21.2.17

OPINIÃO: As memórias de Cavaco

A estranheza do livro de memórias de Cavaco Silva, "Quinta-feira e outros dias", prende-se, em primeiro lugar, com a rapidez da sua publicação. Não é tradição em Portugal que os ex-presidentes da República escrevam sobre as suas relações no exercício do poder e que sejam tão detalhados nos pormenores. Mas Cavaco justifica-o, orgulhando-se do que publicou abundantemente ao longo da sua vida política.
O livro é editado antes ainda de se cumprir um ano da sua saída da Presidência. O que mostra que o ex-chefe de Estado tinha necessidade de se explicar ao país, consciente de que saiu mal do exercício do cargo, com níveis de impopularidade elevados. Acha-se injustiçado. E é esse sentimento que o leva a revelar conversas, chamadas de atenção, contactos com o antigo primeiro-ministro José Sócrates, com quem mais coabitou.
Há, portanto, duas formas de olhar o livro de Cavaco Silva. Como um ajuste de contas ainda a quente, sem a previdência do adágio popular que aconselha a servir a vingança fria. Como o registo histórico de um período muito recente da nossa vida, contado por um protagonista desses dias frios, que nos levaram a dias ainda mais frios e duros e à política do "não há alternativa".
Sejam quais forem as lentes que usemos para ler as 577 páginas, forçosamente em diagonal quando se faz em menos de 24 horas, não se pode acusar Cavaco Silva de falta de coerência e de convicções. De escrever hoje uma coisa sobre a qual não falou no passado.
Cavaco Silva quer mostrar que teve pela frente um governante que falhava compromissos, que mentia, que enfrentou uma "máquina tenebrosa", para os portugueses perceberem que esse foi o maior problema dos seus mandatos.
Sendo rico no que desnuda da coabitação entre um presidente e um primeiro-ministro, e tendo Cavaco Silva estado dos dois lados em momentos diferentes, o livro, um documento histórico, pode expor erros e inações do seu mandato, deixando no ar a interrogação legítima sobre se, sendo o presidente a última reserva da nação, não deveria, então, ter sido mais firme e mais duro com José Sócrates.
Menos relevantes são os recados em forma de ajustes de contas com que Cavaco Silva vai polvilhando os sucessivos capítulos, mesmo indiretamente ao seu sucessor, quando contrapõe o perfil mais discreto ao mais mediático de um chefe de Estado. Coincidentemente, Marcelo Rebelo de Sousa, que foi conselheiro de Estado de Cavaco Silva escolhido pelo próprio, rumou por estes dias ao Norte do país, não tendo estado na apresentação do livro.
Cavaco Silva promete mais leituras futuras sobre os dias de hoje. Mas os outros protagonistas também terão a sua versão da história.
Domingos de Andrade in "Jornal de Notícias" - 18/2/2017