3.1.17

OPINIÃO: Sem retrovisor

Era o último debate do ano no Parlamento, em vésperas de festejos natalícios. A líder do CDS-PP preparou um número mediático, com uma caixa de presentes para António Costa. O primeiro-ministro não tinha ido às compras mas reagiu de improviso, dizendo a Assunção Cristas que se pudesse lhe teria levado um retrovisor. Para com ele olhar para o passado e avaliar melhor o desempenho do Governo de coligação do qual fez parte, justificou.
O confronto político vive muito de retrovisores. Quem já ocupou o poder mas se vê remetido à Oposição vive em constante nostalgia da obra feita. Quem se senta a governar recorre ao passado sempre que precisa de justificar o que corre menos bem. As falhas, os desvios económicos, os problemas nos serviços públicos, são sempre culpa de alguém que habita num estranho ontem. Nunca responsabilidade de quem por eles deve responder no dia de hoje.
A política entendida como ação transformadora da realidade alimenta-se, pelo contrário, de futuro. Procura as melhores medidas possíveis para que o amanhã seja melhor do que o hoje. E isso não significa ignorar o passado, porque aprender com as suas lições é uma vantagem e ter memória uma obrigação. Mas implica guardar apenas o que faz falta para seguir caminho e largar o resto da tralha. Porque na política, como na vida, guardamos demasiada tralha.
Os analistas dizem que tanto na política como na economia 2017 se caracteriza pela elevada imprevisibilidade. É assim dentro de portas, com um crescimento frágil dependente do desempenho da economia global. E é assim num Mundo à espera de ver o que será Donald Trump na Casa Branca e que batalhas continuará Putin a travar. Ou o que consegue António Guterres num terreno minado e sem respostas para o conflito na Síria e para o drama dos refugiados. Ou ainda que espaço continuará a ganhar o medo, num ano que abriu com notícias de mais um atentado na Turquia.
Por mais que nos desdobremos em foguetes, em resoluções e em decisões simbólicas, a mudança de calendário não altera em nada o sabor dos dias. Mas é exatamente por nos cheirar a novo que nos devemos focar mais no futuro. E exigir a quem nos governa, no país e no Mundo, que assuma as suas responsabilidades sem retrovisor. Porque na política, como na vida, sobram acusações sobre o passado que nos trouxe ao ponto em que estamos e faltam soluções novas que conduzam à mudança. É de futuro que precisamos.
Inês Cardoso in “Jornal de Notícias”2/1/2017