31.1.17

OPINIÃO: Construtor de muros

Um homem chora perante as câmaras. Desesperado e sem respostas para o que fazer perante a detenção do irmão, um iraniano que devia chegar a Boston no domingo. Não chegou. Ficou retido no aeroporto de origem. Apenas por uma razão. Nasceu no Irão. É esse o seu único crime. O irmão, desolado, diz que tem nacionalidade americana há 15 anos, é empreiteiro e trabalha no duro. O irmão, garante, nunca cometeu um crime.
Como ele milhares de cidadãos ficaram retidos na fronteira aérea com os Estados Unidos. A ordem de Donald Trump foi executada. Cidadão oriundos do Irão, Iraque, Líbia, Sudão, Somália, Síria e Iemen não entram nos Estados Unidos, o país construído pelos escravos de África e mais tarde por ingleses católicos. E por muitos outros povos. Era isso que fazia os Estados Unidos. Um país multicultural, onde todos, independentemente da raça ou da religião, encontravam um porto de abrigo. Fica vedada a entrada cidadãos oriundos de sete países muçulmanos. Curiosamente, ou talvez não, Arábia Saudidta e Egito ficam de fora. Talvez a geografia dos negócios do império Trump explique.
Foram ingénuos os que achavam excessivo tudo o que Trump prometeu durante a campanha eleitoral. Era-o de facto. Foram ingénuos porque acreditaram que seria impossível ir tão longe e que depois de eleito Donald Trump iria assumir a postura de estadista e moderar a ação. Puro engano. Os que votaram em Trump não têm razões para se sentir defraudados. Prometeu e está cumprir. Para choque do resto do mundo (as assinaturas não param de engrossar a petição a pedir que o convite para visitar o Reino Unido seja retirado) e de metade da América.
Essa América que sai para as ruas e contesta o presidente eleito. Não deixou, aliás, de o fazer desde a tomada de posse. Os americanos recusam ignorar o que se está a construir à sua frente. Medidas que fazem parte da campanha eleitoral, que foram escrutinadas e que conduziram à eleição do magnata, mas que nem por isso deixam de ser arbitrárias e ilegais como prontamente decidiram juízes de diferentes estados americanos.
Até onde poderá ir Donald Trump? Provavelmente até onde o deixarem ir. Hoje o presidente americano revela o homem por si escolhido para presidir ao Supremo Tribunal. Veremos se terá força para fazer vingar a sua escolha. Se conseguir, caminhará sobre uma passadeira vermelha e a outra América viverá dias de chumbo. Porque só a lei pode travar Trump.
Paula Ferreira in “Jornal de Notícias” – 31/1/2017