29.1.17

OPINIÃO: Correios

No espaço de uma semana, a estação de Correios onde costumo ir tinha sido transformada num banco assético, dividido em áreas retangulares com painéis alusivos a taxas de juro e livros de autoajuda. Os Correios evoluíram. Ainda entregam e recebem cartas, mas são cada vez mais uma fachada para vender literatura de posto de abastecimento e cartões de crédito. Sabia-se que a privatização de um serviço nuclear para a comunidade acarretava riscos - e traria, também, benefícios em matéria de gestão -, mas a adaptação da empresa à modernidade parece estar a fazê-la desviar-se da sua matriz. Não é aceitável que os vales de pensão de muitos reformados continuem a não ser pagos por falta de dinheiro nos balcões (21% dos pensionistas ainda vão para a fila dos Correios). Verbas que, esclareceu o primeiro-ministro António Costa, continuam a ser transferidas a tempo e horas pela Segurança Social. Por isso, das duas uma: ou os CTT estão a reter as pensões para usos financeiros criativos, ou estão tão entusiasmados com a ideia de emprestar dinheiro a taxas de juro competitivas que nem se apercebem do sarilho em que se pode meter um banco que não devolve dinheiro que é dos clientes. Desta vez, a culpa não é do carteiro.
Pedro Ivo Carvalho in “Jornal de Noticias” – 28/1/2017