas que custam a módica quantia de 500 euros, recordar as palavras que o Papa Francisco proferiu na semana passada, numa missa na Casa de Santa Marta.
Como todas as palavras que incomodam quem está instalado, a intervenção de Francisco foi negada em blogues católicos, que acusaram os média de descontextualizar o que ele disse. É verdade que não afirmou, em rigor, que é melhor ser ateu do que católico. Colocou essa crítica na boca dos que se escandalizam com os falsos católicos. Mas quanto ao essencial, a intervenção está disponível na televisão oficial do Vaticano e não deixa margem para dúvidas a condenação da "vida dupla".
E o que é a vida dupla? Responde Francisco: "É dizer sou muito católico, vou sempre à missa, pertenço a esta e aquela associação, mas a minha vida não é cristã". E depois vêm os exemplos concretos: "Não pago o que é justo aos meus funcionários, exploro as pessoas, faço jogo sujo nos negócios, faço lavagem de dinheiro".
Ouvidas com consciência, as palavras não podem deixar de inquietar muitos católicos. E devem inclusivamente ser escutadas com atenção pelos responsáveis da Igreja em Portugal. Porque não basta, como o bispo de Leiria-Fátima fez recentemente, apelar à "honestidade" dos operadores hoteleiros. Em matéria de transparência, deveria ser o Santuário o primeiro a prestar contas publicamente, o que não faz há largos anos.
Numa semana que ficou marcada pela notícia da fuga de dez mil milhões de euros para offshores, num país em que se estima que a evasão fiscal seja de doze mil milhões de euros por ano, dá que pensar quantos serão os católicos que enganam o Estado sempre que podem. Ou os empresários que acumulam riqueza mas resistem a aumentar o salário mínimo.
O Papa Francisco é tão amado por não católicos, e por vezes tão criticado pelos seus, porque é exigente com quem está dentro e inclusivo com quem está de fora. Durante séculos, a Igreja sobrevalorizou a moral que exclui, descurando a verdade de vida que acolhe e tem lugar para todos. Jorge Bergoglio está a centrar-se no ser, não na aparência. Deveria ser simples e evidente, mas nem Fátima nem uma larga maioria dos católicos estão preparados para tanto.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias”- 27/2/2017

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