21.12.16

Quercus pede investigação séria aos dados declarados pela indústria automóvel

Consumo real de combustível supera, em média, 42% os valores anunciados pelos fabricantes automóveis
Bruxelas e Lisboa, 20 Dezembro 2016 – De acordo com o estudo “Mind The Gap 2016”, divulgado hoje, 20 de dezembro, pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E), vários fabricantes automóveis estão a manipular os dados relativos à eficiência no consumo de combustível da sua frota, que pesa afinal 549€/ano a mais no bolso dos condutores face ao publicitado pelas marcas. A Mercedes encabeça a lista de fabricantes com a maior diferença entre o consumo de combustível na estrada e o consumo medido em testes de laboratório [1].
Principais conclusões do estudo “Mind the Gap 2016”:
        A diferença média entre o consumo de combustível na estrada e o consumo medido em testes de laboratório está a crescer de forma exponencial;
       A Mercedes regista a maior diferença entre consumo de combustível real e em laboratório (54%), com os modelos Mercedes Classe A e E a atingir uns inexplicáveis 56%;
       Em toda a indústria automóvel, a diferença média entre o consumo real e o consumo medido em testes de laboratório é de 42%, mais 28% do que há três anos;
       Na Europa, a diferença entre consumo real e em laboratório custa ao condutor típico cerca de 450€/ano a mais nos gastos com combustível, face aos dados de consumo oficiais fornecidos pelos fabricantes.
Mercedes e Audi entre os fabricantes com maiores diferenças de consumo
O Mercedes Classe C, um veículo de segmento médio, apresenta um consumo de combustível 54% superior face ao anunciado pela marca, uma diferença significativa face ao modelo mais vendido neste segmento, o Volkswagen Passat, cuja disparidade entre laboratório e estrada se situa nos 46%.
Os testes de eficiência de combustível são conduzidos em laboratório e apresentam bastantes lacunas e flexibilidades, sendo propensos a manipulação. Contudo, mesmo tendo isto em conta e o fato de algumas tecnologias mais eficientes terem melhores desempenhos em condições de laboratório do que na estrada, é impossível explicar disparidades no consumo de combustível entre laboratório e estrada superiores a 50% (ver infografia).
Tais resultados tão inexplicáveis levantam suspeitas sobre se os fabricantes como a Mercedes e a Audi estão ou não a avaliar o consumo de combustível de forma rigorosa quando o veículo está a ser testado e a produzir artificialmente valores de consumo mais reduzidos durante esse mesmo teste.
Disparidades crescentes entre consumo declarado e real nos últimos anos
 O cenário global da indústria automóvel a nível europeu não é muito mais animador. Considerando todos os fabricantes na Europa, a diferença média entre valores de consumo em laboratório e em estrada tem vindo a crescer rapidamente, passando de 28% em 2012 para 42% em 2015. Há uma década, a diferença era de apenas 14%. A Audi é a segunda pior classificada com uma diferença média de 49%. Em geral, a maioria dos fabricantes automóveis tem uma diferença média superior a 40%: Peugeot (45%), Toyota (43%) e Volkswagen (40%), com a notável exceção da Fiat (35%).
Condutores gastam mais 549€/ano em combustível face ao publicitado por fabricantes
A manipulação dos dados de eficiência no consumo de combustível por parte dos fabricantes de automóveis é motivo de desilusão para os condutores europeus, cujos veículos consomem mais combustível do que o anunciado em meios de publicidade. Isto significa que um condutor típico gasta, em média, cerca de 450€ a mais por ano em combustível, comparando com os  valores de consumo publicitados pelos fabricantes de automóveis.
Automóveis são os mais poluentes no setor dos transportes
 Os automóveis são responsáveis por 15% das emissões totais de CO2 na Europa, representando a maior fonte de emissões no setor dos transportes. A legislação europeia em vigor, que regula os limites de emissão de CO2, exige que os fabricantes de automóveis limitem as emissões médias de CO2 da sua frota de veículos a um máximo de 130 gCO2/km até 2015, e 95 gCO2/km até 2021. A Comissão Europeia pretende propor limites mais ambiciosos para 2025 no início do próximo ano.
Quercus defende investigação sobre dados de consumo e emissões anunciados pelos fabricantes
Enquanto membro da T&E, a Quercus lamenta que, uma vez mais, os fabricantes de automóveis estejam a enganar os condutores e em total incumprimento das regras ambientais, quando os seus veículos apresentam, em alguns casos, um consumo real de combustível superior em 50% face ao declarado.
A Quercus defende que a Comissão Europeia e as autoridades nacionais de homologação de veículos devem investigar de forma séria e alargada todos os fabricantes de automóveis, e avaliar se estão a usar dispositivos para manipular os dados de consumo de combustível em ambiente de laboratório. Decorrido mais de um ano após o escândalo das emissões nos Estados Unidos que envolveu a Volkswagen (o chamado “Dieselgate”), a Quercus, em linha com a T&E, espera uma rápida atuação para clarificar com a maior transparência possível este novo caso de manipulação que já foi apelidado de “Autogate”.
 Nos últimos quatro anos, não tem sido registadas melhorias na eficiência dos novos veículos a circular nas estradas europeias, precisamente porque os fabricantes estão a manipular os testes em laboratório para atingir os seus objetivos de redução de emissões de CO2, em vez de redesenharem os seus veículos para torná-los mais eficientes. Como resultado, os condutores estão a ser enganados e forçados a pagar mais combustível, enquanto os governos são defraudados em receitas fiscais e o cumprimento das metas climáticas enfraquecido.
 Lisboa, 20 de dezembro de 2016
A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza